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1.2 Antecedentes da Revolução

1.2.1 Os escravos se levantam em Saint-Domingue

As massas de Saint-Domingue se organizam para uma revolução. Em

cerimônicas vodu, os escravos se encontram durante a noite e tramam, passo a passo,

formando várias redes. Um homem está por trás disso: Boukman, escravo fugitivo de

origem jamaicana, “papaloi o alto sacerdote, um negro gigantesco” (JAMES, 2010, p.

138). Desde os esquemas de envenenamento de Macandal, os escravos haviam

avançado muito no que diz respeito à insubordinação. Não se tratava mais de fugas,

revoltas ou motins; o que estava em marcha agora era um movimento insurgente das

massas escravizadas de Saint-Domingue: uma revolução. Acerca do papel de Boukman,

diz ainda C. L. R. James:

El alcance y la organización de esta revuelta demuenstran que Boukman fue el primero de esta estirpe de grandes líderes que los esclavos aportarían con tanta profusión y rapidez durante los años seguientes. Que una conspiración tan amplia no fuera descubierta hasta su estallido es testimonio de su solidaridad (JAMES, 2010, p. 138).

Sobre a importância de Macandal na organização da Marronage, destaca Leoné

Barzotto ao analisar o romance A ilha sob o mar (2010) de Isabel Allende (2011, p. 8):

A marronage é sinônimo de resistência por si só, inclusive a cultural, como é o caso, na introdução desse personagem histórico, a característica de um personagem ficcional na narrativa em questão. De acordo com Eurídice Figueiredo (1998, p. 16, grifos da autora) a “palavra marron vem do espanhol simarron, que designa um macaco que se esconde no mato e só sai

rede de colaboradores, dentre os quais havia, geralmente, escravos próximos aos senhores: cocheiros, cozinheiros, mucamas etc. Durante o dia, Macandal formava sua rede de colaboradores. Durante a noite, comandava uma escola na qual ensinava a preparação das ervas com o intuito de aprofundar a memória coletiva. Uma noite, no entanto, aproximando-se bêbado de uma cerimônia entre os escravos, Macandal foi traído e capturado. Sua sentença: a morte. Antes disso, no entanto, a rede de envenenamento criada por ele havia feito no mínimo seis mil brancos sucumbirem. Sua história foi retratada por Alejo Carpentier nas primeiras páginas de El reino de este mundo, no qual o romancista cubano recria a Revolução Haitiana. Um trecho bastante interessante é, no romance, o da execução de Macandal. Em sua execução, determinada a ser em praça pública para servir de exemplo, ele consegue libertar-se. Ouve-se, então, na multidão, os gritos: “Mackandal sauvé!”. (CARPENTIER, 1985, p. 31) Em meio ao estrépito, os negros presentes na execução nem se dão conta de que Macandal fora rapidamente recapturado pela guarda, que enfia sua cabeça nas brasas ardentes, matando-o. Macandal cumpre assim sua promessa, a de permanecer no “reino deste mundo”, vivo, pois os escravos não perceberam sua morte. Torna-se, assim, com seu desaparecimento, personagem mítico entre os haitianos.

furtivamente para comer. Nas Antilhas, o marron geralmente se refugiava no alto das colinas.” Assim sendo, o Macandal real e o ficcional desenvolvem a marronage, pois assumem como missão de vida a libertação de seus pares do agriolhamento da escravidão. Logo, a marronage é a resistência por excelência. Cogita-se que Macandal tenha desenvolvido exímias estratégias de guerra que, somadas ao seu poder de discurso e união dos escravos, conseguiram juntar cerca de quinhentos mil negros a lutar contra cinquenta mil soldados franceses enviados por Napoleão ao Caribe. Por tudo isso, o personagem se transforma em mito e a „Revolução Macandal‟ ultrapassa as fronteiras do Haiti e se propaga por todas as nações antilhanas, levando esperança aos escravos e sustentando a coragem de fuga dos marrons, em vários países dominados na época. Acredita-se que o bravo espírito de Macandal instigou o potencial de luta por mais de três décadas nas Antilhas, o que justifica o fato de ele ser considerado o mais bem sucedido revolucionário negro na história da escravidão do Caribe (BARZOTTO, 2011, p. 5).

