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116 5 A EDUCAÇÃO NO PERÍODO DE NACIONALIZAÇÃO NO

5.5 PODER DO ESTADO

5.5.4 Os espiões e as perseguições.

Lembro era proibido falar em italiano. (ZELINDA, 2010).

Eu tinha medo, a gente ficava sem falar por causa do medo de pegarem eles. (FAUSTINA, 2010). As perseguições ocorreram em razão da língua falada, ou seja, quem não falasse a língua portuguesa era considerado um traidor da pátria brasileira e poderia ser delatado. Alcides (2010) diz que havia muita gente que gostava de Getúlio, contudo, “[...] nessa época tinha uma negrada que se via alguém falando em italiano tratava de denunciar para o inspetor de quarteirão”. O inspetor foi descrito pelos entrevistados como um “delegado” cuidava do bom andamento da localidade e evitava qualquer problema que pudesse ocorrer.

Os espiões estavam a todo o tempo escutando atrás da porta, pelas frestas ou pelas janelas; qualquer pessoa que falasse em língua que não fosse a portuguesa era entregue ao inspetor de quarteirão, como relata Duzolina (2010): “eles ficavam vigiando”. Inês (2010) conta que

45 UDN, União Democrática Nacional, partido político que existiu no Brasil que se originou após a queda do Estado Novo.

46 Morador local que andava armado e podia denunciar as pessoas que falassem em outra língua que não fosse a portuguesa. Causador de medo nos descendentes de italianos.

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“Não se podia falar em italiano, tinha espiões que vinham escutar se a gente falava em italiano, ou se ouvia o rádio em italiano. Ele espiava e ia contar depois pro delegado. A gente tinha um medo! Quando escurecia, a mãe mandava fechar bem a casa”. Mafalda (2010) rememora: “Lembro do nego que vinha escutar na janela do lado da rua para escutar se falavam em italiano e a rádio. Sim, tinha tempo lá que tinha proibido falá em italiano, mas a gente em casa falava mesmo [...].”

Hortência (2010) conta que “O pai encostava a orelha no rádio para ninguém de fora ouvir o que ele estava escutando, ele tocava tudo nóis pro quarto. O pai dizia que podia casar com tudo as raças menos com negro”. Inês (2010) conta que o homem espiava à noite, mas de dia era amigo de sua família. Já Alcides (2010) lembra que “Tinha um metido a bandidão um não podia falar em italiano que ele entregava”. Assim alguns descreveram o “espião” como sendo um homem simples, mas o que chamou atenção da entrevistadora foi o sentimento de raiva expresso ao falarem do espião negro.

Dos brasileiros ouviam piada quanto à sua origem, como relata o descendente de imigrante italiano Giacomo (2008): “Com freqüência éramos chamados de gringos. Mas, sem nos darmos conta do significado da resposta, retrucávamos: quinta coluna47”. Pedro (2009), outro entrevistado, conta: “Ali quem simpatizava com italiano era chamado de quinta coluna, era meio perseguido; quem era enquadrado como quinta coluna tinha que se cuidá, podia ser perseguido, era descriminado”. Conta, ainda, que seu pai, por sua ascendência italiana, teve um empréstimo negado para comprar mais terras sob a alegação de ser simpatizante dos italianos.

O uso da força contra os imigrantes e seus descendentes passou a fazer parte do seu cotidiano, assim cada vez mais eles ficavam calados. Entretanto, nas colônias, havia a questão da distância territorial o que dificultava o processo de nacionalização, o que não ocorria nas cidades. Percebe-se na fala de Ângela (2010) que “Tudo mundo falava em italiano, era mais isolado”. Marina (2010) relembra que eles ficavam só, em casa, no interior.

O sentido do silêncio que passou a ocorrer dentro das casas das famílias de imigrantes e de seus descendentes foi o modo encontrado para que pudessem garantir a sua liberdade fora de casa perante a

47 No período da Guerra Mundial, essa expressão referia-se “àqueles que agiam sub- repticiamente num país em guerra, ou em vias de entrar na guerra, preparando ajuda em caso de invasão ou fazendo espionagem e propaganda em favor do Eixo” (CPDOC/FGVp, [19--], s/p ).

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sociedade. Filomena (2010) relata que “As pessoas tinham medo de sair de casa, medo de falá na cidade, a gente tinha o português muito ruim, a gente falava muito mal”.

