Por volta de 1787, na Filadélfia, aconteceu a Convenção Federal com o objetivo de elaborar uma nova Constituição para os Estados Unidos, a qual pretendia fossem substituídos os artigos da Confederação que haviam sido firmados em 1781.
A teoria do Estado Federal surgiu com a Constituição norte-americana de 1787, quando ficou constatado que a confederação formada não atendeu à expectativa, sendo necessária a criação de uma união mais eficaz e duradoura, surgindo, assim, o federalismo.
Nesta ocasião, propriamente a partir de 1788, desponta a obra intitulada “O Federalista” que consistia num conjunto de textos, publicados sob o pseudônimo de Publius, na imprensa Nova-iorquina, cuja finalidade era a de fortalecer a campanha de convencimento para a ratificação da nova Constituição pelos Estados.
“O Federalista” é uma obra cuja autoria é atribuída a Alexander Hamilton, James Madison e John Jay, e a identidade dos autores só foi revelada após a morte de Alexander Hamilton.
Nesses artigos publicados era pregada uma série de princípios que deveriam nortear a Constituição americana.
Segundo Santana:
A história norte-americana tem, desde sua colonização, características bem particulares, pois foi resultado da dispersão das idéias liberais que abalavam a Europa. Diferentemente das demais colônias americanas, cuja importância para as metrópoles se restringia à extração de riquezas naturais, os Estados Unidos foram para os ingleses uma alternativa para aqueles que na Inglaterra não desfrutavam de liberdade suficiente para professarem suas ideologias religiosas e políticas que divergiam daquelas estabelecidas na Europa. Por isso a colonização norte-americana não teve o objetivo de fornecer recursos financeiros para os ingleses, mas se colocou como a oportunidade de se formar uma sociedade livre da influência opressora da Europa na época, o que no longo prazo significou o fortalecimento da burguesia capitalista. Assim, surgiu na América do Norte uma sociedade praticamente independente da administração inglesa e quase autônoma nas decisões econômicas e que cada vez mais prosperava.40
Em seu estudo, Santana afirma que os motivos financeiros que atingiram a economia inglesa, impuseram novas regras para os Estados Unidos, tendo sido criados novos impostos e outras normas que alcançaram a economia norte- americana. Assim, em razão dessa situação, começaram a surgir movimentos separatistas, num momento em que os ideais de liberdade constituíam palavras de ordem na Colônia.
Porém, é importante que se ressalte que o termo liberdade teve conotação própria nos Estados Unidos, pois, embora fossem defendidos ideais de liberdade, esses diziam respeito à liberdade econômica simplesmente, uma vez que os americanos conviveram durante muito tempo com a escravidão. Assim, a independência norte-americana não acarretou mudanças “na base social dos
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Estados Unidos; antes pelo contrário: contribui para manutenção e fortalecimento do poder burguês no Novo Mundo, com a exclusão dos escravos do pacto político que se instaurara. ’41
Com a independência dos Estados Unidos foi adotada a forma confederada de governo, resultando para os estados-membros uma total autonomia tanto no campo político como no administrativo.
Diante das dificuldades que essa total autonomia trazia na execução de políticas que interessavam a toda a nação americana é que prosperou um movimento que pregava a centralização do poder.
As idéias de centralização política acarretaram um grande conflito com aqueles que eram partidários da descentralização e defendiam a autonomia dos Estados. Assim, “O federalismo nasce como um pacto entre os Estados, fruto de
esforços teóricos e negociação política. Um pacto político, digamos assim, fundante, pois, por seu intermédio, se constituía os Estados Unidos enquanto neçao.
Assim, os autores de “O Federalista” enfrentaram um grande desafio teórico, no qual tentaram demonstrar que a centralização do poder era possível sem que ocorresse a perda da liberdade tão defendida pelos americanos.
O desafio teórico enfrentado por ‘O Federalista’ era o de desmentir
os dogmas arraigados de uma longa tradição. Tratava-se de demonstrar que o espírito comercial da época não impedia a constituição de governos populares e, tampouco, estes dependiam exclusivamente da virtude do povo ou precisavam permanecer confinados a pequenos territórios. Estes postulados são literalmente invertidos. Aumentar o território e o número de interesses são
41- SANTANA, Ana Claudia, op. cit., p. 24.
42- LEMONGI, Fernando Papaterra. O Federalista: remédios republicanos para males republicanos.
