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1 DOCÊNCIA E GÊNERO: A HEGEMONIA DO IMAGINÁRIO MASCULINO NA FÍSICA

1.1 Os estudos de Gênero: situando nosso debate

Ao utilizarmos a categoria gênero, passamos a analisar a construção social e cultural do feminino e do masculino, atentando para as formas pelas quais os sujeitos se constituem e são constituídos em meio a relações de poder (LOURO, 2002, p.15).

Scott (1989) salienta que apenas descrever as histórias das mulheres, não possibilita uma transformação nas relações sociais. Para a autora precisamos conhecer as relações entre as experiências masculinas e femininas no seu passado e nas relações do passado com o cotidiano. Nesse sentido, a autora abre espaço para pensarmos em gênero como uma categoria de análise, com intuito de conhecer como o gênero se estabelece nas relações sociais e como o gênero dá sentido à organização e a percepção do conhecimento histórico (p.5).

Nesse contexto, para tentarmos entender o porquê da utilização do gênero como categoria e nos aproximarmos de uma perspectiva pós-estruturalista do gênero, é importante refletirmos sobre as críticas desenvolvidas por Scott (1989) a três posições teóricas nesta área: as ligadas ao patriarcado, as de tradição marxista e as teorias psicanalíticas. A teoria do patriarcado reúne suas proposições, principalmente, em torno de alguns pontos: 1) denúncia sobre a dominação masculina das mulheres; 2) crítica à primazia da paternidade, que obscurece as atividades e a realidade das mulheres durante a gravidez, o parto e o cuidado das crianças; e 3) crítica à “reificação sexual”, processo no qual as mulheres se tornam objetos dos homens. A crítica de Scott a esta teoria está no fato dela dá ênfase as distinções entre homens e mulheres, tornando esta a principal fonte da desigualdade de gênero. Assim, acabaria por perpetuar a manutenção das interpretações dominantes, suprindo como a desigualdade de gênero estrutura as demais desigualdades – inclusive no âmbito das relações entre homens e entre mulheres.

A segunda posição teórica está relacionada à tradição marxista, a qual concebe a desigualdade de gêneros em função dos modos de produção. O sistema seria composto pelas constantes interações entre o patriarcado e o capitalismo, que apesar de distintos se inter- relacionam. O desenvolvimento do patriarcado se daria em função do capitalismo, uma vez que as mulheres facilitam a reprodução dos processos capitalistas na forma de trabalho doméstico através: 1) do processo de rejuvenescimento (energia) que prepara o trabalhador e o capacita a voltar ao trabalho fornecendo roupas limpas, comida, satisfação do desejo sexual, cama limpa e bom sono; 2) da procriação que disponibiliza a contínua força de trabalho; 3) da mais valia (diferença entre quanto custa para manter a força de trabalho viva e o valor da mercadoria): o trabalho da mulher em casa acrescenta valor às mercadorias. As discussões

feministas marxistas apesar de reconhecerem que os sistemas econômicos não determinavam de forma direta as relações de gênero, explicavam as formas de interação entre esses sistemas supervalorizando o econômico sobre o social ou a sexualidade. Para Scott (1988) esta perspectiva subordina o conceito de gênero ao de uma estrutura econômica, dando continuidade às definições de características binárias que afirmam de forma categórica o sentido/forma do ser masculino e do ser feminino, rejeitando ou reprimindo qualquer forma que esteja fora dos padrões. Outras críticas associadas a esta tradição são o fato de não fazerem uma reflexão sobre a intersecção entre questões de produção, gênero, raça, sexualidade etc; de reduzir o sexo à classe: a mulher ou faz parte da classe trabalhadora oprimida (proletariado) ou dos proprietários dos meios de produção (burguesia); de não reconhecer que o patriarcado está presente nas relações de trabalho; as mulheres tendem a ocupar setores de trabalho menos valorizados (serviços e cuidados), têm salários mais baixos que dos homens; as mulheres negras permanecem com menos acesso à educação e ocupando lugares inferiores ao das mulheres brancas.

