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Os Estados Fracassados e suas Alternativas na Atualidade

3. DIREITO AO DESENVOLVIMENTO E ESTADOS FRACASSADOS: EM BUSCA

3.3 Os Estados Fracassados e suas Alternativas na Atualidade

Adentra-se agora na temática concernente às possíveis alternativas que os Estados fracassados – inseridos na atual complexidade internacional – terminam por suscitar. Será assim feita referência àquelas alternativas características da literatura sobre o fracasso estatal, bem como será também mencionado outro grupo de alternativas, de natureza um tanto diferente, alusivo à sociedade internacional contemporânea pulverizada por intensos processos globalizadores em correlação com as ideias de interdependência e de sociedade de risco.

118 Obviamente que por diferentes definições de Estado fracassado é possível chegar a várias

maneiras de se elencar quais configurariam nos dias de hoje essas entidades. Em anexo, como aludido, está o “Índice de Estados Fracassados” – ou “Failed States Index” –, o qual contribui em muito para uma possível enumeração. De todo modo, mesmo com todo o aporte teórico já delineado, no sentido de se responder a pergunta de quais seriam hoje os Estados efetivamente fracassados, são cabíveis diversas interpretações. Nesse sentido, conferir as críticas da literatura pós-positivista e, em especial, o pós-colonialismo de GROVOGUI, Siba N. Regimes of sovereignty: International Morality and the African Condition. European Journal of International Relations. Vol.8(3): 315-338.

Assim, em primeiro lugar, no que toca às alternativas características da literatura sobre o fracasso estatal, interessa afirmar que provêm dos diversos entendimentos acerca das origens da artificialidade estatal e do próprio âmbito das finalidades que um Estado deva por “essência” exercer (sem olvidar que isso também se liga à noção de Estado fracassado respectivamente albergada). Todas as perspectivas alegam, nesse contexto, ser indispensável uma readequação entre a realidade empírica do Estado com a sua realidade jurídica. As divergências ocorrem a partir do momento em que é preciso saber se o necessário seria adequar a realidade empírica à jurídica ou, ao contrário, se o que se configuraria realmente imperioso seria adequar a realidade jurídica à empírica (MONTEIRO, 2006).

Para exemplificar, no entendimento daqueles que afirmam ser imprescindível uma reforma das fronteiras ou então uma flexibilização que permita o desenvolvimento “natural” dos Estados (ambas as situações por conta principalmente de questões étnico-culturais), a solução seria adequar a realidade jurídica à empírica. No caso daqueles que preferem alternativas voltadas à construção de nações (nation building) ou de Estados (state building), a solução passaria por uma adequação da realidade empírica à jurídica. Há também outro entendimento, relativo ao reconhecimento e à inserção no sistema internacional de modelos e de atores alternativos – não necessariamente Estados –, perfazendo a realidade dos inúmeros povos e culturas (raciocínio correspondente à adequação da realidade jurídica à empírica). Aliás, há em anexo um quadro resumido (Anexo 3), útil para melhor compreender o fenômeno do fracasso estatal e a questão das alternativas ou soluções albergadas pela literatura dos Estados fracassados.119

Em segundo lugar, no que tange ao grupo de alternativas alusivo à sociedade internacional contemporânea pulverizada por intensos processos globalizadores em

119 Para a obtenção de maiores detalhes a respeito das alternativas ou soluções para os Estados

fracassados características da literatura acerca do fracasso estatal (e também sobre a relação de tais alternativas com a artificialidade estatal, com as “funções típicas de Estado” e com o âmbito conceitual dos Estados fracassados), consultar a obra de MONTEIRO, Leandro N. O Conceito de Estados Fracassados nas Relações Internacionais: Origens, Definições e Implicações Teóricas. Dissertação de mestrado. Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais. Universidade Paulista “Júlio de Mesquita Filho”; Universidade de Campinas; Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 2006.

