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3.5 Os estudos sobre travestilidades

Percorrerei algumas etnografias sobre o universo das travestilidades - em sua maioria etnografias realizadas em cidades brasileiras102 – com o objetivo não apenas de fazer uma breve revisão

99 De acordo com Uziel (et. al., 2006, p.204-205) até os anos de 1980, os grupos homossexuais

que se constituíram eram, sobretudo, grupos de convivência, no início, e de afirmação homossexual, em seguida, distantes ainda do movimento por direitos. Com o passar do tempo, os grupos passaram a ganhar visibilidade, especialmente com o início dos anos 1990 e a divulgação da AIDS.

100 Para uma melhor discussão acerca do tema, ver Schwartz (1978).

101 O Tropicalismo foi um movimento musical surgido no fim da década de 60 e teve como

líderes os compositores Caetano Veloso e Gilberto Gil. Seus membros se destacam principalmente por suas vestimentas tropicais e por um comportamento liberal, por um despudor que criticava principalmente os padrões sexuais da época e os conceitos de gênero tradicionais.

102 Ao optar por fazer referência apenas a algumas das etnografias realizadas com travestis

destes trabalhos103, mas também de situar minha pesquisa neste universo; logicamente, ao longo do texto, estas pesquisas serão retomadas em diálogo com os meus dados de pesquisa e interpretações destes dados. Nesta busca de realizar uma revisão da literatura sobre estudos que versem sobre o fenômeno das travestilidades, em termos de etnografias feitas no Brasil104, uma das obras de referência é o livro do antropólogo Hélio Silva, Travesti – A Invenção do Feminino, publicado em 1993. Este livro é uma etnografia sobre travestis que se prostituem na Lapa, considerado um dos bairros mais tradicionais do Rio de Janeiro. Silva, ao contextualizar o leitor sobre a Lapa, “espaço físico” da sua etnografia, traça um pouco a história da região, ressaltando seu “passado de ouro” relacionado à sua tradição boêmia com seus cabarés e personagens típicos, uma Lapa que, para alguns dos moradores que entrevistou, experimentava um momento de decadência. Para uma melhor compreensão da região, Silva se detém na leitura de alguns exemplares de um jornal que circulava

não sejam contempladas ao longo da tese como, por exemplo, o trabalho de Fernandez (2004), com travestis na cidade de Buenos Aires, e Mejia (2008), com travestis residentes em Barcelona na Espanha.

103 Alguns trabalhos já foram mencionados em minha dissertação de mestrado num tópico

pertinente à revisão bibliográfica sobre o tema. Aqui esta breve revisão é retomada incluindo outros trabalhos como os de Benedetti (2005) e Oliveira (1994).

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No âmbito do Programa de Pós-Graduação em Antropologia do PPGAS/UFSC algumas pesquisas sobre este universo foram realizadas: OLIVEIRA, Marcelo (1997), O lugar do

Travesti em Desterro, um etnografia sobre travestis na cidade de Florianópolis que teve como

foco central o processo de construção de identidade da travesti e os percursos sociais necessários para essa construção. FLORENTINO, Cristina (1998), Bicha tu tens na barriga, eu

sou mulher! – uma etnografia de travestis em Porto Alegre, por sua vez, teve como objeto de

análise o transvestitismo circunscrito à cidade de Porto Alegre (RS), a autora enfatizou as relações entre as travestis, procurando apreender como se dava à interação entre elas, bem como as formas de construção de subjetividade. Mais recentemente destaco a monografia de final de curso realizada por Fernanda Cardoso (2006) Parentesco e Parentalidade de Travestis

em Florianópolis, uma pesquisa antropológica sobre as relações de parentalidade e

conjugalidade entre travestis e familiares residentes na cidade de Florianópolis. Seu foco de estudo, como a autora observa, “se debruça sobre os laços de parentesco e de filiação que unem travestis de camadas populares a crianças pelas quais aquelas sejam, direta ou indiretamente, responsáveis”. Cardoso pode verificar que os mecanismos de nomeação no universo estudado respeita uma espécie de divisão entre espaços públicos, nos quais se solicita um reconhecimento político de sua identidade feminina, e espaços privados, em que há permissão para que o nome masculino seja acionado. Ressalto ainda, as dissertações de mestrados de Anna Paula Vencato (2002), Fervendo com as drags: corporalidades e performances de drag

queens em territórios gays da Ilha de Santa Catarina, de Marco Aurélio Silva (2003), Se manque! Uma etnografia do carnaval no pedaço GLS da Ilha de Santa Catarina, mais

recentemente a dissertação de mestrado de Carlos Eduardo Henning (2008), As Diferenças na

