CAPÍTULO 4 MOTIVAÇÕES E PRÁTICAS PARLAMENTARES NA ASSEMBLEIA
4.2 OS EVANGÉLICOS E SUAS BANDEIRAS NA CONSTITUINTE DE 1988
A Bancada Evangélica foi constituída por 33 deputados que participaram da Assembleia Nacional Constituinte (ANC) divididos entre 26 que votavam com o Cen- trão em todas as suas propostas; doze deles eram das Assembleias de Deus, mas nas negociações não havia participação de todos os assembleanos. A deputada Be- nedita da Silva foi uma das exceções em relação a essas negociações por ter uma postura diferenciada e por ser do PT. Os demais evangélicos eram divididos em Ba- tistas, Presbiterianos, Adventistas e Congregacionalistas.
O envolvimento dos evangélicos na política nesta década de 1980 contribuiu para o questionamento do Estado laico e do processo de secularização da socieda- de. O posicionamento dos evangélicos foi de reivindicar seu espaço com o objetivo de ampliar a influência de suas tradições (CUNHA, 2012).
Os estudos de Oliveira (1987) apontam que o envolvimento da Igreja Católi- ca com os projetos sociais na elaboração da constituinte relegou para segundo pla- no as questões doutrinárias da moral e dos costumes. Com esse espaço deixado pelos católicos, o campo ficou aberto para que outras religiões ocupassem o lugar deixado pela CNBB.
O espaço deixado pela Igreja Católica reforçou a presença dos evangélicos na esfera pública. Antes da formação da Frente Parlamentar Evangélica, os evangé- licos estavam presentes no espaço público através da mídia radiofônica. Até a déca- da de 1980 eram os pastores norte-americanos os mais populares entre o público evangélico nacional. Nos anos 1980 a produção evangélica brasileira para a TV se tornou independente e passou a ocupar espaços em redes nacionais (CUNHA, 2012).
Segundo alguns estudiosos, a presença dos evangélicos na política nacio- nal, os pentecostais entraram na política insuflados pelo temor de que a Igreja Cató- lica buscasse ampliar seus privilégios junto ao Estado brasileiro na Constituinte de 1988. Mas não só os pentecostais se organizaram nessa direção: também os Batis- tas despontaram nesse contexto, preocupados em defender a ―separação entre a Igreja e o Estado, e o respeito às liberdades e aos direitos humanos‖ (MARIANO, 2011).
Num documento da época, eles chegavam a afirmar:
Somos pela existência de um Estado laico. Preconizamos um tratamento equânime, da parte do Estado, para todos os credos e confissões religiosas. Abominamos quaisquer tipos de privilégios. Não os queremos para nós, nem os aceitamos quando favorecendo a outros (SYLVESTRE apud MARI- ANO, 2011 p. 250).
A definição dos evangélicos torna-se mais difícil nos anos 1980 onde forma- se um mosaico ao falarmos de protestantismos no Brasil. Os novos evangélicos rea- lizavam campanhas de cura divina, outros grupos protestantes, mais preocupados com a realidade social, se articulavam lançando campanhas como ―Evangélicos Pró- Diretas‖ (1984) e ―Evangélicos pela Constituinte‖ (1986). Era a retomada da reflexão
e da ação nos espaços estudantis e nas agências de serviços por grupos que viam na Teologia da Missão Integral uma lufada de ar fresco em um contexto marcado pela única preocupação de ―salvar almas‖. Desse espaço saíram os criadores de movimentos apontando para a responsabilidade social e política dos cristãos (RA- MOS, 2013).
Mariano (2012) ainda afirma que, na década de 70, muitos desses grupos evangéli- cos estavam à margem da política e eram taxados de alienados. Já no período de redemocratização do país, muitos dirigentes pentecostais estavam dispostos a parti- cipar da redação da nova Constituição e adotaram o lema ―irmão vota em irmão‖ nas candidaturas de fieis de suas denominações. No geral, usavam argumentos desta- cando a necessidade de eleger seus próprios representantes parlamentares para defender sua liberdade religiosa, evangelizar a política, proteger a família, a moral cristã e os interesses de suas Igrejas. Assim, prometiam como plataforma,combater propostas antibíblicas e moralmente condenáveis, como a união civil de homossexu- ais, a descriminalização do aborto e do consumo de drogas, dentre outras questões. Na constituinte de 1987, os deputados evangélicos correspondiam a um total de 33 deputados. Daso Coimbra e Fausto Rocha lideraram os demais buscando organizá- los em favor de posições conservadoras e em defesa dos bons costumes.
Na sua totalidade a bancada evangélica ainda se destacava pelas suas ten- dências e ritmos desiguais diversificados. No total de 33 deputados que pertenciam às igrejas evangélicas (PIERUCCI, 1996 p. 168).
Os constituintes da bancada evangélica, 14 eram da Assembleia de Deus representada pelos constituintes: Antônio de Jesus PMDB/GO, Benedita da Silva PT/RJ, Costa Ferreira PFL/MA, Eliel Rodrigues PMDB/PA, Gidel Dantas PMDB/CE, João de Deus PDT/RS, José Fernandes PDT/AM, José Viana PMDB/RO, Manoel Moreira PMDB/SP, Matheus Iensen PMDB/PR, Milton Barbosa PMDB/BA, Orlando Pacheco PFL/SC, Salatiel Carvalho PFL/PE, Sotero Cunha PDC/RJ Os batistas eram Aroldo de Oliveira PFL/RJ, Edésio Frias PDT/RJ, Enoc Vieira PFL/MA, Eraldo Tinoco PFL/BA, Fausto Rocha PFL/SP, Nelson Aguiar PMDB/ES, Paulo Delgado PT/MG, Roberto Vital PMDB/MG. Presbiterianos: Celso Dourado PMDB/BA, Levy Dias PFL/MS, Lézio Sathler PMDB/ES, Rubem Branquinho PMDB/AC. Evangelho Quadrangular Jayme Paliarin PTB/SP, Mario de Oliveira PMDB/MG. Igreja Cristã Evangélica Naphtali Alves PMDB/GO. Igreja Universal do Reino de Deus Roberto augusto PTB/RJ. Adventista Eunice Micheles PFL/MA. Igreja Cristã Confissão Re-
formada: Lysâneas Maciel PDT/RJ. Congregacional: Daso Coimbra PMDB/RJ. (PI- ERUCCI, 1996 p. 169).
No meio dos evangélicos constituintes havia também parlamentares evangé- licos de esquerda. Dois deles, Lysâneas Maciel e Benedita da Silva, mas os eleitores transcendiam o eleitorado oriundo das igrejas e se encontravam nas bases de suas militâncias (RAMOS, 2013).
A Constituição de 1988 foi feita sob a ―fiscalização‖ da ―bancada evangélica‖ (PIERUCCI, 1996), em um ambiente social que iniciava uma trajetória de redução da hegemonia católica e apontava para a consolidação da separação entre Estado e igrejas. Portanto, um processo que vinha de muito antes e que se acentuou durante a ditadura militar.
Assim, de tudo o que foi dito, os dados sinalizam que não só a Igreja Católi- ca buscou participar ativamente do processo Constituinte e também as Igrejas Evangélicas. Aquela, por medo de perder a hegemonia e a influência que exerce no Estado desde nossa colonização; estas por receio de ficarem à margem do proces- so, abrindo espaço para os católicos, permitindo a continuidade de seu poder junto ao governo.