correlação com as ideias de interdependência e de sociedade de risco, a questão se mostra talvez um pouco menos concreta e mais ligada a aspectos prescritivo- axiológicos. A problemática é a mesma do grupo anterior de alternativas (Estados fracassados e inadequação entre as realidades empírica e jurídica), apenas modifica-se o enfoque para uma visão mais geral e relativa à sociedade internacional contemporânea e sua crescente complexidade. Além disso, por ser prescritivo-axiológica, tal perspectiva se liga invariavelmente ao elemento normativo da sociedade internacional, referindo-se assim de modo específico ao direito ao desenvolvimento e, de maneira geral, aos direitos humanos.120

O que interessa neste momento não é entender se a atitude mais acertada é adequar a realidade empírica à jurídica ou o contrário, mas sim investigar o que subjaz a isso tudo, ou seja, compreender melhor quais são os desafios inerentes ao atual contexto – mormente no que concerne aos Estados fracassados –, para daí traçar proposições menos ligadas aos dilemas próprios da literatura do fracasso estatal e mais atreladas aos questionamentos das obras relacionadas em especial ao fenômeno da globalização.121

Retorna-se dessa maneira ao questionamento elaborado ao final do segundo capítulo, o qual aventava o seguinte: de que modo se poderia fomentar o desenvolvimento e bem assim diminuir as intensas desigualdades inter-regionais que trazem consigo o enigmático problema dos Estados fracassados? Obviamente que não há respostas prontas ou conclusivas para essa pergunta, mas de qualquer forma, na perspectiva pela qual aqui se propõe discutir o referido tema, é possível traçar alguns contornos propositivos. Para tanto, é necessário reformular a questão anterior e colocar os Estados fracassados no foco do debate, argumentando então

120 Isso não significa, de modo algum, não existirem elementos normativos e valorativos nas

considerações concernentes aos caminhos a serem tomados pelos Estados fracassados no que tange às alternativas específicas do que se chama aqui de “literatura acerca do fracasso estatal”. Para maiores detalhes a respeito, conferir a referida obra de Leandro N. Monteiro, que conta também com valiosas considerações acerca dos descompassos culturais e dos dilemas por eles trazidos. Neste último sentido (descompassos culturais), conferir também a obra de LUCAS, Doglas Cesar. Direitos humanos e interculturalidade: um diálogo entre a igualdade e a diferença. Ijuí: Unijuí, 2010.

121 Por outro lado, de uma maneira geral, as proposições que figurarão ao final deste capítulo podem

ser articuladas com aquelas do grupo anterior de proposições, concluindo assim que se aproximam da opção de se adequar a realidade empírica à jurídica, mesmo que isso não seja necessariamente ligado à ideia de “construção de Estados” (state building) ou ainda à ideia de “construção de nações” (nation building).

desta maneira: quais seriam as alternativas para os Estados fracassados em face da

sociedade internacional contemporânea?

Já se visualizou os elementos concernentes aos novos atores internacionais, à globalização e ao direito ao desenvolvimento. Já se vislumbrou que os Estados fracassados são entidades praticamente artificiais, verdadeiros Estados quando o assunto é saber se estão devidamente erigidos no plano jurídico, mas claramente quase-Estados quando entra em cena o elemento empírico, revelando assim o fraco amparo dessas entidades no que se refere ao caractere da condição empírica de Estado. Desse modo, configura-se notório que o contexto dos Estados fracassados é significativamente atribulado, composto por intensas dificuldades socioeconômicas e institucionais.

Noutro sentido, há a noção de que a atual realidade normativa internacional guarda em si uma sensível melhora a partir do reconhecimento do direito ao desenvolvimento e da crescente expansão dos direitos humanos. É óbvio e completamente previsível que essa melhora no campo normativo não seja capaz de trazer em si sua própria efetividade, haja vista o referido contexto empírico dos Estados fracassados e da sociedade internacional contemporânea como um todo. De qualquer forma, a emergência do direito ao desenvolvimento e o presente contexto dos direitos humanos vão de mãos dadas com um horizonte mais propenso à solidariedade e à cooperação em nível internacional, sendo que é em tal ponto que reside esta segunda parte de proposições para os Estados fracassados.

