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Os “excedentes” no âmbito da luta de classes: o papel do

No documento Sociologia, Modernidade e questão social (páginas 88-92)

CAPÍTULO 2 A SOCIOLOGIA COMO RAZÃO TEÓRICA:

2.2. KARL MARX e FRIEDRICH ENGELS: a produção dos “excedentes”

2.2.2. Os “excedentes” no âmbito da luta de classes: o papel do

A expressão do papel revolucionário da classe operária consta das análises his- tóricas das lutas sociais, mas foi no Manifesto do Partido Comunista, de 1848, que Marx e Engels esboçaram o processo de formação do operariado em classe:

De todas as classes que ora enfrentam a burguesia, só o proletariado é a classe revolucionária. As outras classes degeneram e perecem com o de-

senvolvimento da grande indústria; o proletariado, pelo contrário é seu produto mais autêntico (O MANIFESTO... [1848], 1968, p. 34).

Mas, ao mesmo tempo em que eles reconhecem o papel determinante do opera- riado na transição social socialista, eles se referem ao lumpenproletariat como uma classe ambígua e reacionária:

...o produto passivo da putrefação das camadas mais baixas da velha sociedade pode, às vezes, ser arrastado ao movimento por uma revolu- ção proletária; todavia, suas condições de vida o predispõem mais a vender-se à reação (O MANIFESTO... [1848], 1968, p.35).

A primeira referência ao lumpenproletariat,9 encontra-se na Ideologia Alemã, [1845-46], escrita por Marx e Engels. Esses autores o definiram como o mais baixo estrato da sociedade e remontavam sua origem ao período de decadência do feudalismo.

O começo das manufaturas trouxe consigo, simultaneamente, um perí- odo de vagabundagem causado pelo desaparecimento da vassalagem feudal [...]. Isto já mostra como a vagabundagem está estreitamente li- gada à decomposição do feudalismo. [...] a vagabundagem só se esta- belece de maneira permanente e generalizada em fins do século XV e começos do século XVI (A IDEOLOGIA... [1945], 1977, p.97).

Analisando a divisão social do trabalho, eles mostram as dificuldades de parte dos servos liberados da vassalagem de organizarem-se nas manufaturas.

Esses trabalhadores que chegavam [às cidades] isoladamente jamais alcançavam a ser uma força, tornavam-se trabalhadores diaristas e ja- mais chegavam a formar uma organização, permanecendo como uma plebe desorganizada. A necessidade de trabalhadores diaristas nas ci- dades criou a plebe (p.80).

A noção de indivíduos que não integram o mercado regular do trabalho, portan- to, à época da Ideologia Alemã, está associada à formação da plebe, à noção de vaga- bundo e do trabalhador livre e temporário, com dificuldades de organizar-se para o tra- balho. Engels, em As Guerras Camponesas na Alemanha, [1850], deu mais precisão ao conceito:

O lumpenproletariado, em suas formas mais ou menos desenvolvidas, constitui fenômeno comum a todas as etapas da civilização. Naquele tempo, o número de pessoas sem profissão definida e sem residência fixa crescia, pois, ao decompor-se o feudalismo, ainda reinava uma so- ciedade que, com inúmeros privilégios, dificultava o acesso a todas as profissões e esferas da sociedade. Nos países civilizados, jamais o nú- mero de vagabundos tinha sido maior que na primeira metade do sécu- lo XVI. Uma parte desses vagabundos se alistava no exército em tem- po de guerra, outros mendigavam pelas estradas e os restantes ganha- vam sua vida mísera realizando trabalhos como diaristas e em outras profissões não regulamentadas pelas corporações. Esses três grupos participaram da guerra camponesa; o primeiro no exército dos prínci- pes que aniquilaram os camponeses; o segundo, nas conspirações e nos grupos de camponeses armados, onde sua influência desmoralizadora se manifesta a cada momento; o terceiro, na luta entre partidos no inte- rior das cidades. Quanto ao mais, não se deve esquecer que uma gran- de parte dessa classe, sobretudo a que vivia nas cidades, conservara um fundo de robustez camponesa e se achava muito afastada da vena- lidade e da degeneração do nosso moderno lumpenproletariat (AS GUERRAS ... [1850], 1977, p.33)

