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OS ESPAÇOS METROPOLITANOS DE CURITIBA, PORTO ALEGRE E

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS 279 REFERÊNCIAS

3 A MODERNIZAÇÃO METROPOLITANA RETARDATÁRIA

3.4 OS ESPAÇOS METROPOLITANOS DE CURITIBA, PORTO ALEGRE E

RECIFE: VANTAGENS PARA A ANÁLISE COMPARATIVA DOS PROCESSOS DE MODERNIZAÇÃO

Até aqui, discutimos a geograficidade da inovação em sua interface com a produção dos grandes espaços metropolitanos. Assim, observamos que as capacidades de inovar apresentam grande concentração metropolitana, que estão sujeitas a mudanças dos patamares técnicos nos ciclos do capitalismo, o que configura um cenário em que diferentes espaços metropolitanos assumem distintas funções, referenciados por aqueles que assumem a dianteira na produção dos parâmetros tecno-econômicos que são difundidos em cada onda de desenvolvimento.

Como consequência, temos um cenário em que a modernização é referenciada e, em alguns casos, retardatária, justamente porque na difusão cíclica dos parâmetros técnicos a capacidade de absorção e criação de novos patamares tecnológicos apresenta diversos constrangimentos, que repercutem em baixa capacidade de aprendizado e, portanto, de inovação.

Assim, um desdobramento natural desse quadro é a necessidade de aplicá-lo metodologicamente ao estudo de determinados espaços metropolitanos para análise de seu processo de criação de capacidades específicas de inovação. É nesse sentido que entendemos a viabilidade de aplicação desses conceitos ao estudo dos espaços metropolitanos de Curitiba, Porto Alegre e Recife.

A escolha desses espaços metropolitanos decorre do fato de que, no atual cenário da rede urbana brasileira, altamente interconecta e ligada às dinâmicas do capitalismo globalizado, a aplicação do conceito de modernização retardatária, por meio de metodologia comparativa, requer a escolha de áreas com funções superiores no quadro urbano. Isso tanto pelo fato de que a bibliografia especializada tem mostrado o papel relevante desses espaços metropolitanos, como também pelo fato de que a comparação de centros ainda superiores, como São Paulo, torna-se bastante complexa, provavelmente recomendando o estudo comparativo com grandes centros de outros países, em que a obtenção de dados se torna menos garantida.

Assim, é entre as áreas classificadas como metrópoles, segundo o estudo de Região de Influência das Cidades – REGIC – (IBGE, 2008), que podemos encontrar aquelas para as quais seja exequível a aplicação de metodologia comparativa voltada para a análise da modernização retardatária.

Dessa forma, entre as nove metrópoles elencadas no REGIC – Manaus, Belém, Fortaleza, Recife, Salvador, Belo Horizonte, Curitiba, Goiânia e Porto Alegre – (IBGE, 2008), consideramos que aqueles de Porto Alegre, Recife e Curitiba formam uma adequada base comparativa, tendo em vista que apresentam dinâmicas recentes de metropolização, com investimentos diretos em setores de ponta, tanto dos serviços como da indústria, bem como por um patamar populacional razoavelmente próximo, o que facilita a comparação de números de pessoas envolvidas em certas atividades ou integrantes das ocupações técnico-científicas, por exemplo.

Os três espaços metropolitanos remontam à fundação de pequenos povoados e vilas entre os Séculos XVI e XVIII, conforme as lógicas do expansionismo ibérico, tendo participado de certos ciclos econômicos que garantiram seu crescimento populacional, de negócios, de infraestruturas e de importância regional, ainda que em períodos de modelo econômico pré-industrial. Essas aglomerações, que ao longo desses diversos ciclos econômicos avançaram em suas funções regionais, formando as capitais políticas de seus respectivos estados, passaram, ao longo do Século XX e início do Século XXI, por um processo de maior conectividade com o capital internacional, com novas atividades industriais mais modernas e de serviços, concentrando diversas empresas, investimentos diretos, novas infraestruturas de comunicação e de transportes e, assim, ampliando seu papel regional, agora em um cenário economicamente mais moderno.