Comentando a referida obra de Robert Jackson, Quasi-states: Sovereignty,

International Relations and the Third World, Richard Falk registra esta interessante

assertiva:

Robert Jackson escreveu um livro provocador há já alguns anos em que defendia que vários Estados ex-coloniais, especialmente aqueles que controlavam antigas províncias em África, eram de facto agentes inconscientemente não autónomos. O autor desclassifica ou despromove este grupo de países ao atribuir-lhes o epíteto de “quase-Estado”, argumentando que estes tentam desesperadamente definir uma posição no processo de interacção com os “verdadeiros” Estados. A minha perspectiva desenvolve a lógica dos quase-Estados nas duas direcções: todos os países, independentemente do seu poderio militar ou do seu sucesso económico, tornaram-se, numa medida significativa, em “quase-Estados” enquanto que os “verdadeiros Estados”, se é que restam alguns, são uma

espécie de animal político desesperadamente em vias de extinção, cuja a realidade se encontra sujeita a vários tipos de dúvida (1999, pp.83-84).

Desse modo, a posição de Falk aproxima-se do que antes foi relatado a respeito da relativização da soberania para todos os Estados, mesmo que a entidade estatal continue “a ser o actor político preeminente” (1999, p.70). Ocorre que a diminuição da soberania em um largo espectro de questões leva à “aquisição de uma proporção crescente de poder e influência na modelação da conjuntura mundial por parte de intervenientes exteriores ao Estado” (FALK, 1999, p.70). Tem- se assim, como já afirmado, a deterioração das certezas estadocêntricas, o que configura para os Estados fracos, contrapondo-se às recém-explicitadas melhorias normativas, um cenário demasiado provocativo e desafiador.

Conforme Alain Touraine, a “globalização do sistema econômico enfraqueceu principalmente os instrumentos de intervenção formados num quadro nacional, em particular a capacidade de regulação e de controle das relações entre os atores econômicos por um Estado capaz de intervenção tanto social quanto econômica” (2011, p.28). Em um cenário no qual a indução estatal torna-se refratada, em que emergem conceitos como “Estado pós-moderno” e “sociedade civil global”, talvez seja mais do que sensato insistir na ideia de um “novo contrato social global”, correspondente a uma “nova razão de Estado” que abarque maiores impulsos à governança, seja ela regional ou global, e que seja capaz de lidar com a interdependência dos riscos gerada pela globalização.122 Tais ideias não vão longe

dos Estados fracassados, porquanto estes estão inseridos no presente panorama, colhendo de tal conjuntura tanto elementos positivos quanto negativos.

O desafio seria integrar os quase-Estados de maneira que pudessem usufruir de uma maior parcela da fatia global dos ganhos auferidos com a globalização, desafio que se mostra difícil, haja vista os diversos problemas que assolam a atual realidade mundial. De todo modo, os Estados fracassados fazem parte de toda essa ordem de problemas, e por isso devem ser colocados em primeiro plano na agenda

122 É oportuno transcrever neste ponto a seguinte asserção de Beck: “En la modernidad avanzada, la

producción social de riqueza va acompañada sistemáticamente por la producción social de riesgos. Por tanto, los problemas y conflictos de reparto de la sociedad de la carencia son sustituidos por los problemas y conflictos que surgen de la producción, definición y reparto de los riesgos producidos de manera científico-técnica” (1998, p.25).

internacional, não por razões de segurança ou filantrópicas, mas sim por razões de equidade e do dever jurídico amparado pelo direito humano inalienável ao desenvolvimento. Isso se mostra, aliás, ainda mais necessário em um contexto no qual, de acordo com Carlos Arturi e Renato de Oliveira, há “o aumento da concentração da riqueza nos países ricos em detrimento dos países mais pobres, o agravamento das desigualdades sociais no interior da grande maioria das sociedades nacionais, a financeirização da economia e a inexistência de instrumentos e instituições de controle democrático dos processos de transnacionalização” (2002, p.12).