Portanto, à época de Macandal, a situação era bastante tensa. Em princípio de

agosto de 1791, os escravos situados perto do distrito de Limbé levantaram-se

antecipadamente e foram esmagados. O governador Blanchelande então toma

precauções, protegendo a cidade do Cabo, demonstrando, no entanto, muito desprezo

pelos negros, imaginando que eles seriam incapazes de fazer um movimento de massas

como o que estava se desenvolvendo nos bastidores. Foi algumas semanas mais tarde,

numa cerimônia vodu, na noite de 22 de agosto de 1791, no chamado Bois Cayman

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(situado no Morne Rouge), que teve início a grande revolução dos escravos de

Saint-Domingue:

La noche del 22 hubo una tormenta tropical con relámpagos, ráfagas de viento y fuertes aguaceros. Com antorchas para iluminar su paso, los líderes de la revuelta, se reunieron en un claro del espeso bosque de Morne Rouge, una montaña desde la que se divisaba El Cabo. Allí, Boukman dio las instrucciones y después de las invocaciones vodu y beber la sangre de un cerdo apuñalado, estimuló a sus seguidores con una oración en creol que, como mucho lo que se dice en tales ocasiones, há llegado hasta nosotros (JAMES, 2010, p. 139).

A importância do vodu como religião que unifica um povo em torno a uma

identidade e o impele a libertar-se da escravidão é clara. Como diz Laënnec Hurbon,

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Esta cena, a cerimônia vodu protagonizada por Boukman, também é retratada por Alejo Carpentier em El reino de este mundo, no capítulo 2 da segunda parte.

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Transcrevemos aqui, por julgarmos demasiado longa para a citação, a oração proferida naquela cermônia pelo papaloi Boukman, segundo James: “El dios que creó el sol que nos alumbra, que levanta las olas y gobierna la tormenta, aunque escondido entre las nubes, nos observa. Ve todo lo que hace el blanco. El dios del blanco lo inspira com el crimen, pero nuestro dios nos llama a hacer buenas obras. El dios que es Bueno para nosotros nos ordena que venguemos nuestros agravios. Dirigirá nuestros brazos y nos ayudará. Boten el símbolo del dios de los blancos que tanto nos há hecho llorar, y escuchen la voz de la libertad, que nos habla en el corazón de todos nosotros.”

Or ce qu‟on constate, c‟est plutôt la détermination des masses esclaves à recréer et à

revivre les traditions religieuses africaines. Dans le cas d‟Haïti, on sait que la lutte

pour l‟indépendance prend son point de départ au cours d‟une cérimonie-vodou en août

1791

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(HURBON, 1987, p. 138).

Os escravos então destruíram sem cessar durante várias semanas, apoderando-se

das planícies e queimando as plantações por onde quer que passassem, vingando-se dos

senhores brancos, sem, no entanto, ter os mesmos requintes de crueldade, sem as

torturas dos senhores, como, segundo James, “(...) enterrar a los blancos hasta el cuello

y untar los orifícios de la cara para atraer insectos, o hacerlos explotar con pólvora”

(2010, p. 141). Os mulatos, que odiavam os negros escravos, uniram-se a eles, vendo o

sucesso do movimento revolucionário. A única cidade que conseguiu se salvar foi Le

Cap, graças às precauções tomadas pelo governador Blanchelande.

Neste momento são transplantadas para a colônia a rivalidade entre as potências

europeias, à qual nos referimos no subitem anterior. Os espanhóis, possivelmente

pretendendo se apoderar da outra parte da ilha na qual estava situada Saint-Domingue,

apóiam os escravos em sua rebelião. A França, pretendendo recuperar o apoio dos

affranchis, declara, em 1792, que eles são iguais aos homens brancos, reconhecendo

seus direitos de posse e lhes possibilitando assim a ascensão social. Indignados, os

grands blancs passam a solicitar o auxílio da Inglaterra, tanto contra os affranchis como

contra os escravos. Essa situação turbulenta, cujo estopim fora a cerimônia no Bois

Cayman, faz a França, em setembro de 1792, enviar um contingente de seis mil homens,

comandados por Santhonax. Pouco conseguiram, no entanto, os franceses, pois com a

interferência da Inglaterra e da Espanha era insustentável à França manter a resistência

contra os escravos. Isso faz com que Santhonax, em abril de 1793, proclame a abolição

da escravidão na ilha, procurando atrair para as tropas francesas os negros que lutavam

ao lado da Espanha.