Assim, Curitiba, Porto Alegre e Recife, com o tempo, foram passando de suas funções ligadas a transporte, entrepostos e administração de economias primárias (entre elas cana, em Pernambuco, gado de corte, no Rio Grande do Sul, além de madeira e mate, no Paraná), para funções cada vez mais complexas, primeiramente industrialização de produtos básicos (ramos alimentício, por exemplo), passando pela instalação de novos setores industriais e de serviços, crescentemente complexos, para o atendimento de demandas em escalas cada vez mais amplas. Essa é a base sobre a qual houve a formação de novas infraestruturas, atração de capitais e presença de pessoal qualificado para investimentos diretos em ramos mais sofisticados da economia.

Por essa razão, o estudo “Divisão do Brasil em regiões funcionais urbanas” (IBGE, 1972) apresenta uma rede urbana brasileira, com data de referência em 1966, em que Recife e Porto Alegre já surgiam como centros metropolitanos regionais (junto com Salvador e Belo Horizonte), enquanto Curitiba se encontrava em nível inferior, mas ainda elevado, entre os centros macrorregionais, juntamente com Fortaleza, Belém e Goiânia. Entre 1966 e 1993, os espaços metropolitanos de Curitiba, Recife e Porto Alegre consolidaram sua posição superior, ampliando sua região de influência. Por essa razão, o estudo de “Regiões de Influência das Cidades 1993” – REGIC 1993 – apresentou essas centralidades com grau muito forte (IBGE, 2000), ao passo que o REGIC 2007 (IBGE, 2008) identificou grandes indicadores de concentração metropolitana em suas respectivas redes de cidades.

Assim, em 2007, a rede urbana de Curitiba se estendia pelos estados do Paraná e de Santa Catarina, articulando o espaço metropolitano a uma capital regional, Florianópolis (SC), algumas capitais regionais B, Cascavel (PR), Londrina (PR), Maringá (PR), Blumenau (SC), Chapecó (SC) e Joinville (SC), além de diversas capitais regionais C, centros sub-regionais e centros locais. Essa rede urbana, em 2007, era formada 666 municípios, com 16,2 milhões de habitantes (8,9% da população brasileira), 3,5% do território nacional e 9,9% do PIB. O Núcleo urbano- metropolitano, conforme considerado pelo IBGE era formado por 14 municípios, com população de 3,0 milhões de habitantes, e concentração de 26,6% do valor adicionado dos serviços e 23,4% do valor adicionado da indústria de sua rede.

Porto Alegre, por sua vez, em 2007, capitaneava a rede de cidades do Rio Grande do Sul, dividindo a influência sobre Santa Catarina com Curitiba. Sua rede urbana incluía Florianópolis (SC), capital regional A; além de Blumenau (SC), Chapecó (SC), Caxias do Sul (RS), Passo Fundo (RS) e Santa Maria (RS), capitais regionais B. Em seu conjunto, em 2007, essa rede urbana era formada por 733 municípios, com 15,3 milhões de habitantes, ocupando 4,1% do território nacional e 9,7% do PIB brasileiro. Para o IBGE (2008), o núcleo era formado por 12 municípios, que tinham 24,1% do PIB de toda a rede e 19,2% da população.

Em 2007, Recife era uma metrópole regional, cuja influência se estendia por todo estado de Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte, Alagoas e parte do norte da Bahia. Assim, sua rede urbana incluía capitais regionais A, como Natal (RN), João Pessoa (PB), Maceió (AL), além de uma capital regional B, Campina Grande (PB), entre diversas capitais regionais C, bem como diversos centros sub-regionais e locais, que, no conjunto, perfaziam 666 municípios, com 3,6% do território nacional, 18,9 milhões de habitantes (10,26% da população nacional), 4,71% do PIB. Pelos cálculos do IBGE, o núcleo central dessa rede urbana era formado por 14 municípios, com 3,7 milhões de habitantes e quase um terço dos valores adicionados da indústria e dos serviços de toda sua área de influência (IBGE, 2008).