As teorias psicanalíticas se dividem em duas vertentes: as teorias francesas e as anglo-saxônicas. Mesmo tendo em comum a ênfase nas etapas da formação do indivíduo, as mesmas possuem enfoques diferentes. As teorias anglo-saxônicas enfocam as relações objetais e defendem que as experiências concretas, como as adquiridas na esfera familiar, doméstica, através da divisão sexual do trabalho são definitivas na formação das identidades de gênero. Já a escola francesa baseia-se na tradição estruturalistas e pós-estruturalistas. Dentro dessa perspectiva, a linguagem é o centro. Lacan é o referencial principal. A linguagem é atrelada aos sistemas de significação, à construção do campo simbólico, inclusive sobre gênero. Scott (1989) diz que a teoria anglo-saxônica reduz a formação de identidade do sujeito a um conjunto restrito de elementos, sem levar em consideração que há outros sistemas sociais além da família. A crítica à abordagem francesa está ligada aquelas abordagens que entendem o sujeito como uma unidade instável, que se constrói a partir de uma tendência a universalizar as categorias masculino/feminino, desconsiderando as especificidades, o contexto histórico e permanente precariedade da construção da subjetividade. Apesar da autora identificar que a psicanálise traz elementos importantes sobre a reprodução de gênero, sobre a construção generificada da identidade, ela ressalva que há pretensão de universalidade na psicanálise e, então, questiona o fato de que nem sempre homens e mulheres reais cumprem os papéis sociais impostos.

Joan Scott (1989) propõe que o gênero seja estudado enquanto categoria de análise e enfatiza que os conceitos de gênero compartilhados numa cultura estruturam a percepção e a

organização da vida social. Também afirma a necessidade de descontruir o caráter binário masculino-feminino, tradicionalmente usado nas discussões sobre gênero. Louro (2014), igualmente, defende a necessidade de trabalharmos com uma abordagem desconstrucionista:

Desconstruir a polaridade rígida dos gêneros, então significa problematizar tanto a oposição entre eles quanto a unidade interna de cada um. Implicaria observar que o polo masculino contém o feminismo (de modo desviado, postergado, reprimido) e vice-versa; implicaria também perceber que cada um desses polos é internamente fragmentado e dividido (afinal não existe mulher, mas várias e diferentes mulheres que não são idênticas entre si, que podem ou não ser solidárias, cúmplices ou opositoras). (LOURO, 2014, p.35-36)

De acordo com Mariano (2005), pensar o sujeito numa perspectiva pós-estruturalista requer rejeitar os esquemas dicotômicos de pensamento, opondo-se sempre a abordagens essencialistas. Scott (1989) nos aponta que para tentar compreender como se daria a construção do homem/mulher como categorias não fixas, precisamos conhecer a linguagem e os discursos em disputas na sociedade.

O texto de Joan Scott (1989) “Gender: a useful category of historical analisis”, aqui abordado, nos traz contribuições importantes para compreendermos o termo gênero. A autora concebe gênero como uma construção histórica-social articulada a outras demandas sociais como classe e raça. Dessa forma, a mesma, percebe o gênero como um elemento constitutivo de relações sociais baseadas nas diferenças percebidas entre os sexos e afirma que o gênero é uma forma primária de dar significado às relações de poder. Delimitando ainda mais, a autora afirma que “o gênero é um campo primeiro no interior do qual, ou por meio do qual, o poder é articulado” (p.86). Para Louro (2014), é preciso entender o gênero como um processo constituinte da identidade, que perpassa toda a existência humana, construído a partir do indivíduo e de suas vivências sociais e não, simplesmente, a partir de dados biológicos e/ou fisiológicos.

Logo, gênero pode ser definido como uma construção relacional, social, cultural e linguística, que vai se modificando ao longo de toda vida, de diversos modos (CONELL, 1995; LOURO, 2000a, 2000b, 2014; BUTLER, 2003). Esta noção nos distancia de pensar gênero como algo determinado, exclusivamente por fatores biológicos, inseridos numa objetividade, numa neutralidade ou, como diria Louro (2000b), como “dado” pela natureza, inerente ao ser humano. Isso nos ajuda a pensar num sujeito político, que é atravessado por inúmeras identidades – de raça, classe social, religião, sexualidade, gênero entre outros.

As relações de poder existentes na sociedade em articulação com as hierarquizações das relações de gênero pautadas na lógica binária (masculino/feminino) e definições dos papéis atribuídos as/aos mesmas/os têm dificultado, como já ressaltado na introdução, o

acesso das mulheres a determinadas áreas de conhecimento, principalmente às ciências da natureza e suas tecnologias, à matemática e, em especial, à física. Com isso, se faz necessário aqui discutirmos como vem se dando o (não) acesso das mulheres a estas áreas do conhecimento, realçando o porquê de sua invisibilidade na física.