Diferença: hierarquia e interseções de geração, gênero, classe, raça e corporalidade em bares e boates GLS de Florianópolis, que versa sobre as configurações hierárquicas que compõem os

no bairro105, um jornal que, segundo o autor, se empenha em reconstruir justamente a mística do bairro através de alguns de seus ícones como os Arcos, sua pulsão de boemia, seus moradores ilustres e seus malandros, mas que também já ressaltava “as transformações do local, aonde os malandros iam sendo substituídos pelos travestis”. Algumas das matérias publicadas já dão sinais das relações contraditórias da comunidade local com as travestis:

Outro assunto que preocupa atualmente os moradores do edifício Victor são os travestis que fazem ponto em frente ao prédio. Um comunicado da síndica tenta convencer os mais revoltados a não jogar água ou xingar os travestis. Pois o revide – alguns jogam pedras nas vidraças do edifício – pioram mais a situação (Folha da Lapa, n 5, 1991,

apud SILVA, 1993, p.27)

Ao contrário do que se possa pensar a convivência entre travestis, prostitutas e moradores, é bastante harmoniosa. As famílias que outrora se indignavam e viam com maus olhos o pessoal da batalha, nestes 90 chegam a defendê-los. O problema do bairro não é prostituta, nem travesti. Eles são inofensivos, não se metem com ninguém [...]. (Folha da Lapa, n 6, 1991 apud SILVA, 1993, p.28).

Para Silva, a partir de este último trecho vislumbra-se um exercício de certa tolerância com as travestis. É também através do jornal que o autor acentua o desenvolvimento de um discurso de restauração do bairro não apenas em termos de equipamentos urbanos, mas de um estilo de vida comunitário e solidário. Um bairro que vai, de acordo com o autor, desenvolvendo uma convivência ambígua com as travestis entre a desconfiança e o aceno com a possibilidade da tolerância, que atravessa, inclusive, as fronteiras da Lapa, ao procurar salientar que uma parte da população não vê mais a travesti como uma “personificação do mal”. O que se conclui que sua interação social não pode ser considerada plena e ausente de múltiplas tensões, do preconceito e da violência por parte da outra parcela da população que não a aceita. Desse modo, em linhas gerais, sua proposta principal foi “de demonstrar o caráter ambíguo da travesti, de sua posição social, das posições que impõe aos seus interlocutores e outros

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atores com os quais interagem, os sentimentos que suscita e as idéias que se produzem sobre elas” (SILVA, 1993, p. 157).

Silva destacou ainda o aumento da visibilidade da travesti que, para ele, está associado a determinadas mudanças ocorridas no seio da sociedade, mudanças que permitiram que o fenômeno que o autor denomina “transvestitismo” se desenvolvesse e ganhasse características diferentes de sua história urbana original, marcada, segundo seu ponto de vista, pela intolerância e violência numa via de mão-dupla da sociedade para com a travesti e desta para com a sociedade. Uma de suas hipóteses foi a de compreender a travesti que se prostitui na Lapa, como uma transformação do malandro, relacionando o fenômeno do “transvestitismo”, entre outras coisas, com a mudança do vestuário que se deu na sociedade a partir da metade do século XX, mudança que permitiu, por exemplo, que os homens pudessem exibir cabelos compridos. E, principalmente, propõe uma articulação entre a passagem do “travesti histórico” “solitário” para o “travesti socializado” com o processo feminista ocorrido no Brasil que permitiu ao travesti assumir uma variedade de papéis e modelos femininos antes impensados em nossa sociedade.