WEFFORT, Francisco C. (org ). In Os Clássicos da Política. São Paulo: Ática, Io v. 2000. p. 248.
benéficos à sorte desta forma de governo. Peia primeira vez, a teorização sobre os governos populares deixava de se mirar nos exemplos da Antiguidade, iniciando-se, assim, sua teorização eminentemente moderna.43
Diante da autonomia política e administrativa que gozavam os estados, o governo central da Confederação não tinha força bastante para impor o cumprimento de suas ordens, consideradas pelos estados confederados como simples conselhos. Por isso, era necessário dar força ao governo central para que este se impusesse aos estados, administrando, assim, a nação como um só todo.
Da mesma forma, os federalistas se preocuparam em demonstrar que ficava afastada a hipótese de surgir um governo central tirânico, e por isso, apresentavam a proposta de separação dos poderes: Executivo, Legislativo e Judiciário.
A separação dos poderes proposta pelos federalistas era diferente da que foi proposta por Montesquieu, pois no tocante ao seu objetivo, os federalistas pretendiam garantir que a soberania popular não seria ameaçada pelo governo. Os princípios da separação dos poderes deveriam se adaptar aos interesses de um governo republicano e não à monarquia que mantinha no poder uma classe social, como acontecia na Inglaterra. Os poderes, independentes e harmônicos em sua atuação, deveriam sempre estar a serviço do povo.
Voltemos à separação dos poderes tal qual apresentada em ‘O Federalista’ e vejamos quais suas reações com este ponto. A defesa da aplicação deste princípio encontra-se construída a partir de medidas constitucionais, garantias à autonomia dos diferentes ramos de poder, postos em relação um com os outros para que possam se controlar e frear mutuamente, referidas, em última análise, às
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características nada virtuosas dos homens, seus interesses e ambições pessoais para acumular poder.44
A separação dos poderes implica num permanente impedimento à tirania, onde todos os poderes se concentram nas mesmas mãos. Assim, cada poder deve ter força bastante para fazer frente às investidas de outro poder, limitando-se cada um dentro das fronteiras traçadas pela Constituição.
Em suas análises, os federalistas tinham a convicção de que da mesma forma que o Executivo pode ameaçar a independência dos demais poderes numa Monarquia, o Legislativo, numa República, corria o risco de se impor e subjugar o Executivo e o Judiciário.
Daí porque sejam necessárias medidas adicionais para frear o seu poder. A instituição do Senado é defendida com este fim, uma segunda câmara legislativa composta a partir de princípios diversos daqueles presentes na formação da Câmara dos Deputados, sendo previsível que a ação de uma leve à moderação da outra.45
Com relação à questão da representação, um fato interessante, segundo Santana,
é o critério adotado pelos Federalistas para definir o número de
representantes que cada estado podia ter na Câmara que seria proporcional à sua população e à sua riqueza (considerando-se o volume de tributos arrecadados). Assim, estados com maior número de habitantes e com maior arrecadação tributária teriam mais representantes, enquanto os menos populosos e menos ricos contariam com menos. E aqui surge uma discussão acerca dos escravos dos estados do sul: poderiam eles ser considerados
44- LIMONGI, Fernando, op. cit., p. 251.
45- Idem. p. 251.
cidadãos e serem contados juntamente com a população quando da definição do número de representantes?
A questão é que, convivendo com a escravidão desde os primeiros anos do período colonial, os Estados Unidos não contemplavam os negros quando da reivindicação por liberdade, mas apenas requeriam a liberdade para a camada economicamente privilegiada. Por isso é que o fim dessa questão consiste no fato de que não sendo
considerados cidadãos, os negros seriam obviamente
desconsiderados na contagem da população; no entanto, sua participação acontecia na forma de riquezas, pois eram propriedade de seus senhores, representavam riqueza e eram contados como bens materiais dos que os possuíam.46
Da obra publicada pelos federalistas merece destaque “O Federalista” n° 10 que é considerado pelos estudiosos do assunto como sendo o artigo mais importante da série. Nesse artigo, Madison aborda como tema: “O tamanho e as diversidades da União como um obstáculo às facções.”
Entre as inúmeras vantagens esperadas de uma União bem estabelecida, nenhuma merece ser mais acuradamente desenvolvida do que a sua tendência para sustar e controlar a violência das facções. O adepto dos governos populares nunca fica tão alarmado quanto ao caráter e destino dos mesmos como quando neles percebe uma tendência a esta perigosa imperfeição. Assim, não deixará de dar o devido valora qualquer plano que, sem violar os princípios aos quais se atém, ofereça a ela um remédio adequado. (...)
Há também dois processos para remover as causas das facções: um, pela destruição da liberdade, que é essencial à sua existência; outro, fazendo com que todos os cidadãos tenham as mesmas opiniões, os mesmos sentimentos e os mesmos interesses. Nada seria mais verdadeiro do que afirmar que o primeiro remédio é pior do que a doença. (...)