Seria muito difícil imaginar, atualmente, uma sociedade man- ter-se informada sem a mediação dos meios de comunicação. Os meios de comunicação de massa possuem um papel fundamental na disseminação da informação, pois reproduzem o acontecimento e, consequentemente, pautam a agenda do público. O relacionamento com a mídia integra uma das etapas do planejamento de um evento, pois, como estratégia de comunicação, requer visibilidade mediáti- ca. Nos eventos de movimentos sociais, a presença da imprensa vai além desse objetivo, uma vez que se torna instrumento que pode contribuir para legitimar suas lutas.
Na visão de Hohlfeldt (2010), por meio da mídia, incluímos em nossas discussões alguns temas que, de outra forma, não chegariam ao nosso conhecimento, pois não seriam temas de nossa agenda. Essa concepção nos remete à importância de uma das vertentes dos estudos da pesquisa em comunicação, o agendamento (ou agenda
setting), deinido como “Teoria da Agenda” para McCombs e Shaw
e como “hipótese” para outros estudiosos, como Antônio Hohlfeldt. O agendamento teria um papel fundamental na deinição da agenda do público, pautando os temas para a discussão, pois “a principal airmativa da Teoria da Agenda é que os temas enfatizados nas notí- cias acabam considerados ao longo do tempo como importantes pelo público” (McCombs, 2009, p.22).
Hohlfeldt (2010) explica a relevância do agendamento por meio de seus principais pressupostos: luxo contínuo de informações, a partir de uma avalanche de informações que recebemos diariamen-
te; inluência dos meios de comunicação no receptor a médio e longo prazos, através do efeito de enciclopédia de determinada cobertura noticiosa; e o poder da mídia em inluenciar sobre o que pensar. Esse poder dos meios de comunicação, mencionado pelo autor, por um lado relete sua inluência na agenda pública, na medida em que se tornam temas para a discussão do público, porém entende-se que esse poder é limitado: não se pode airmar que os meios determinam o que pensar sobre o tema abordado.
Nesse sentido, Soares (2009) explica que a imprensa possui um poder simbólico “que advém de sua capacidade de agendar os temas, enquadrá-los, colocando-os publicamente” (p.145). No contexto dos movimentos sociais contemporâneos, suas lutas focam, inicial- mente, a busca pela visibilidade, para que seus objetivos tornem- -se públicos e, consequentemente, adquiram maior participação em seus projetos de mobilização. A mídia contribui, então, não apenas com o ganho de visibilidade pública dos projetos de mobilização, mas seu poder encontra-se também em sua capacidade de expandir o seu novo público.
No entanto, Steve Baker explica que os fatos que a mídia nos apresenta não são a realidade pura, mas a versão de alguém sobre ela. Esse processo, chamado de mediação, procura selecionar o que é im- portante para o público, de uma forma aparentemente transparente, proporcionando a sensação de experimentarmos a realidade. Porém, essa realidade criada nos remete à noção de representações, conceito amplo, que contempla as mais diversas áreas do conhecimento, mui- to frequentemente analisada em estudos sobre mídia (Baker, 2007). A representação é um “vocábulo de origem medieval que indica imagem ou ideia, ou ambas as coisas” (Castro; Castro, s.d.). Assim, a percepção acerca de um fenômeno qualquer ocorre a partir de uma representação mental que exista sobre ele. Soares (2009), em seus es- tudos sobre representações mediáticas, amplia essa visão e instaura o sentido de reapresentação a partir da semelhança. O autor reitera a concepção de Baker quando explica que “a ideia de representação, necessariamente, parte do reconhecimento do seu caráter produzi- do. No entanto, as marcas dessa produção podem ser obliteradas
sutilmente, icando invisíveis [...]” (Soares, 2009, p.19).
Os meios de comunicação, através de sua onipresença, transpor- tam as pessoas para experiências não vivenciadas, construindo re- presentações e, como se apresentam como um “retrato do mundo”, essas representações naturalizam certos vieses, sugerindo, portanto, que esse seja o modo de ser da sociedade representada. E assim, essas representações instauram padrões normais da vida em sociedade, os quais naturalizam estereótipos e imagens pejorativas diversas (Soa- res, 2009). A representação de algumas minorias nos meios de co- municação ilustra essa concepção, como o homossexual em persona- gens cômicos e submissos, acrescentando-lhes trejeitos femininos.
No caso do Jornalismo, segundo o autor, diferentemente da Pu- blicidade, é mais difícil admitir representações tendenciosas, como pode estar implícito em um ilme de icção, pois se supõe que haja um compromisso ético e proissional com a realidade. Vale ressaltar, porém, que o jornalismo é um relato particular sobre os aconteci- mentos. Com base em estudos anteriores, Soares explica que:
Representações não são informações pontuais, tão somente. Por isso, o conceito de enquadramento (framing) vem sendo empregado para analisar como informações pontualmente corretas e veriicáveis podem ser selecionadas, valorizadas, destacadas, omitidas ou atenuadas, rela- cionadas a outras, em reportagens complexas, de modo a produzirem representações diferentes de uma mesma situação, dentro do limiar de verossimilhança (Soares, 2009, p.21).
As representações podem ser identiicadas com os enquadra- mentos que tornam algumas ideias mais salientes no texto, outras i- cam menos perceptíveis e algumas, ainda, tornam-se invisíveis. Esses aspectos textuais são difíceis de detectar, já que a escolha de palavras ou imagens pode parecer natural, porém, quando comparados com outros textos, torna-se perceptível a retórica implícita por meio da seleção de palavras ou expressões (Entman, 1991 apud Soares, 2009).
Nesse sentido, a Parada da Diversidade de Bauru é a represen- tação do movimento homossexual de Bauru. Por meio da marcha
cívica, os diferentes segmentos LGBTs se unem para percorrer o percurso na avenida Nações Unidas até o parque Vitória Régia, com o objetivo de protestar de maneira peculiar. O evento forma um espetáculo de cores representado pelos trajes extravagantes de drag
queens e travestis, de adereços coloridos, alusivos ao arco-íris. Nesse
clima tranquilo, as pessoas celebram a diversidade, enquanto ressal- tam suas lutas por meio de faixas e cartazes e os discursos dos líderes do movimento. Por outro lado, a presença da imprensa constrói no- vas representações que ampliicam a repercussão do evento por meio da cobertura mediática.