CAPÍTULO 2: A BELEZA E O INFINITO
2.2 Os Estados do Ser Humano
A educação estética proposta por Schiller na realidade é profundamente muito mais uma estética do espírito, cujas leis próprias permitem ao homem uma transcendência, um caminho onde possa moldar-se, lapidar sua pedra bruta interior para enobrecer-se de maneira tal, a ponto de ele mesmo transmutar sua matéria, sendo o meio pelo qual a força infinita se manifesta permitindo o contato com o absoluto. Conforme a abordagem do autor na Carta XXII, em seu primeiro estado, o homem físico age ainda dominado, à mercê das emoções mais abruptas e de leis da razão coercitivas, sem que haja uma liberdade harmônica capaz de estabelecer uma quietude e equilíbrio interior. Assim, ele é apenas mundo, em uma vida meramente cega. Com a estética do espírito, abre-se a possibilidade de tornar-se uma verdadeira obra de arte, passando pelos dois estados seguintes. A passagem do estado físico para o estético é mais difícil que do estado estético para o moral, pois é um passo decisivo, muito maior, a ser dado internamente, já que o homem é uma pedra bruta à deriva, no fluxo de uma força cega. Esta elevação tem que se
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manifestar interiormente e no mundo exterior, demandando mais tempo e uma dose de esforço para que haja o refinamento. Para tanto, ele poderá alcançar este segundo estado, quando sua consciência desperta para a forma e a beleza atua em seu ser, como um fenômeno que acalma com serenidade plena as sensações mais instintivas, elevando as emoções para o nível das virtudes, refinando o gosto e permitindo o livre jogo com a razão, que se torna menos implacável, rígida e mais complacente, espontaneamente mais livre. Aqui o autor coloca a sensibilidade em um pilar tão elevado quanto a razão, já que esta atua com a espontaneidade decorrente da sensibilidade.
Do estado estético para o moral, o acesso é um pouco mais ameno, pois com a consciência ampliada e elevada esteticamente, as transformações no íntimo do ser passam por dimensões cada vez mais sutis. No estado moral a sensibilidade, já esculpida pela beleza, caminha serenamente pela trilha que leva à verdade. A razão, lapidada, enaltecida e nobremente equilibrada, dirige-se para o dever que, conforme as leis da liberdade, comunga em plenitude com a vontade e com o querer humano. Alcançado este terceiro estado, o homem será capaz de emitir juízos universais, pois estará agindo conforme a verdade e a moralidade maior, acima das individualidades.
Pela disposição estética do espírito, portanto, a espontaneidade da razão é iniciada já no campo da sensibilidade, o poder da sensação é quebrado dentro já de seus próprios domínios, o homem físico é enobrecido de tal maneira que o espiritual, de ora em diante, só precisa desenvolver-se dele segundo as leis da liberdade. O passo do estético para o lógico e moral (da beleza para a verdade e o dever) é, pois, infinitamente mais fácil que o do estado físico para o estético (da vida meramente cega para a forma). Aquele passo o homem pode dar por sua mera liberdade, já que precisa apenas tomar, e não emprestar, apenas isolar sua natureza, e não a ampliar; o homem disposto esteticamente emitirá juízos universais e agirá universalmente tão logo o queira.107
Esta última elevação do homem, infinitamente mais fácil, se dá na passagem da beleza para a verdade e o dever. Para que o homem sensível se torne estético, é necessária a transformação da sua natureza; em contrapartida, para que o estético se torne moral, é necessário que se lhe apresentem boas oportunidades e boas intenções, o que, para o autor, seria potencialmente mais fácil. O estado moral nasce do estético e nunca do físico. O indivíduo age e produz conforme as exigências da natureza, mas a forma como ele produz, a forma de sua atividade se expressa pelas exigências da razão. É tarefa da cultura estética elevar o homem em
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seus estados para que ele alcance o reino da beleza. É tarefa do homem travar uma batalha interna contra a matéria em seus próprios limites e “aprender a desejar mais nobremente”; a “querer de
modo sublime”. Para tal, uma alma nobre é aquela que traz um “tratamento espirituoso e
esteticamente livre da realidade comum”, e que torna possível ir “para além do dever”. Não há uma transgressão moral do dever e sim uma transgressão puramente estética do dever.108
Schiller enfatiza a função primordial da cultura – dar forma ao homem. O propósito maior é prover a sociedade com manifestações artísticas, cercando o homem físico com belas formas, músicas, poesias, esculturas, peças teatrais, com o objetivo de atuar de maneira gradual em sua sensibilidade, refinando seu gosto, buscando atingir um alvo interior que desperte a sua essência e consciência para a elevação e enobrecimento. Para tal, na Carta XXII, ele afirma: “É das tarefas mais importantes da cultura, pois, submeter o homem à forma ainda em sua vida meramente física e torná-lo estético até onde possa alcançar o reino da beleza, pois o estado moral pode nascer apenas do estético, e nunca do físico”.109 Existe uma ordem natural e progressiva entre os três estados, que não pode ser alterada – é uma conquista gradual para o ser humano.