Em síntese, Silva organizou sua etnografia em etapas do dia: manhã, tarde e noite. Iniciou a etnografia pelo turno da tarde, onde nos desvendou um pouco do cotidiano da travesti no bairro, suas idas a depiladora, seus aspectos da construção do corpo, sendo, segundo o autor, a correção da natureza o seu principal trabalho e o seu projeto: passar-se por mulher. Além disso, nos desvendou seus sentimentos, sonhos e planos, seus estilos de vida, seus locais de moradia, as relações com a família, suas redes de relações de amizade, as formas de lidar com a morte, a experiência perturbadora com a AIDS. No turno da noite, nos foi apresentado não apenas o começo da jornada, ou seja, o mundo da prostituição, com seus conflitos, sua frustrações, tensões, medos e inseguranças, suas relações com os clientes, às estratégias de abordagens, a relação entre prostituição e tráfico de drogas, mas também alguns territórios de sociabilidade, o Boêmio, o bar da Tia Emília, a Tigresa, alguns destes, inclusive, mencionados por algumas interlocutoras da minha pesquisa. Além disso, o universo dos shows, a sociabilidade no fim da jornada e o retorno a casa. E, finalmente, o turno da manhã: quando as travestis da Lapa dormem, momento das reflexões do autor acerca da condição social da travesti. Diz Silva: “O travesti ocupa hoje um lugar em nossa sociedade e uma rede significativa já opera e trabalha em função dele” [...] “outros atores sociais que lhes servem ou cooperam em sua produção (costureiras, médicos, farmacêuticos advogados, depiladoras... pedicures, cirurgiões, donos de pensões, donos de bares, o público que os consome não só sexualmente,

mas em seus shows...)” (Ibid., p.118). E por fim, concluía que: “Vivemos um momento histórico de transição, um processo de incorporação social do travesti, no qual os desviantes já são os que não o aceitam” (SILVA, 1993).

Neuza Maria de Oliveira, (1994) em Dama de Paus: o jogo aberto dos travestis no espelho da mulher realizou uma etnografia com travestis residentes em Salvador, mas especificamente no Pelourinho, região do Centro Histórico da cidade. Apesar de seu trabalho ter sido publicado no ano de 1994, a etnografia foi realizada entre os anos de 1982, 83 e 84 com 40 travestis (a maior parte jovens), destacando-se entre suas informantes Florípedes, segundo a autora, uma “travesti lendária”. Seu foco são travestis profissionais do sexo e suas experiências de vida, e principalmente o cotidiano da prostituição realizada pelas ruas do Pelourinho destacando suas características e leis internas. Oliveira ‘constrói’ uma imagem sobre o Pelourinho como uma zona perigosa, um local de concentração de ladrões, marginais e área de prostituição da cidade, onde se vislumbra, segundo a autora, uma tolerância para com as travestis do local devido mais ao tipo de atividade que exercem do que precisamente a imagem que representam. As travestis, conforme nos informa Oliveira, “são prisioneiras do bairro”, sendo característico a não circulação por outras aéreas da cidade. No entanto, apesar de salientar que as travestis eram exploradas e estigmatizadas, elas possuíam “liberdade de ir e vir travestidas”, devido ao fato de que a cidade de Salvador seria, em parte, tolerante a inversão sexual.

Oliveira se apóia na noção de “inversão masculina” para entender a prostituição travesti, considerando a travesti uma “metamorfose ambulante”, “uma inversão da inversão”. Segundo seu ponto de vista, a inversão é “um componente forjado na nossa cultura e que de certa forma nos permite compreender o tipo particular de prostituição de travestis”. (Ibid. Cap.I). De acordo com autora, é justamente porque a inversão social de papéis é característica da sociedade brasileira que a prostituição travesti é viável. E procura inseri-la no âmbito da prostituição masculina sob o argumento de que, por mais que as travestis representem mulheres106, esses sujeitos são homens que a partir do seu erotismo estabelecem relações de mercado com outros homens. Com o intuito de compreender de forma mais ampla as características da prostituição travesti, Oliveira destaca algumas peculiaridades com relação ao programa sexual realizado pelos sujeitos da pesquisa, suas relações com os clientes e suas demandas, as tipificações dos