Marx e Engels, tendo em vista a experiência histórica e o papel relativo da “re- serva”, frente à luta da classe trabalhadora, desenvolveram uma posição bastante críti- ca, e mesmo estigmatizante, em relação ao estatuto desse estrato social, como já decla- raram no Manifesto..,. entendendo-o como escória ou ralé (rabble). No prefácio à pri- meira edição de “As Guerras Camponesas” [1874], Engels escreve:

O Lumpenproletariat representa elementos corrompidos de todas as classes sociais e tem seu quartel-general nas grandes cidades, sendo, de todos os aliados possíveis, o pior. Esse grupo é absolutamente venal e impudente. Quando os operários franceses escreveram o dístico “Morte

aos ladrões! nos muros de suas casas, durante as revoluções, chegando mesmo a fuzilar mais de um assaltante, não o fizeram certamente por entusiasmo pela propriedade e sim com a consciência de que era, antes de tudo, preciso livrar-se desse bando. Todo chefe operário que emprega esses vagabundos como defensores, ou que se apoia neles, prova que não passa de um traidor do movimento.10 (p.13).

10 Guimarães (1981, p.3) considera que a preocupação de Engels com essa conceituação, na realidade, era

responder às teorias do anarquista russo Bakunin, que considerava aqueles elementos postos à margem da so- ciedade como o verdadeiro tipo revolucionário. Daí talvez o caráter incisivo e unilateral da análise de Engels e de Marx em outras passagens sobre o lumpenproletariat. Ademais, creio que eles refletem a imagem geral da pobreza no século XIX como “vagabundos”, ou seja, indivíduos fora da norma do trabalho. A tradução do alemão do termo lumpenproletariat para o inglês ou francês refere-se a dangerous classes (classes perigosas) ou social scum (escória social).

Ou seja, tanto Marx e Engels como Tocqueville reconheceram, em suas análi- ses, o valor da classe trabalhadora como categoria central ao desenvolvimento da or- dem burguesa, desqualificando os segmentos que não se integram à norma do trabalho. Tocqueville considera esses segmentos estatutariamente iguais perante a lei e critica a generalização dos direitos sociais a esses “pobres não meritórios”, porque o acesso a esses “direitos” os coloca, paradoxalmente, numa condição de dependência e perten- cimento desqualificador. Marx, diferentemente de Tocqueville, analisou o processo de pauperização como efeito das condições de exploração do trabalhador no curso do pro- cesso de acumulação do capital. Ele mostrou que o segmento da “reserva” tem função reguladora do valor dos salários, do grau de dependência e da extração da mais-valia dos trabalhadores pelo capital. Ademais, considerando a experiência política desses segmentos no âmbito de sua participação nas lutas políticas, considerou-os como for- ças reacionárias ao desenvolvimento da luta de classes: “suas condições de vida [...] o predispõem mais a vender-se à reação” (O MANIFESTO... [1848],1968, p.35).

Paugam (2005, p.39) considera que ambos os autores foram sensíveis à emer- gência e ao aumento da classe de indigentes no curso desse período do pauperismo, mas reconhece que suas análises têm recortes parciais: enquanto Tocqueville insistiu sobre as conseqüências sociais e políticas da dependência dessa classe em relação à co- letividade, Marx pesquisou o significado econômico e político da origem do fenômeno de dominação da classe burguesa que emerge da Revolução Industrial. Ambos apreen- deram a importância do processo pelo qual uma faixa importante da sociedade estava relegada permanentemente a uma situação desfavorável e vulnerabilizada. Mas eles não tinham uma mesma interpretação. Para Tocqueville, a miséria está inevitavelmente ligada ao processo de civilização que condena parte de seus membros a um estatuto in- ferior e dependente, o que ameaça até mesmo a noção de democracia, enquanto, para

Marx, a questão resulta, antes de mais nada, da acumulação capitalista, fundada sobre a desigualdade fundamental da propriedade e da exploração sem limites da classe traba- lhadora pelos detentores dos meios de produção.

No documento Sociologia, Modernidade e questão social (páginas 88-92)