4 A POLÍTICA DE COTAS NO CONTEXTO DO QUILOMBO DE UMARIZAL
4.3 OS ESTUDANTES COTISTAS DO QUILOMBO DE UMARIZAL
Ao par destas premissas, é possível identificar que, ao longo do tempo, mesmo com diversos grupos de estudiosos que são contra o sistema de cotas, no ordenamento jurídico tal política ganha cada vez mais força, com o aumento de previsão legal em favor das cotas raciais nas universidades, em busca da efetivação e concretude da tão chamada igualdade.
Nesse contexto é de se notar que a previsão legal, assim como o princípio da igualdade perfaz um entendimento que devem tratar os iguais como iguais e os desiguais como desiguais, a vista que, assim pode-se abarcar a igualdade total. Assim, para aqueles que são a favor desse contexto, à medida que procura corrigir uma situação real de discriminação, a Lei e sua aplicação tratam a todos igualmente, sem levar em conta distinções (MOEHLECKE, 2002, p.
212).
4.3 OS ESTUDANTES COTISTAS DO QUILOMBO DE UMARIZAL
Na pesquisa de campo fez-se um levantamento e mapeamento dos estudantes universitários das comunidades remanescentes de Quilombo do Umarizal Beira, Umarizal Centro, Boa Vista, Paritá Miri, Florestão e outros residentes, que compõe ACORQBU. O objetivo era coletar dados sobre ao quantitativo de ingressos no Ensino Superior por meio dos processos seletivos especiais para quilombolas, no período de 2013-2020. É possível verificar o universo de alunos quilombolas universitários do Quilombo do Umarizal e estabelecer a amostragem desta pesquisa. O quadro 4 e o gráfico 1 mostram o resultado deste levantamento:
Quadro 7: Ingresso em curso superior de estudantes cotistas quilombolas do Quilombo de Umarizal - 2013 a 2020
Fonte: Produzido pelo pesquisador – 2021
Gráfico 2 - Ingresso na universidade de estudantes cotistas quilombolas do quilombo de Umarizal (2012-2020)
Fonte: Produzido pelo pesquisador - 2021
Observando os dados expostos no gráfico 1 acima é possível compreender que as políticas afirmativas de cotas se iniciaram no ano de 2013, com o número reduzido de ingressantes, mas que ao longo dos anos apresentou um significativo avanço, mesmo com a vigência da Lei n° 12.711/12. Apenas um ano depois o Quilombo do Umarizal começou a usufruir com ingresso de estudantes nas políticas positivas de cotas quilombolas das Universidades Públicas.
Nesse compasso, depois do acesso aos primeiros estudantes nas cotas quilombolas das universidades e com o acréscimo de ingresso dos quilombolas do Umarizal, no que concerne ao quesito gênero os dados foram organizados conforme o gráfico 2 a seguir:
Gráfico 3 - Ingresso na universidade de estudantes cotistas quilombolas do Quilombo de Umarizal- (2012-2020), por gênero
Conforme o gráfico 2 acima, frisa-se que 46 cotistas são homens, 66 mulheres e 2 outros (sem definição de gênero). Assim, é notório que existe uma grande diferença quantitativa entre os gêneros, sendo o gênero feminino expressivamente maior, pautado no contexto que os homens possuem uma cultura forçada de logo cedo ir para o trabalho braçal nas fazendas circunvizinhas ao quilombo, tal situação acaba se refletindo no número menor de homens cotistas. Nesse cenário, com o passar dos anos e com a conclusão do curso superior dos primeiros estudantes do Quilombo do Umarizal ingressantes da universidade através das cotas, assim, foi possível representar os dados por meio do gráfico 3 a seguir:
Gráfico 4 - Estudantes universitários e estudantes formados, cotistas do Quilombo de Umarizal (2013-2020)
Verifica-se que até o momento apenas 06 dos cotistas concluíram nível superior e 108 ainda são estudantes, parcela significativa no contexto geral. Assim, com ênfase nas informações acima, não menos importante, destacamos que do grupo de estudantes cotistas do quilombo do Umarizal, existem alguns estudantes que não são mais residentes e domiciliados no quilombo, nesse sentido destacamos o gráfico 4 abaixo:
Gráfico 5 - Estudantes Universitários cotistas quilombolas do Quilombo De Umarizal por residência (2013-2020)
No quadro 8 é possível verificar os cursistas de Umarizal, bem como os cursos e instituições:
Quadro 8 - Universitários cotistas Quilombolas já Formados do Quilombo de Umarizal (2013 – 2020)
NOME CURSO INSTITUIÇÃO DE ENSINO
Ana Paula Pinto Cardoso Língua Portuguesa UFPA
Aurione Miranda da Costa Enfermagem UFPA
Daniela Farias Cruz Psicologia UFPA
Daryane da Cruz Machado Medicina UFPA
Jhennefer Lopes Serrão Nutrição UNIFESSPA
Paula Menezes Baia Direito UNIFESSPA
Fonte: Produzido pelo pesquisador - 2021
De acordo com os dados quantitativos dos estudantes cotistas do quilombo do Umarizal, como demonstrado acima, o número maior de estudantes cotistas reside dentro do quilombo.
Ressalta-se que um pouco mais de um terço dos ingressantes cotistas estão residindo fora do quilombo e, segundo os informantes dessa pesquisa, isso se justifica pelo forte êxodo rural que ocorreu nas décadas 1980 e 1990, quando várias famílias saíram de Umarizal para cidades como Baião, Cametá, Tucuruí e Belém, motivados pela busca de escolas para seus filhos darem continuidade aos estudos.
Na evolução dos efeitos das cotas quilombolas nos demonstrativos acima, é nítido que o número, gênero e formados já demonstram, o que também foi visto na observação participante, um efeito positivo na comunidade em relação à oportunidade de ter uma formação, ou até mesmo uma perspectiva de conclusão de um nível superior. Neste cenário de grande demanda, a interferência da política de cotas universitárias no Quilombo de Umarizal, do ponto de vista quantitativo individual das pessoas já representa uma conquista extraordinária. Porém, o que se vê em termos qualitativos de vida coletiva na comunidade local, ainda é uma incógnita de um problema a ser entendido com objetividade. Daí o porquê desta pesquisa ter estabelecido como objetivo geral, analisar como a política pública de cotas para negros quilombolas nas universidades interferem no desenvolvimento e na sustentabilidade do Quilombo de Umarizal e nos seus territórios na zona rural. Desta maneira, procurou-se entender o problema, que tipos de avanços ocorrem e como ocorreram, a partir da política pública de cotas para negros nas universidades no quilombo de Umarizal no município de Baião/PA, no período de 2013 a 2020.
Esta política, trata-se de um programa educacional especial que nas comunidades tradicionais historicamente excluídas como Umarizal, vai além do que permitir ingresso de estudantes nas universidades, mas pode refletir-se positivamente na qualidade de vida das comunidades quilombolas, no desenvolvimento e na sustentabilidade local.
5 A POLÍTICA DE COTAS PARA ALÉM DO ACESSO DOS QUILOMBOLAS NA