106 As travestis são consideradas figuras que recriam as divindades andróginas que habitavam

as narrativas míticas da antiga civilização grego-romana, portanto devem ser percebidas entre os mitos andróginos e da mulher fálica. É justamente na oferta dessa fantasia andrógina, e da mulher fálica que residiria o sucesso da prostituição travesti.

mesmos, as relações com outros agentes sociais que trabalham na noite e que se tornam elementos chaves da dinâmica da prostituição travesti como a polícia, por exemplo. Outra preocupação da autora é compreender os processos de transformação aos quais as travestis se submetem com o objetivo de atingirem uma aparência feminina. Processos esses que são compreendidos como equivalentes aos ritos de passagem encontrados nas sociedades tradicionais cujo corpo alvo de intervenção é visto como principal objeto do processo ritual. Além disso, argumenta que é através do processo ritual que as travestis atualizam o mito da androginia na sociedade brasileira.

Para a autora “os travestis prostitutos” visto como minorias sexuais por não respeitarem o acordo do sistema sexo–gênero presente em nossa sociedade exercitam uma desobediência erótica que os colocam sob o signo da ambigüidade ao mesmo tempo em que são considerados uma das categorias sociais mais rechaçadas socialmente, isolados em prostíbulos decadentes, humilhados pelas ruas, seus corpos seriam “tatuados pela violência social” sendo esses sujeitos os que mais que nenhum outro leva consigo a marca da sociedade inscrita em seus corpos. Considerando que ao mesmo tempo em que a sociedade traçou os limites da polarização entre os sexos produziu sua negação. Neste sentido, a inversão característica do carnaval, a moda unissex, as entidades andrógenas presentes no candomblé, a emergência da travesti Roberta Close como símbolo sexual, a presença de travestis no cenário artístico, o crescimento expressivo da prostituição travesti são, de acordo com os argumentos desenvolvidos por Oliveira, indícios que permitem afirmar que a sociedade brasileira vem tecendo em termos históricos o mito da inversão, em contraposição a rigidez das definições dualistas e excludentes, reservadas as identidades masculinas e femininas107.

Já Don Kulick em Travesti: Sex, Gender and Culture among

Brazilian Transgendered Prostitutes de 1998 traduzido para o português sob

o título, Travesti: Prostituição, sexo, gênero e cultura no Brasil em 2008, como Oliveira seu universo de pesquisa foram às travestis que se prostituem na cidade de Salvador. O autor procurou retratar, em profundidade, o contexto de vida das travestis que vivem em uma área de baixa renda no Pelourinho. Kulick trabalhou com 35 travestis entre 11 e 58 anos (sem especificar quantas pessoas mais velhas fizeram parte de seu universo de pesquisa) residentes, em sua grande maioria, na Rua São Francisco (no bairro já citado) onde o autor pode vivenciar, de perto, o cotidiano destas

107 A respeito da noção de masculinidade e feminilidade ver Miguel Vale de Almeida, Senhores

pessoas ao residir- sendo este um dos destaques do seu trabalho- em um dos prédios habitados por travestis. Mais de uma década separam as etnografias de Oliveira e Kulick, no entanto, o quadro que apresenta este último sobre o cotidiano das travestis que residem na cidade de Salvador no bairro do Pelourinho, mas exatamente na Rua São Francisco, não é muito diferente do que nos pinta Oliveira em seu trabalho. Em um dos tópicos do seu livro (2008, p.54-61) Travestis em Salvador, Kulick traça um breve panorama do contexto do seu estudo e alguns aspectos de como vivem as travestis nesta cidade. De acordo com Kulick a cidade de Salvador, devido as suas características de grande cidade, funcionaria como um imã atraindo travestis de outros estados do Nordeste em busca de trabalho e de maior liberdade já que, como também ressalta Oliveira (1994), o caráter de tolerância da cidade – em comparação com outras cidades nordestinas - em relação a essas pessoas é maior. Para ele, uma das características da relação das travestis com a cidade é a sazonalidade. Ou seja, considerando as travestis pessoas com grande mobilidade, ele argumenta que o contingente de travestis na capital baiana aumenta consideravelmente durante o verão quando a cidade está especialmente festiva devido ao carnaval e aos eventos que o antecedem. Assim, terminando o verão, muitas travestis se deslocariam para outras cidades do Sul e do Sudeste.

