4 XIITAS NO PODER: DA REVOLUÇÃO IRANIANA À PRIMAVERA ÁRABE
5.3 OS EUA NA SÍRIA: SHOULD WE STAY OR SHOULD WE GO?
Os EUA, apesar de fazerem parte do Ocidente, merecem uma seção própria no que diz respeito ao seu envolvimento na Síria. Tendo um histórico de mediações e intervenções, e com seus interesses bastante enraizados no Oriente Médio, é importante analisar sua política no contexto do conflito separadamente. Ademais, com a participação da Rússia no conflito – e seu protagonismo –, há um empenho maior dos EUA para evitar que ela supere seu status na região, uma vez que na Síria ela tem se mostrado valiosa para a resolução do conflito, além de altamenteenvolvida– e, aparentemente, com interesses mais fortes do que os dos EUA neste país.
Na verdade, a ascensão da Rússia na região e o declínio da importância dos EUA – pelo menos no que diz respeito ao conflito sírio – não diz respeito a uma troca de “hegemons” regionais, mas sim a uma maior regionalização dos aspectos político, econômico e de segurança. Isso, como a teoria utilizada neste trabalho, dá maior protagonismo aos Estados da região, fazendo com que reúnam maior influência. “Às vezes, e cada vez mais, esses atores parecem superar os poderes externos em termos de influência, impacto e resolução estratégica” (STEPANOVA, 2018, p. 3, tradução nossa).
Dessa forma, a política estadunidense para o conflito não engloba somente as questões que envolvem a Síria em si, mas, levando em consideração a regionalização do conflito e a perda de influência dos EUA, também inclui políticas voltadas para os países que estão sob sua influência na região, como uma forma de fortalecer sua coalizão (e seus interesses) neste contexto de conflito. Assim, ponderando sobre o envolvimento saudita no conflito, é
necessário considerar a política estadunidense para a Arábia Saudita na Síria, uma vez que, além de defender seus próprios interesses, atua como um proxy – ou um representante – do seu aliado ocidental na região.
Trata-se de uma relação que beneficia ambos, uma vez que a Arábia Saudita necessita do apoio ocidental para fortalecer sua posição – enfraquecida com a crescente importância do Irã e da Rússia na Síria – e os EUA também fortaleceriam sua presença no conflito, através de um aliado árabe, uma vez que sua imagem na região se encontra manchada por conta do histórico de intervenções – em especial a do Iraque em 2003. Além disso, ambos os países têm relações próximas desde a revolução islâmica no Irã em 1979, uma vez que compartilham “a determinação de ver o Irã isolado e excluído não somente da região, como da política global como um todo” (BAXTER; SIMPSON, 2015, p. 144, tradução nossa).
Dessa maneira, no início do conflito, mesmo com a influência e a imagem enfraquecidas, os EUA, assim como diversos outros países do Ocidente, insistiram na ideia de que a solução para o conflito só seria alcançada com a saída de Assad – ou, o já conhecido “Assad must go” (STEVENSON, 2017). As respostas violentas do regime de Assad e as hostilidades sem responsabilização – muito por conta dos bloqueios russos e chineses no CSNU – fizeram com que os EUA adotassem esse posicionamento como parte da sua política direta para a Síria durante os primeiros meses do conflito, acompanhados de não somente países ocidentais, como também países da região – em especial a Arábia Saudita.
Com uma maior dificuldade de acesso ao país, muito pelo bloqueio das forças de Assad – apoiadas pela Rússia e pelo Irã – e pela visão debilitada que a Arábia Saudita, seu proxy, tinha do que se passava internamente na Síria (HOKAYEM, 2013, p. 121), os EUA passaram a adotar um posicionamento mais cauteloso. Diferentemente da monarquia do Golfo, a ascensão de grupos considerados terroristas, como o Jabhat al-Nusra e o ISIS (IslamicStateofIraqandSyria, ou o Estado Islâmico), alertaram a potência ocidental. Enquanto o reino saudita tornou-se responsável pela fragmentação da oposição, tendo contribuído, ainda, para o armamento destes grupos considerados radicais – uma vez que não tinham controlesobre quem administraria os armamentos fornecidos– os EUA temiam que o envio de armamentos aos grupos opositores, mesmo os moderados, pudesse cair nas mãos, justamente, de elementos islamistas mais radicais (BAXTER; SIMPSON, 2015, p. 147). De maneira mais meticulosa, passaram a entender o regime sírio como uma ameaça útil em tempos desesperadores (STEVENSON, 2017).