Dadas essas disposições, mostra-se prudente demandar que a globalização econômica e dos riscos esteja acompanhada também de uma outra globalização, conforme já aludia Milton Santos (2008), para que assim a “proteção do meio ambiente, a consideração das questões demográficas, da pobreza, do habitat” deixem de ser “compatíveis com uma gestão particular dos bens públicos” (BADIE, 1999, pp.13-14). O objetivo seria elevar as respectivas responsabilidades estatais a um nível global, pois “cada Estado, em função dos seus recursos, tem uma obrigação material, ou mesmo moral, para com todos os outros, Estados ou não Estados, que povoam o planeta” (BADIE, 1999, p.16).123

Atualmente, “qualquer projeto nacional somente pode ser proposto e realizado a partir do patamar estabelecido por uma economia política de âmbito mundial. A sociedade global já é uma realidade, não só em termos econômicos, mas também políticos, sociais e culturais” (IANNI, 2008, p.46). Isso significa que os projetos nacionais de desenvolvimento devem levar em conta o entorno, aquilo que não faz parte tão somente de seus assuntos domésticos, porquanto a interdependência, em suas numerosas faces, remete à interconectividade e à característica de “rede” que toma de assalto as várias realidades nacionais. Sendo assim, todo o projeto de desenvolvimento configura-se como inócuo ao não levar em conta essas inúmeras interações, tanto no sentido da sua sustentabilidade econômica em si, quanto no

123 Segundo Badie, a própria satisfação dos Estados “não pode ser considerada como um fim em si:

os dramas do totalitarismo ensinaram-nos a conceber o Estado como um instrumento de acção e não mais como um absoluto, como um modo de satisfação das necessidades humanas que, como tal, deve inevitavelmente ter em conta a globalização e a mundialização que as transformam” (1999, p.16).

sentido da sua sustentabilidade social e ambiental, o que alude à necessidade de maior diálogo e de um caráter mais cosmopolita para as relações internacionais e humanas neste novo século.

De acordo com Lucas, uma “ordem política com pretensões universais não pode se identificar com a racionalidade e os valores exclusivos de uma determinada nação, devendo sim estar pautada em um conjunto de princípios que considere os direitos humanos o limite moral mínimo para o diálogo entre as diversas nações e culturas” (2010, p.153). Dessa maneira, tomando os direitos humanos como “núcleo substancial de reciprocidade” (LUCAS, 2010), emerge a visão de um processo globalizador que canalize um regime universal de responsabilidades mútuas entre os Estados, com garantias e obrigações, avultando nisso o direito humano ao desenvolvimento. Tudo isso vai na esteira da transformação dos direitos humanos em um tema global, transformação que consolida um fato importante, o qual “denota a emergência, pela primeira vez na história, da formação de um consenso ético- global mínimo” (BEDIN, 2003b, p.530).124

Segundo Ferrajoli, mesmo que seja “difícil prever se a extensão progressiva dos direitos humanos fundamentais e de suas garantias a toda humanidade conseguirá prevenir e desarmar em tempo os conflitos violentos” (2007, p.62) que se anunciam por fatores de exclusão e de subdesenvolvimento, é necessário apostar em novas maneiras – quer sejam idealistas ou realistas – de se lidar com os problemas e riscos inerentes ao futuro da humanidade. Parece assim que a aposta recai na governança global, nas responsabilidades compartilhadas, nos elementos tendentes à construção de uma ordem mundial justa e solidária, em que a crescente interdependência e a formação de blocos regionais e de regimes internacionais específicos não sirvam em absoluto como instrumentos a interesses tão somente nacionais ou particularistas, mas sim de “pressupostos fundamentais das relações entre os diversos atores internacionais” (BEDIN, 2003b, p.532) em um sentido efetivamente universal e inibidor de abusos contra a equidade.

124 É bom frisar que, conforme Bedin, esse processo de expansão dos direitos humanos ou

transformação dos mesmos em um tema global “teve início com a Declaração Universal dos Direitos do Homem (1948), tomou forma com os Pactos Internacionais dos Direitos Civis e Políticos e dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais (1966) e se consolidou com a Conferência de Viena sobre Direitos Humanos e sua Declaração e Programa de Ação (1993)” (2003b, p.530).

Têm-se desse modo as justificativas, de índole normativa e prática, para que se abrace uma visão menos calcada em um sistema de Estados em perpétua competição para uma outra visão, mais centrada na cooperação primeiramente interestatal e, em momento posterior, tendente também a arranjos institucionais que existam por sobre os Estados. Só assim se vislumbram soluções que invariavelmente precisam ser pensadas e planejadas de maneira global, sem esquecer o componente democrático que deve necessariamente dar legitimidade a tais arranjos institucionais supranacionais.