Em todos os casos, tão ampla área de influência, que ultrapassa os limites dos próprios estados, aliada à concentração populacional e de atividades econômicas, indica que esses espaços metropolitanos têm grande relevância na estruturação das funções urbanas em nível regional. Nesse sentido, configuram-se como unidades

metropolitanas em que serviços especializados podem ser oferecidos para amplos mercados, o que os tornam o lugar preferencial para a instalação de funções superiores da economia e para o surgimento de sinergias sistêmicas que ensejem inovação.

A fim de delimitar os municípios que compõem os espaços metropolitanos de interesse, utilizamos o estudo “Integração dos municípios brasileiros à dinâmica da metropolização”, do Observatório das Metrópoles (RIBEIRO et al, 2014). Esse estudo categorizou os municípios das regiões metropolitanas brasileiras em níveis de integração (polo, muito alto, alto, médio, baixo e muito baixo). Assim, foram selecionados os municípios que eram categorizados com nível de integração a partir de médio.

Em meio às discussões das diversas escalas de urbanização, como da urbanização regional (SASSEN, 2007), dos arranjos populacionais (IBGE, 2017), dos arranjos urbano-regionais (MOURA, 2009), no presente trabalho, buscamos selecionar áreas que estivessem intimamente ligadas a um mercado comum local, em que as trocas de conhecimento pudessem ser potencializadas pela proximidade. Assim, acreditamos que, em meio a essas escalas cada vez mais amplas de análise da urbanização, o critério de seleção das áreas de interesse, segundo nível de integração apresentado por Ribeiro et al (2014), permite a identificação daquelas mais integradas quotidianamente ao espaço metropolitano.

Pelo critério adotado, o espaço metropolitano de Curitiba é formado por quatorze municípios: Almirante Tamandaré, Araucária, Campina Grande do Sul, Campo Largo, Campo Magro, Colombo, Curitiba, Fazenda Rio Grande, Itaperuçu, Pinhais, Piraquara, Quatro Barras, Rio Branco do Sul e São José dos Pinhais. Esses municípios e sua localização se encontram apresentados na FIGURA 2.

FIGURA 2 – ESPAÇO METROPOLITANO DE CURITIBA

Trata-se de um território altamente integrado, com elevada concentração serviços mais dinâmicos e das indústrias mais avançadas no polo, Curitiba, mas que conta com participação significativa de alguns sub-centros como São José dos Pinhais e Araucária nas dinâmicas metropolitanas. O primeiro tem se destacado a partir da instalação, na década de 1990, de polos industriais diversos, sobretudo ligados aos ramos automobilísticos, enquanto o segundo se apresenta como relevante polo de indústria petroquímica, por conta da presença da Refinaria Presidente Getúlio Vargas (REPAR), além da presença da Companhia Siderúrgica Nacional, entre outras empresas de diversos ramos.

Após um vertiginoso incremento da sua participação no processo brasileiro de metropolização, na década de 1990, o espaço metropolitano de Curitiba apresenta atualmente uma elevada concentração populacional e econômica.

Em 2017, a estimativa do IBGE (2017a) era de 3.319.283 habitantes nos quatorze municípios do espaço metropolitano, o equivalente a 29,32% dos habitantes do estado do Paraná. Desses, 1,9 milhões se encontravam no polo metropolitano, 308 mil em São José dos Pinhais e 237 mil em Colombo.

Economicamente, o espaço metropolitano de Curitiba, no ano de 2015, produziu um PIB da ordem de 142 bilhões de reais. Isso significa que esses quatorze municípios contavam com 37,6% do PIB produzido pelos 399 municípios do estado do Paraná naquele ano (IBGE, 2018).

Por sua vez, o espaço metropolitano de Porto Alegre é formado por Alvorada, Cachoeirinha, Campo Bom, Canoas, Charqueadas, Dois Irmãos, Eldorado do Sul, Estância Velha, Esteio, Gravataí, Guaíba, Ivoti, Montenegro, Nova Hartz, Nova Santa Rita, Novo Hamburgo, Parobé, Portão, Porto Alegre, Santo Antônio da Patrulha, São Jerônimo, São Leopoldo, Sapiranga, Sapucaia do Sul, Taquara, Triunfo e Viamão, conforme mostrado na FIGURA 3.