Diferentemente de aumentar o envio de suprimentos para os grupos moderados como uma forma de combater estes grupos radicais no país – uma das estratégias dos EUA – adota-
se um posicionamento mais duro e direto. Ainda que cauteloso em lidar com a questão de Assad – não mais exigindo fortemente o “Assad must go”, a estratégia contraterrorista dos EUA foi ampliada. Em parceria com a Arábia Saudita, deram-se início a operações militares e ataques aéreos contra as forças do Estado Islâmico, marcando um novo capítulo na política – e estratégia – estadunidense para a Síria (BAXTER; SIMPSON, 2015, p. 148).
A tática estadunidense ainda se faz presente por meio da assistência humanitária, sendo um dos maiores doadores desde 2011 (STEVENSON, 2017), e também no impulso para uma resolução negociada com o apoio das Nações Unidas – onde os EUA podem expressar seus interesses. Contudo, este último recurso, com o foco para os acordos de Genebra I, II ou III não tem se mostrado frutíferos25.
A coalizão liderada pelos EUA, focada na estratégia contraterrorista, tem se mostrado efetiva e tem recuperado territórios antes tomados pelas forças de grupos terroristas, principalmente o ISIS. De acordo com Stevenson (2017), o Estado Islâmico perdeu 27% do território na Síria e 61% no Iraque, onde tem a maior concentração de suas forças. Na Síria, a ameaça deste grupo terrorista não é tão grande quanto era no ano de 2014; a concentração de forças e área é pequena e se espalha em bolsões no território sírio. Isso se dá porque “a luta contra o ISIS rapidamente se tornou uma corrida por território e influência entre vários atores locais e regionais” (RHODE, 2019, tradução nossa).
Neste contexto, onde o foco se tornou a luta contra grupos radicais, houve um esfriamento das relações entre Washington e Riade. Isso se dá, por um lado, por questões internas da potência ocidental. Barack Obama queria alterar a política estadunidense para o Irã, distanciando-se da “Guerra ao Terror” iniciado por George W. Bush e garantindo maior estabilidade e legitimidade na posição dos EUA na região. Ademais, Teerã também estava na luta contra o ISIS, o que fazia com que Washington não o visse mais como um centro de terrorismo e, sim, como o inimigo dos mesmos grupos extremistas que representavam uma ameaça ao Ocidente (KHATIB, 2017, p. 109; BAXTER; SIMPSON, 2015, p. 144). “Depois que a Arábia Saudita ajudou os EUA a isolar o Irã, o Irã tornou-se um ator regional reconhecido pelos EUA” (KHATIB, 2017, p. 109, tradução nossa). Essa alteração na opinião estadunidense sobre a República Islâmica foi preocupante para a monarquia saudita que, desde 1979, contava com a ajuda do ocidente no isolamento de Teerã.
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Em 2013, foi aceita unanimemente a resolução 2118 no CSNU que condena o uso de armas químicas, constituindo uma ameaça à paz e à segurança internacionais. A resolução exigiu a plena implementação da Organização para a Proibição de Armas Químicas (OPAQ), que contém procedimentos especiais para a destruição de armas químicas (CSNU, 2013). Apesar de ter sido aceita de maneira unânime, com aaceitação, inclusive, da Rússia e da China, novos ataques químicos do regime contra a oposição foram reportados na Síria. (STEVENSON, 2017).
Por outro lado, havia uma desconfiança de que a Arábia Saudita era responsável pelo fortalecimento destes grupos radicais que se tornaram ameaças para os EUA. O envolvimento em uma disputa com o Catar pelo financiamento de grupos opositores e a falta de conhecimento local, fez com que a oposição se fragmentasse e não garantiu controle sobre quem receberia este financiamento – de modo que poderia cair nas mãos erradas.
Mesmo com este leve esfriamento, ambos os países continuavam a atuar de maneira conjunta, principalmente na coalizão responsável pelas operações contraterroristas no país. Para os EUA era importante contar com a presença da Arábia Saudita, mesmo que somente por meio do financiamento de grupos presentes no país, posto que o controle físico e direto dos EUA somente se dá por meio das operações militares da coalizão – geralmente traduzidas em ataques aéreos. Isso pode ser percebido na Figura 5.1 abaixo.
