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4. A emergência dos “filhos da terra” negros e mestiços.

4.1. Os filhos da terra e o processo de branqueamento sócio-econômico

Os conflitos de interesses e a luta por protagonismo e status, de que a própria Coroa participava, fizeram com que a estrutura social cabo-verdiana sofresse sucessivos ajustamentos. Em todos eles parecia estar subjacente seja a necessidade de aproximar os dispositivos legais e institucionais da realidade vivencial embrionária, legitimando-a (como foram os casos das demandas dos filhos da terra pela integração nos serviços camarários e pela legitimação de paternidade), seja a de contrariar um tipo de colonização cujas

28 Idem. p. 356

tendências evidenciavam preocupantes sinais de desvirtuamento em relação aos propósitos iniciais dos seus promotores (como foram os casos das sucessivas medidas régias sobre os resgates nas costas da Guiné). As constantes intervenções da Coroa estavam assentes num movimento dicotômico de avanço/recuo, em que, por um lado, sobressaía o seu empenhamento em respeitar as particularidades e tendências de estruturação internas e, por outro, a sua preocupação em impedir que os colonos experimentassem uma autonomia abrangente, susceptível de fazer perigarem o monopólio comercial e o esforço expansionista até então envidado pelo Reino.

No âmbito dessas oscilações administrativas, e enquanto expressão de sua inoperância, atores diversos começaram a interferir e alterar o figurino da sociedade em formação. Como vimos, para além dos colonos, cujo desacato crônico das decisões da Coroa denotava, de fato, o seu poder em operar importantes rupturas político-institucionais, intervieram piratas e corsários, cuja ação desestabilizadora e destruidora minava as bases de sustentação do regime escravocrata, desmoralizando-o em seus fundamentos morais, seus pressupostos políticos e seu suporte econômico.

É nesse cenário de acentuada degradação dos sustentáculos da colonização que foi emergindo a categoria socioeconômica dos filhos da terra, que, como o próprio nome sugere, representam os primeiros habitantes legitimados por um pretenso vínculo orgânico à terra-mãe. Embora seu protagonismo se tenha incrementado no âmbito da falência do regime escravista e do retorno dos colonos ao Reino, parece ponto pacífico que o primeiro núcleo embrionário dos filhos da terra remonta a 1546, quando negros e mestiços solicitaram a “mercê de entrar nos ofícios da Câmara”. A partir dessa data, vários foram os casos de demanda dos mesmos por legitimação/reconhecimento da sua condição ou posição social31.

Aliás, a reivindicação de direitos civis e políticos é uma realidade que acompanha a trajetória histórica da população do arquipélago e, mais particularmente, dos filhos da terra, desde os primórdios da colonização. Elucida-o o fato de já em 1512 os oficiais da Câmara da Ribeira Grande solicitarem ao rei que não mandasse mais corregedores, porque os que aí serviam “[...] danaram esta terra e despeytaram o povo de tal maneira que poseram a terra em muita estreiteza”32.

Reconhecidos como cidadãos de pleno direito, os filhos da terra acabariam por se converter num dos mais expressivos insumos humanos no processamento e moldagem cultural da sociedade cabo-verdiana; uma condição advinda do seu papel no esbatimento de fronteiras interétnicas, que tornou mais congruentes “as realidades da natureza e as realidades do sistema”, através da transmudação para o domínio público do modelo de interação ensaiado na informalidade das relações íntimas e domésticas. Coube fundamentalmente a eles o protagonismo na superação da práxis administrativa colonial, de base étnica e cooptativa, e sua substituição por uma administração que se respalde no mérito e qualidades individuais dos cidadãos.

A progressiva ascensão desses filhos da terra fez a cor esvaziar-se do seu conteúdo original, passando a designar o status social e não um dos componentes de diferenciação étnica. Essa operação facultou aos filhos da terra um poderoso instrumento para se libertarem da sua condição de negro, conquistando, por apropriação dos bens materiais e/ou simbólicos do pai, a cor que a natureza lhe negara. Doravante, são brancos os indivíduos que, pela ascensão socioeconômica ou cultural, partilham do universo social dos brancos, assumindo e perpetuando suas representações e modus vivendi.

O branqueamento socioeconômico, ao superpor-se e transmudar o significado e substancialismo da cor biológica, obriga os diferentes atores a reinterpretar antigos códigos,

lado, são várias as referências a mestiços requerendo legitimação, para poder “Gozar das honras, privilégios e liberdades e nobreza do dito seu pai”. Vide, a propósito, História Geral de Cabo Verde, vol. II, pp. 240-244.

revisar velhas estratégias e efetuar novas alianças, com vista ao seu reposicionamento no cenário sócio-político imperante. Porém, esse processo ascensional dos filhos da terra não parece ter sido apreendido por eles mesmos como expressão do seu suposto peso étnico, mas sim como auto-superação individual daqueles que lograram herdar a cor do grupo dominante, ao herdar-lhe a posição social. Quer dizer que a ascensão da categoria social mestiça ou negra ocorreu dentro de uma estrutura que absorve sem alterar o viés de uma relação de base rácica. Aliás, a demanda por reconhecimento de paternidade, que representou um dos mais importantes instrumentos de branqueamento do filho da terra, traduz essa realidade. Através dela, os filhos bastardos requeriam a supressão de “todos os defeitos de sua nascença”, por forma a poderem gozar “das honras, privilégios e liberdade e nobreza do dito seu pay”33. Importa igualmente referir que essa mesma estratégia havia sido utilizada pelos subscritores do ofício remetido ao rei em 1546, demandando equiparação aos brancos. Nele, os negros e mestiços apresentavam como contrapartida à sua admissão nos serviços camarários, o combate aos escravos fujões que vinham atrapalhando a ordem social. Ou seja, a autoclassificação subjacente à sua reivindicação não é estabelecida por oposição ao branco mas sim ao negro fujão. O que eles exigem é o seu reconhecimento como entidade diferente e alheia não aos brancos, mas sim aos restantes negros. Assim, pleiteando o reconhecimento oficial da sua autotransformação, os negros e mestiços não parecem ter-se mobilizado propriamente a partir de um sentimento de pertença ao seu grupo, mas sim a um outro, cujos traços eles se julgam de posse.