Segundo Orlandi (1992, p. 51-52), “Compreender o silêncio é explicar o modo pelo qual ele significa”. Explicar o silêncio refletido na necessidade de sobrevivência. A campanha nacionalista por meio da forças aqui atingiu seu objetivo, a utilização do método foi opressão para com essas pessoas que viviam tranquilamente em seus lares. Dessa maneira, o “[...] o silêncio não é interpretável mas compreensível”, atingindo inclusive os espaços privados e as relações mais íntimas do lares e das relações familiares.

Alguns dizem que não se sentiram perseguidos pela sua nacionalidade e nem ficaram com mágoas, contudo relatam fatos comprovando que isso ocorreu. Zelinda (2010) relata que “[...] a mãe dizia para cuidar na escola, para não levar castigo do professor”. Duzolina (2010) conta:

Não sentia perseguida, minha irmã me repreendia para que eu não falasse errado[a língua portuguesa]. Me lembro que meu pai teve que fica no mato uma semana por causa de uma revolução, eles pegavam , matavam, meu pai ficava a cavalo no mato, os perseguidores eles vinham de trem do Rio Grande. Não me lembro o ano, se eles pegavam alguém, apanhavam.

Contudo, Duzolina (2010) relata que “As coisas ruins eles [os pais] não contavam sobre essa perseguição, eu não sei, o meu pai nunca contou, só se foi pros meus irmãos mais velhos”.

Com o decorrer da II Guerra Mundial, imigrantes e descendentes de italianos e alemães que viviam em Santa Catarina ficavam acuados em razão da sua nacionalidade, muitos sendo considerados perigosos para o Brasil, pela suspeita de serem traidores ou informantes dos nazistas. Houve racionamento de alimentos e os descendentes de estrangeiros tiveram dificuldades em conseguir, principalmente dois produtos principais: o café e o açúcar, como conta Zelinda (2010). Pedro (2009) também relata a dificuldade durante a guerra: tinham de racionar café e açúcar. A sua mãe torrava a cevada em um frigideira, depois jogava água quente e tomava.

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Augusta (2009) diz “Que passava os trens pra cima e pra baixo ai, eu me lembro que diz que era guerra que tinha, não sei o que, eu morava do outro lado [...] isso eu me alembro”.

No final da guerra Duzolina (2010) cantava: “[...] faz com que a guerra acabe na terra”. José (2008), sobre a II Guerra Mundial, narra:

A gente lembra assim que nos tínhamos um vizinho que era alemão. E ele sempre vinha na nossa casa. Então ele falava que eles tinham um rádio clandestino por aí, da Alemanha. Toda a sexta-feira eles saíam de casa, que era um vizinho né. Iam lá numa comunidade para escutar como que tava a guerra e depois que eles perderam a guerra eles ficaram mais assim, neutro né, não falavam mais, que antes eles falavam que se eles ganhassem a guerra eles iam de volta pra Alemanha, mas não foram mais de volta. Só que eles eram gente boa, até o pai de um desses aí, não falava em brasileiro, só em alemão e não entendia nada em brasileiro.

Segundo Fáveri (2005, p. 37) “Naqueles anos, estratégias governamentais arvoraram-se na produção de sujeitos que temessem um ‘outro’, ou aquele que, na contingência das relações, era inimizado por conta de sua origem étnica”. Filomena (2010) lembra o terror da guerra: “Foi a época dos brasileiros que foram pra lá. Meu cunhado foi expedicionário, depois logo acabou, ele chorava muito, achava que não ia mais voltar, tinha um sentimento de lutar contra seu próprio povo”.

Até hoje o medo ficou marcado nos descendentes de italianos, conforme descreve Bauman (2008, p. 8, destaque do autor): o “Medo’ é o nome que damos a nossa incerteza: nossa ignorância da ameaça e do que deve ser feito – do que pode e de que não pode – para fazê-la parar ou enfrentá-la, se cessá-la estiver além do nosso alcance”. O que está ao alcance dos entrevistados é contar o que ocorreu durante o Estado Novo. Mesmo hoje, a lembrança daquele período traz consequências para alguns entrevistados. Um medo, em forma de esquecimento, que calou alguns de maneira que fez o ressentimento vencer a memória e a fala.

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