É sabido que a ONU e os elementos normativos (declarações, pactos, convenções etc.) criados a partir da concepção da mesma ensejam esperanças e boas projeções no que tange ao futuro. Por isso, é a partir da imprescindível dinâmica supranacional que provém a crença no direito internacional e nas instituições mundiais que possam cooptar as diversas sociedades e Estados (e porque não dizer a própria e multifacetada sociedade civil global) para as imperativas mudanças sociopolíticas que sejam capazes de priorizar um futuro melhor no que concerne às populações e à vida de um modo geral.

As alternativas que estão sendo por ora descritas trazem consigo considerável embasamento teórico, mas bem possivelmente costumam provocar muito mais ceticismo e descrença. São em geral encaradas como meras utopias e devaneios, pois são menos propensas a apreender passivamente a realidade. Não seria necessário dizer, mas a crítica deveria fazer parte de todo o estudo que se diz “positivo”, até porque não se estuda sem causa ou motivação. O fato é que, na verdade, toda pesquisa que se pronuncia livre de ideologias está a mascarar as suas próprias, servindo de certo modo a alguma função mistificadora. O presente trabalho é aberto nesse sentido, pois serve à crença no futuro da humanidade, do homem enraizado neste planeta – sua única morada –, do homem enraizado na mesma terra em que se fincaram todos os homens.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Utilizando-se do diálogo entre autores e disciplinas, o presente trabalho examinou, no contexto teórico-normativo da sociedade internacional contemporânea, a emergência do direito ao desenvolvimento e sua vinculação com os Estados fracassados. Para isso, partiu-se da contextualização do cenário atual com base em amplo estudo da sociedade internacional, alcançando portanto somente depois a categoria jurídica do direito ao desenvolvimento e a enigmática figura empírico- teórica dos Estados fracassados.

Desse modo, obteve-se a noção de que após a Declaração Universal dos Direitos do Homem, de 1948, a sociedade internacional moderna vai gradualmente se modificando, incorporando as várias dimensões dos direitos humanos em seu bojo normativo, além de perder centralidade a entidade estatal moderna e sua soberania, que agora concorre com outros atores em âmbito mundial. Configura-se

assim a sociedade internacional contemporânea, panorama no qual praticamente todos os Estados têm a sua soberania relativizada, diminuindo a anterior centralidade da clássica política de poder e aumentando a dependência mútua entre os Estados (interdependência).

Buscou-se demonstrar que, diante de todo esse contexto, é urgente tomar a sério os direitos erigidos pela Declaração de 1948 e pela Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento, de 1986. Além disso, sob o ponto de vista funcional, os problemas que permeiam o planeta, seja em âmbito local ou globalizado, necessitam respostas mais amplas e coordenadas por parte da sociedade internacional, em razão de que as respostas locais são apenas de caráter paliativo. Isso vai ao encontro da formação de uma genuína comunidade internacional, a qual seja capaz de abarcar uma unidade de ação inclinada aos nobres motivos pelos quais as declarações apontadas acima foram construídas.

Em verdade, aliás, dentro do atual cenário de globalização, nada é tão somente local ou tão somente globalizado. Local e global se encontram e mutuamente se alimentam, ensejando consequências muitas vezes imprevistas e não raro perigosas. Desse modo, a crise econômica que agora atravessa a Europa e a crise da dívida dos EUA são exemplos que se encaixam perfeitamente na lógica de retroalimentação explicitada. Outro exemplo se refere a problemas como o subdesenvolvimento e a fome, que levam a migrações cada vez mais volumosas de pessoas fugindo de países em situação catastrófica. Tais países, como já se afirmou, são os Estados fracassados, muitas vezes fracos enquanto entidades públicas, outras vezes quase que fictícios por possuírem a soberania negativa (condição jurídica de Estado), mas não albergarem em si a soberania positiva (condição empírica de Estado).

O intento do presente trabalho não foi aferir exatamente a partir de quando um Estado se torna fraco, se há diferenças entre uma entidade estatal fraca e uma entidade estatal fracassada, se existe como quantificar a partir de quando o desenvolvimento de algum Estado se torna realmente satisfatório. De qualquer