FIGURA 3 – ESPAÇO METROPOLITANO DE PORTO ALEGRE

O espaço metropolitano porto alegrense passou por diversas dinâmicas recentes que, ao passo que garantiram uma concentração de atividades superiores, com representatividade de setores de ponta nos serviços e na indústria, também contou com um processo de retirada de setores tradicionais, com elevada capacidade de empregabilidade.

Ainda assim, há uma primazia do espaço metropolitano de Porto Alegre na rede urbana gaúcha, o que garante uma elevada concentração de diversos fatores produtivos, de setores de ponta, de população e atividades econômicas em geral.

Em 2017, os municípios constituintes do espaço metropolitano de Porto Alegre somavam 4.208.931 habitantes, o que correspondia a 37,2% da população do Rio Grande do Sul. Porto Alegre era responsável por concentrar aproximadamente 1,5 milhões desses habitantes, seguida de Canoas, com quase 344 mil, além de Gravataí, Viamão, Novo Hamburgo e São Leopoldo, que tinham entre 231 mil e 275 mil residentes (IBGE, 2017a).

O espaço metropolitano de Porto Alegre, em 2015, foi responsável pela geração de um PIB da ordem de 161 bilhões, o equivalente a 42,1% da riqueza produzida em todo estado do Rio Grande do Sul, com seus 497 municípios (IBGE, 2018).

No que tange ao espaço metropolitano de Recife, seus municípios são: Abreu e Lima, Araçoiaba, Cabo de Santo Agostinho, Camaragibe, Igarassu, Ipojuca, Itapissuma, Jaboatão dos Guararapes, Moreno, Olinda, Paulista, Recife e São Lourenço da Mata. O território desse espaço metropolitano é apresentado na FIGURA 4.

Trata-se de um espaço metropolitano que tem passado por vertiginoso processo de recepção de investimentos diretos, o que tem intensificado sua integração metropolitana e regional. Os investimentos em setores diversos dos serviços bem como da indústria têm sido relevantes, incluindo-se a instalação da refinaria de Abreu e Lima e das indústrias contíguas ao Porto de Suape.

FIGURA 4 – ESPAÇO METROPOLITANO DE RECIFE

Em 2017, a estimativa do IBGE era de 3.939.910 habitantes nos treze municípios do espaço metropolitano recifense, o que representava uma elevada concentração estadual, equivalente a 41,6% dos quase 9,5 milhões do estado e Pernambuco. O município Recife concentrava parte significativa dessa população, com 1,6 milhões de habitantes, seguida de Jaboatão dos Guararapes, com quase 696 mil e Olinda, com quase 391 mil residentes (IBGE, 2017a).

Trata-se de um espaço metropolitano com crescente capacidade de produção econômica, alcançando, em 2015, um PIB de 95 bilhões de reais. Trata-se de 60,8% da riqueza gerada em todo o estado de Pernambuco naquele ano (IBGE, 2018).

Ante o exposto, observamos que os espaços metropolitanos de Curitiba, Porto Alegre e Recife se encontram em posição de topo na hierarquia urbana brasileira, apresentando grande concentração populacional e econômica em seus respectivos estados. Trata-se de espaços que passaram por significativo processo de metropolização, com formação de uma espacialidade capaz de agregar funções superiores, como P&D, C&T e algum grau de sinergias sistêmicas de aprendizado para inovação.

Por essa razão, entendemos que esses espaços metropolitanos são adequados para que neles possamos aplicar, por método comparativo, a análise do processo de modernização retardatária e suas consequências para a formação de capacidade diferenciada de inovação. Nesse sentido, o próximo capítulo visa, justamente, a analisar os dados estatísticos de diversas dimensões da realidade que possam demonstrar o processo de modernização desses espaços metropolitanos, com sua formação de condições necessárias para aprendizado e inovação, além dos gargalos que possam interferir negativamente nesse potencial.

4 CONDIÇÕES DE MODERNIZAÇÃO RETARDATÁRIA NOS ESPAÇOS