No mapa, presente na Figura 5.1 e produzido pela Syria Live Map, é possível analisar a situação atual (do dia 17 de março de 2019) de ocupação do território sírio. Em termos da configuração de forças no local, é possível notar que, realmente, as forças do Estado Islâmico são poucas e espalhadas em bolsões, dentro de uma grande faixa de território controlada pelas forças do regime ou pró-regime (Irã e Rússia). A presença dos EUA, entretanto, não é percebida em termos de controle de área. Mesmo que não haja o controle, porém, por conta da luta contra os grupos radicais é possível verificar os locais onde possui influência e onde suas tropas podem ser implantadas. Na legenda, a indicação de lados no conflito mostra que em espaço controlado pelos curdos há a introdução da coalizão internacional. Mesmo com participação pequena, ela se faz presente como uma das partes no conflito.
Em termos de controle, a região marcada em azul, que representa as colinas de Golã, marca a fronteira com Israel e caracteriza um local onde os EUA possuem influência. Por outro lado, parte das porções marcadas em verde e amarelo, que incluem os grupos rebeldes moderados e os curdos, também contam com envolvimento estadunidense, uma vez que são forças opositoras ao governo e recebem o seu auxílio para continuar suas operações. Isso pode ser confirmado, até mesmo, por conta da presença da coalizão em território controlado pelos curdos (RHODE, 2019).
Figura 5.1– Controle da área no território sírio
Fonte: Syria Live Map (legenda elaborada pela autora com base no Syria Live Map, 2019)
Como discorrido anteriormente, o patrocínio de grupos moderados de oposição pelas potências ocidentais não é suficiente para fazê-los entender o local, a sociedade ou a situação. As informações podem ser manipuladas ou perdidas, ou os grupos podem ter objetivos diferentes daqueles que dizem ter – a fim de atrair recursos. Além disso, estes grupos, apesar de moderados, podem sofrer infiltração jihadista, manchando toda a sua operação e financiamento (STEVENSON, 2017). Assim, apesar de contar como uma forma de atuação dos EUA, por ser uma forma indireta, não oferece, exatamente, maior parcela de participação no processo decisório.
A ascensão de Donald Trump ao poder nos EUA em 2017 pode dar início a uma nova fase estadunidense no Oriente Médio. Ainda que a destruição do ISIS se mantenha um de seus objetivos, Trump pretende reverter a tentativa de aproximação com o Irã, iniciada por Obama, o que caracterizaria uma melhora na relação entre Washington e Riade. Mesmo assim, com o discurso isolacionista que trouxe o republicano para o cargo de presidente, os EUA parecem mostrar uma atitude mais cautelosa e passiva na região, aceitando o vencedor em vez de tentar forjar o curso dos acontecimentos.
Estes indicadores sinalizam uma encruzilhada para os Estados Unidos no que diz respeito à Síria. Por um lado, as estratégias de Washington no conflito mostram diversas repercussões. A liderança de uma coalizão focada no contraterrorismo já apresenta bons resultados, com a redução do território do Estado Islâmico. Desse modo, a defesa de que não
há solução militar para o conflito, e sim política, leva a confiança na pressão que a ONU e os acordos de Genebra podem exercer sobre o regime de Assad e seus apoiadores – mesmo que estas negociações estejam paralisadas. Em termos de assistência humanitária, os EUA têm se mantido como o principal doador – com doação de 6 bilhões de dólares desde 2011 – e buscado estabelecer zonas seguras para a proteção de civis (USAID, 2019).
Por outro lado, esta potência ocidental tem observado a ascensão da Rússia como o mediador do conflito, além de perceber o Irã em uma posição forte para moldar o futuro da Síria. Assim, Rhode (2019, tradução nossa) afirma que “nenhum dos objetivos na Síria que os países ocidentais esperavam atingir – do retorno seguro dos refugiados à responsabilização pelo assassinato em massa e ao uso de armas químicas pelo regime – estão dentro do alcance”. Dado que existe um foco interno, isolacionista, voltado para o “Make AmericaGreatAgain”, os Estados Unidos precisam responder uma pergunta: devemos ficar ou devemos ir embora?
Ao que tudo indica, o presidente Trump já respondeu à pergunta com o anúncio, em dezembro de 2018, que as tropas dos EUA envolvidas na luta contra o ISIS seriam retiradas em breve. Esta retirada provavelmente entregará a Assad e seus aliados o território que eles nãoconseguiriam tomar por conta própria (RHODE, 2019). Resta esperar para ver se os EUA realmente cederão.