Os ex-escravos, que lutavam então sob o pavilhão espanhol, passaram para o

lado da França. É nesse contexto que desponta o nome de um homem, tido até hoje

como grande símbolo da revolução haitiana e fonte de inspiração para o movimento da

Négritude posteriormente: Toussaint L‟Ouverture. Com uma idade avançada, quarenta e

cinco anos, quando as movimentações revolucionárias tiveram início na ilha, Toussaint

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Ora, o que se constata é mais a determinação das massas escravas a recriar e a reviver as tradições religiosas africanas. No caso do Haiti, sabe-se que a luta pela independência teve seu ponto de início em meio a uma cerimônia de vodu em agosto de 1791.

tivera uma vida bastante calma e diferente da grande massa de escravos da colônia de

Saint-Domingue. Ter caído em mãos de um amo relativamente benévolo, que o devotou

ao pastoreio, dando-lhe, portanto, tempo livre, permitiu que Toussaint desenvolvesse

sua inteligência, que era evidente desde os mais tenros anos. Teve, ademais, alguma

educação, falando o francês muito bem e sabendo rudimentos de geometria e latim; leu

um pouco também, por exemplo, os Comentários, de César e um grosso volume sobre

as Índias Ocidentais e Orientais, o que lhe deu noções de economia, arte militar e

política. Quando a revolução explodiu, Toussaint vivia com sua esposa, a qual enviou a

um lugar seguro na parte espanhola da ilha. Protegeu da destruição durante algum

tempo a propriedade de seus amos, por fim, enviou sua ama, protegida por seu irmão, à

Le Cap, e dirigiu-se ao acampamento dos escravos rebelados. Sobre ele, dentre muitas

outras coisas, diz-nos James:

Fue un líder desde el momento en que se incorporo a la Revolución, y avanzó sin oposición seria hasta la primera línea. Hemos señalado com claridad las grandes fuerzas actuantes en la crisis de Saint-Domingue, pero los hombres hacen la historia y Toussaint hizo la historia que hizo porque era el hombre que era. Tuvo oportunidades excepcionales, y tanto física como mentalmente estaba muy por encima del esclavo común. La esclavitud embota el intelecto y degrada el carácter del esclavo. No había nada de embotamiento ni degradación en Toussaint (JAMES, 2010, p. 143).

Toussaint tornou-se assim, sem grandes oposições, o “primeiro dos negros”,

como se chamaria mais tarde, numa carta a Napoleão, “o primeiro dos brancos”. Sob o

comando de Toussaint, as hostes dos negros, lutando depois da abolição da escravidão

ao lado da França, rapidamente conseguiram vencer a Espanha. A França tinha outra

vez o domínio da colônia, e firmou-se, pelo Tratado de Basiléia, que a Espanha cederia

a parte oriental da ilha para a França, durante um curto período no qual a ilha foi

novamente unificada. Os ingleses, no entanto, continuavam a assediar a colônia,

impulsionados pelos grands blancs, que estavam agora duplamente descontentes; se, de

início, seu desgosto era somente pela igualdade que os affranchis e mulatos haviam

conquistado, somou-se a isso a libertação dos escravos por Santhonax, o que, além de

lhes retirar o poder que a escravidão proporcionava, obrigava-os a procurar mão-de-obra

assalariada para as plantations: o resultado era seu poder político, social e econômico

diminuído. Os grands blancs só se acalmaram em 1798, quando os britânicos cessaram

esforços depois do exército comandado por L‟Ouverture ter causado vinte mil baixas às

tropas inglesas. O objetivo dos escravos havia sido alcançado: a liberdade, e nada

menos.

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