Embora os períodos isolados possam ser prolongados ou abreviados por causas acidentais, encontradas na influência dos objetos exteriores ou no livre-arbítrio humano, eles não podem ser saltados, assim como a ordem de sua sucessão não pode ser invertida pela natureza ou pela vontade. No estado físico o homem apenas sofre o poder da natureza, liberta-se deste poder no estado estético, e o domina no estado moral.110
Estes períodos sucessivos, como Schiller aborda na Carta XXIV, são influenciados pelas circunstâncias. À mercê da destinação, vive o homem no primeiro estado, suscetível ao domínio das forças naturais atuantes. A liberdade é conquistada mediante a beleza, no estado estético, e o domínio da natureza se faz no estado moral, quando se amplia em plenitude. Na mesma carta, o autor afirma que no estado dinâmico (anteriormente denominado físico), a sociedade domava a natureza por meio da própria natureza; no estado estético, a sociedade se torna real, já que “executa a vontade do todo mediante a natureza do indivíduo” e no estado ético a sociedade se torna “(moralmente necessária), submetendo a vontade individual à geral”. O papel da beleza
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Ibid., Carta XXIII. p. 114-115.
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Ibid., Carta XXIII. p. 115.
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neste âmbito é promover um “caráter sociável”, pois se a necessidade submete o homem à sociedade e a razão impera por meio da implantação dos “princípios sociais”, a beleza através do gosto consegue trazer harmonia à sociedade e, conseqüentemente, harmonia ao indivíduo. Só a beleza unifica, harmoniza, totaliza. Todas as outras “formas de representação dividem o homem”, pois edificam-se ou na sensibilidade ou “na parte espiritual”. Pode-se compreender então que a beleza permite a aliança, a unificação das esferas sensível e espiritual em sua expressão. A sociedade apresenta-se dividida nas formas de comunicação que ora se utilizam da “receptividade”, ora utilizam a “habilidade privada de seus membros isolados”. A beleza, por sua vez, com seu tom unificante, permite a fruição do homem enquanto indivíduo e espécie, concomitantemente. O autor afirma que quando o homem experimenta a “magia” da beleza, se esquece de todas as suas limitações. O belo possibilita o “desejo insocial” que se expressa pelo abandono do egoísmo, pela ênfase no agradável e pela ampliação da “graça por sobre os espíritos”. Para tanto, a graça suaviza as “carências físicas” e traz certa ilusão de liberdade ao vínculo existente com a matéria. O estado estético, onde todos são cidadãos livres com direitos iguais, é o estado da “bela aparência”, existente como carência em “todas as almas de disposição refinada”. Schiller conclui afirmando que estas almas refinadas fazem parte de “círculos eleitos”, onde impera a beleza nos comportamentos simples e tranqüilos diante de situações conflituosas, nas condutas que não interferem na liberdade alheia e que não ferem a dignidade de nenhum indivíduo para expressão da graça e da beleza.111