No entanto, apesar da aparente tolerância confirmada, inclusive por algumas de suas informantes, para Kulick, Salvador é uma cidade extremamente violenta (o que em parte é explicado pelo fato de considerar a violência como constituinte da sociedade brasileira) sendo, as travestis, seu principal alvo. O autor constatou que as travestis da Rua de São Francisco vivem em condições extremamente humildes, e até insalubres, como é possível perceber através das minuciosas descrições do autor do lugar onde fez sua pesquisa de campo, e que a maior parte delas vivem basicamente da prostituição. E, apesar de ressaltar que a maioria das travestis de Salvador são jovens, em determinados momentos do seu trabalho refere-se às travestis envelhecidas e chega a, inclusive, retratar um panorama de suas vidas no Pêlo. Assim, conforme Kulick, devido à violência e a AIDS, principalmente, as travestis morrem muito cedo, sua expectativa de vida não passaria dos 45 anos. As que ultrapassam esta idade já não encontram mais um meio de sobrevivência na prostituição e, se não tem outra atividade profissional, encontram-se numa situação muito difícil, visto que os caminhos encontrados para se manterem seria o tráfico de drogas, a realização de pequenos serviços para outras travestis, às vezes apenas por um prato de comida. Além disso, existem aquelas que passam a trabalhar como bombadeiras (especialistas em injetar silicone) ou as que tiveram mais sorte conseguem adquirir uma casa, em alguns casos sendo cafetina,

alugando vagas para travestis mais jovens e/ou cobrando dos clientes para serviços sexuais. (Ibid., p.57)

Apesar de que, no lugar onde vivem e convivem com outros atores sociais não travestis, estão totalmente integradas à comunidade local, em suas experiências cotidianas predomina, segundo Kulick, a discriminação e a violência. Assim a travesti teria que reafirmar a cada instante seu direito de ocupar o espaço público e, diante de uma sociedade tão violenta, sua arma, insinua o autor, seria ainda a violência, a arma utilizada pelas “travestis”, como sugere Silva, para se impor à sociedade carioca nos finais da década de 60. Para Kulick as travestis provocam, na sociedade brasileira, ao mesmo tempo, sentimentos de “medo e repulsa” e “atração eletrizante”, assim, os mesmos homens (ou outros) que as desejam sexualmente, podem agredi-las e/ou assassiná-las. Em suas lutas pelo direito de ir e vir, as travestis de Salvador, reduzidas ao universo da prostituição, têm como arma a violência e como seu território de batalha as ruas e as avenidas da cidade, sempre quando cai à noite.

Kulick procurou mostrar, no decorrer do livro, o processo de “tornar-se travesti” – desde a infância até a adolescência, quando começavam a se prostituir – as transformações corporais, o uso de silicone e de hormônios. Descreveu também suas relações amorosas, alguns aspectos de suas relações sociais com outros travestis, com seus vizinhos e, além disso, suas relações familiares. Apontou para um processo de construção coletiva de uma realidade entre os travestis, ressaltando a existência de uma “cultura travesti”, que tem como características, entre outras coisas, ser individualista e pouco voltada para a construção de laços sociais. (Ibid., p.61)

Uma das idéias defendidas pelo autor é que “as travestis não se consideram homens, mas homossexuais, isto é, “viados” e “bichas”. “O núcleo duro de suas subjetividades é o fato de sentirem atração física e sexual por homens”. Sendo esta atração a principal força motivadora quando começam a perceber que são diferentes de outros meninos. “Ser homossexual está no âmago do projeto travesti”. De acordo com este panorama, “a subjetividade travesti não é a subjetividade de mulher nem a de homem, é a de um efeminado de sexo masculino – um homossexual” (op.cit., p.230-231). Mas de uma homossexualidade diferente, ostensiva. Neste sentido, o autor faz algumas críticas às interpretações deste universo realizadas por Silva, quando compreende as travestis a partir de uma perspectiva ambígua, e por Oliveira, quando diz que as travestis preferem não se definirem. Para Kulick, assim