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4 APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DOS DADOS

4.3 OS FATORES RACIONAIS DO PROCESSO DECISÓRIO

O conceito de compras públicas apresenta em si mesmo um aspecto de racionalidade na medida em que este é definido como a escolha por bens e serviços nas melhores condições possíveis, considerando os aspectos de preço e qualidade (MOHAN, 2010). Dessa maneira, são

descritos e analisados abaixo os principais fatores de racionalidade do processo decisório das organizações envolvidas.

4.3.1 Escolha racional

A escolha racional, principal fator no modelo racional de Allison e Zelikow (1999), é formada por objetivos, alternativas, consequências e escolha que levam o tomador de decisão a selecionar a alternativa que ele classifique melhor em termos de metas e objetivos. Esse fator não foi facilmente observado nas entrevistas, em virtude de sua caracterização, não ter sido plenamente verificada no processo decisório.

Não obstante, observou-se indícios de escolha racional quando dois entrevistados (E04; E10) afirmaram ter tido total disponibilidade dos objetivos da compra e de suas variáveis, além de terem plena convicção de que a escolha em participar era a mais vantajosa para a sua organização. Um desses entrevistados (E04), inclusive, afirmou que nas reuniões do GesRio foram apresentados os itens, o catálogo de materiais e também foi perguntado se haviam sugestões de inclusão de outros itens. Além disso, o entrevistado enfatizou que havia analisado o cenário interno organizacional de participar ou não da compra.

Sobre a análise do cenário organizacional, o outro entrevistado (E10) exemplificou essa questão dizendo que chegou a contatar o setor de informática do seu órgão a fim de verificar se o papel reciclado proposto na licitação era compatível com as impressoras que possuíam.

Outrossim, aspectos de escolha racional foram observados no documento do GesRio enviado à Marinha, em que se identificou certa convicção de que a escolha da instituição para gerenciar o projeto atenderia plenamente os objetivos. No documento consta o seguinte texto:

Tendo em vista o prestígio e reconhecimento que o Comando da Marinha tem na Administração Pública Federal na área de compras, venho manifestar nosso interesse em ter essa tão respeitada instituição na coordenação do referido projeto [...]. (D04)

Houve quase unanimidade entre os entrevistados ao afirmarem que a escolha da Marinha, como órgão gerenciador, atendiam plenamente os objetivos propostos para o projeto da 3ª compra compartilhada sustentável, expondo argumentos similares ao do documento acima descrito.

Diante dessas considerações, vê-se que a decisão de envolver a Marinha se deu, de certa forma, sob os pressupostos da escolha racional, segundo o modelo proposto por Allison e Zelikow (1999).

4.3.2 Racionalidade limitada

Se por um lado mostrou-se difícil verificar aspectos da escolha racional, por outro identificou-se com clareza as limitações da racionalidade, uma vez que os gestores não tinham, de fato, as consequências para cada alternativa no processo decisório. Dois entrevistados (E03; E09) afirmaram ter conhecimento dos objetivos, pois, inicialmente, participaram da elaboração do projeto da 3ª compra. Não obstante, destacaram que, à época, muita coisa ainda estava por ser feita e analisada. Alguns entrevistados (E02; E03; E07; E09) deram exemplos de limitações nesse processo, tais como a estimativa de tempo, valor de referência dos itens e a resistência nas organizações quanto ao uso dos produtos sustentáveis que poderiam ser adquiridos. Um desses gestores, quando questionado sobre a certeza de que a escolha era a mais vantajosa para seu órgão, respondeu:

Tivemos uma estimativa de tempo, porém isso é algo complicado nas organizações públicas, já que depende de muitos fatores, principalmente numa IRP. Precisa-se fechar uma quantidade de órgãos e o valor de referência, que depende, às vezes, de proposta de fornecedores. Fato é que não tínhamos muita noção do prazo que essa compra iria ser concluída. (E09)

Apesar dos entrevistados, à época, acreditarem que a decisão sobre quem seria órgão gerenciador foi ideal, no decorrer do processo, viu-se que apenas parte dos possíveis percalços foi levada em consideração, o que remonta ao conceito de racionalidade limitada proposto por Simon (1970). Como elucida um dos entrevistados:

No início das reuniões, nós conseguimos avançar bem, já que uma das nossas apostas era que tendo um órgão gerenciador das Forças Armadas, com todo um fluxo de trabalho formalizado, seria bem mais rápido processo, mas acabou demorando mais. E isso foi um risco para o processo, por exemplo, quanto aos materiais de expediente, você tem que abastecer os almoxarifados e então os órgãos participantes começaram a fazer suas atas porque o processo começou a demorar além do previsto. (E11)

Um dos gestores, ao ser questionado se houve uma análise do cenário organizacional e convicção de que a escolha em participar era a mais vantajosa para o órgão disse:

Não! Não fizemos essa análise. A comissão de sustentabilidade realmente tomou a decisão, e, disse: vamos fazer! Foi desse jeito. Na verdade, foram colocadas metas para a comissão atingir, tais como a compra do papel reciclado, a troca do uso de copos descartáveis por canecas para os servidores etc. (E02)

Outro entrevistado respondeu a tal questionamento de forma similar:

Não! Não teve análise de participar ou não. O que pensamos foi: “vamos lá representar nosso órgão!”, até porque esse convite estava alinhado com nosso Plano de Logística Sustentável. (E07)

Diante do exposto, infere-se que limitações da racionalidade se mostraram presentes em vários momentos do processo decisório, uma vez que não houve um conhecimento completo e antecipado das diversas situações, tanto organizacionais quanto processuais, além de fatores ligados ao comportamento dos gestores (SIMON, 1970).

4.3.3 Maximização de valor

O fator maximização de valor é uma premissa básica da administração no que tange à compra pública sustentável. Um dos princípios dessa compra é a obtenção do melhor valor, não levando em consideração somente o preço do material ou serviço, mas também aspectos de qualidade, eficiência, proteção ambiental, entre outros (COMISSÃO EUROPEIA, 2011).

Como preceituam Alexandrino e Paulo (2011), na licitação busca-se selecionar a proposta mais vantajosa para administração. Tal assertiva quer dizer, em outras palavras, que o procedimento licitatório busca a maximização de valor das compras públicas. Além disso, este fator também está ligado ao desafio de se implementar e consolidar a CPS nas organizações públicas, uma vez que os obstáculos se encontram no tabuleiro da gestão (COUTO E COELHO, 2015).

Foram encontradas na pesquisa documental algumas variáveis que compõem o fator em análise:

[...] Ambas as compras anteriores obtiveram resultados positivos no que diz respeito ao ganho de escala e a aquisição de materiais de expediente com critérios sustentáveis. (D04)

[...] Foi solicitado pela Ministra do Planejamento, Sra. Miriam Belquior, na solenidade de entrega do Prêmio Inovação na Gestão Pública, que os projetos vencedores tivessem perenidade. (D04)

Três entrevistados (E01; E04; E09) também destacaram que a economia de escala proporcionada pela compra compartilhada sustentável apresentava um aspecto de extrema relevância para o processo, uma vez que, dificilmente, as licitações seriam feitas isoladamente, devido a apresentarem custos bem maiores.

Como bem destacam Biderman et al (2008), a economia requer adquirir produtos mais sustentáveis, mas também minimizar o consumo, ou seja, comprar somente o necessário. Nesse sentido, um dos entrevistados faz interessante observação:

Devemos adquirir o material sustentável, porém, ao mesmo tempo, não podemos comprar sem precisar do material, pois também faz parte da sustentabilidade não comprar por comprar. (E09)

Deve-se salientar também que a decisão do GesRio em ter a Marinha como órgão gerenciador evidenciou, em tese, uma escolha consciente e de maximização de valor dentro das limitações existentes (ALLISON E ZELIKOW, 1999), como fora percebido na fala da maioria dos entrevistados (E01; E03; E04; E07; E08; E09; E10). Esses destacaram alguns aspectos positivos da Instituição, tais como seriedade, tradição histórica e expertise em licitações públicas.

Conclui-se que o fator racionalidade limitada foi o mais observado, sendo seguido pela maximização de valor e, por último, a escolha racional. Dessa maneira, é ilustrado na figura 8 abaixo a influência dos fatores racionais no processo decisório da compra sustentável:

Figura 8. Fatores racionais influenciadores Fonte: elaboração do autor

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