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3.1 O ETHOS NO DISCURSO POLÍTICO

3.1.2 Os ethé de identificação

Os ethé de identificação são os atributos que o enunciador comunica e provocam no receptor processo de identificação. Charaudeau (2008) alerta que essas imagens do político jogam com o lado emocional do cidadão e se constroem com base no afeto entre o político e o cidadão. Além disso,

essas imagens são destinadas a tocar o maior número de indivíduos, e viu-se que esse maior número é heterogêneo e vago do ponto de vista dos imaginários. É a razão pela qual os políticos, conscientes disso, jogam com valores opostos, até mesmo contraditórios. (...) outras vezes, os políticos jogam com imagens deles mesmo que remetem tanto à vida política, ao definirem-se como personagem, como à vida privada, ao definirem-se como pessoa, com as duas imagens reforçando-se mutuamente (CHARAUDEAU, 2008, p. 137-8).

Os ethé de identificação são formados pelos:

ethos de potência: remete à uma “força da natureza” e é verificado na energia física. Ele denuncia que o falante possui uma força interior para ser utilizada

quando requerida e que demonstra a determinação da pessoa para agir. Em momento algum ele entra em conflito com o ethos de seriedade, posto que não representa uma força irracional, mas sim uma força que o leva a agir de maneira coordenada. Por vezes, a potência pode ser expressada na virilidade, conferido a esse ethos aspecto mais masculino que feminino;

ethos de caráter: centrado nas forças do espírito; expressa-se pela vituperação (capacidade de bradar e vociferar), provocação (declarações que pressupõe uma explicações a posteriori) e polêmica (pressupõe uma resposta na hora). Pela advertência, força tranquila e controle de si, o falante demonstra seus limites de suas ações, o que não invalida os compromissos assumidos e a vontade de vencer.

Esses três atributos indicam que a pessoa pensa antes de agir, medindo os prós e os contras de suas decisões; isto é, em vez de transpassar a imagem de melindroso ou titubeante, o falante expressa zelo e segurança. A coragem e o orgulho, continua o autor, indicam o desejo do falante em defender valores e em conquistar o bem-estar comum. Pela firmeza, a pessoa reclama a si a ação efetiva, mostrando determinação para agir; esta característica se vincula ao ethos de potência na medida em que, pela firmeza, o ouvinte saberá que falante usará sua força natural.

O último atributo pertencente ao ethos de caráter descrito pelo autor é a moderação, quando o falante se mostra como uma instância mediadora, tanto nas atitudes como nas opiniões, a fim de encerrar situações em conflito;

ethos de inteligência: é percebido pela maneira como o locutor fala e age e também pelo que se pode apreender de seu comportamento. Busca provocar admiração e respeito dos indivíduos. Envolve as figuras de astúcia, malícia – jogo de insinuações que denotam sutileza de pensamento, sagacidade e perspicácia.

Tais figuras não devem estar a serviço da dissimulação, mas demonstrar que o falante sabe utilizar seu repertório cultural para transitar entre espaços favoráveis e desfavoráveis, comuns no ambiente político;

ethos de humanidade: expressa-se pela capacidade do locutor demonstrar sentimentos, compaixão e emoções, enfim, atributos que fazem o ouvinte ver no orador um ser humano (e não somente uma instituição, no caso dos políticos). É, segundo o autor, o ethos mais difícil de trabalhar, mas o que melhor aproxima o falante às pessoas, justamente porque evidencia a igualdade entre ambos. Envolve figuras do sentimento, da confissão, do gosto e da intimidade; qualidades que o falante, de algum modo, compartilha com o ouvinte e que o mostra preocupado

com a situação e o bem-estar dos seres humanos. Em função desse ethos, humoristas e comediantes constroem a sátira e a parodia caricata do falante, apegando-se em uma qualidade ou trejeito.

ethos de chefe: busca criar noções de sentir-se representado e marca uma relação entre o político e o cidadão, pois o político deve ao povo sua posição e a ele presta contas. O autor explica que esse ethos se manifesta nas figuras do guia, do soberano e do comandante. O guia é o ser superior capaz de guiar o grupo em meio aos acasos da vida e do mundo; é também dotado de qualidades que o fazem superior, aproximando-o do herói. Subdivide-se em: o guia-pastor (que agrega e conduz o povo), guia-profeta (um visionário, que compreende o passado e garante aos seus seguidores a certeza de um futuro bom). O chefe-soberano, também um guia, tem sua legitimidade fundada em atributos que lhe auferem posição de fiador dos valores. Ele é o responsável por representar a soberania, a identidade nacional e união do povo, bem como garanti-las àqueles que guia. Por fim, o guia-comandante encarna a figura do senhor da guerra – de viés mais autoritário e até mesmo agressivo – capaz de distinguir o bem do mal. Essas três figuras do ethos de chefe (guia, soberano e comandante) culminam na imagem de soberania sagrada e o de autoridade humana, que firmam no orador a imagem de um ser capaz de guiar o povo, assegurar-lhe a soberania e a identidade e cuidar-lhe dos inimigos e das ameaças. Essa reunião de atributos e funções conferem ao falante também a capacidade de perdoar17 e de se arrepender (pois lutou pelo que considerava legítimo);

ethos de solidariedade: demonstra a responsabilidade do enunciador pelas necessidades e bem-estar dos outros, de estar junto e não se distinguir dos outros membros do grupo e de unir-se a eles diante de um momento de adversidade.

Difere da compaixão, pois enquanto esta é igualitária e recíproca, a solidariedade é assimétrica e liga um indivíduo que sofre com aquele, que apesar de não sofrer, emociona-se e importa-se com sofrimento alheio. Além disso, esse ethos marca-se pela capacidade do falante em ouvir os indivíduos em situação adversa (CHARAUDEAU, 2008).

17 Em casos extremos, o soberano opta, também publicamente, pela recusa do perdão.

A identidade do sujeito passa por representações sociais, que circulam em dado grupo social e se inscrevem na ordem de imaginários sociodiscursivos. Esses imaginários sociais configuram um universo de significações que fundam a identidade de um grupo e é tido por ele como percepções verossímeis do mundo. Eles podem ser racionalizados em discursos que circulam nas sociedade ou podem estar submersos no inconsciente coletivo, constituindo uma memória coletiva tecida ao longo da história e identificável apenas pela abordagem histórico-antropológica (CHARAUDEAU, 2008). Como dissemos acima, conceitua-se ethos a imagem produzida pelo discurso e que está ligada à percepção das representações sociais do enunciador e do ouvinte, o que nos permite inferir possíveis relações entre ethos e mito, conceito que abordaremos mais detalhadamente a seguir.

Conforme visto na introdução, esta pesquisa trabalha como hipótese a relação entre ethos e mito, pressupondo que projeção de figuras míticas é uma forma de projeção do ethos, que por sua vez atua na promoção da imagem política. Por isso a necessidade de trazer os conceitos sobre mitos como base teórica para esta dissertação. A validade dessa hipótese será verificada com a análise de discurso do corpus de pesquisa