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Os filmes Naturaes

No documento Recife: cidade e cinema (1922-1931) (páginas 104-113)

4 O CICLO DO RECIFE (1923-1931)

4.1 Os filmes Naturaes

A produção dos filmes naturaes, como visto, tinha de fato uma ligação com o poder público, que utilizara esse meio de comunicação de massas para exaltar as reformas urbanas,

as obras públicas, o progresso e as belezas naturais, para promover a cidade, utilizando o cinema como parte de uma política modernizante95.

Um dos primeiros e mais importantes naturais produzido com tais intenções e sobre os quais se tem registro fora o filme Veneza Americana (produzido pela Pernambuco-Film), cuja articulação com a gestão pública fora declarada logo nos primeiros planos:

A Pernambuco-Film, continuando no desenvolvimento do programa traçado, apresenta este segundo filme, destinado a atestar, ainda mais, a grandeza do Estado de Pernambuco, que, sob o benéfico impulso de administradores criteriosos, marcha seguro no caminho do progresso para alcançar o lugar que lhe compete ao lado dos mais prósperos Estados da União (VENEZA..., 1924, 00:10:08).

Destaca-se acima a aparente intenção de enfatizar as grandezas, as belezas e os feitos do Estado, além do progresso. A ideia era fazer conhecer o que realmente Pernambuco era e o que realmente valia, sendo o cinema usado com esse viés. A imprensa local, no período, vinculada a Sérgio Loreto, ressaltava a iniciativa, elogiava e incentivava, cedendo espaço na mídia para divulgação da película. O jornal que o filme cita, logo no início, é o Diário da

Noite que teceu os seguintes comentários:

Este magnífico serviço cinematográfico que os senhores J. Cambieri e Ugo Falangola, proprietários da Pernambuco-Films, têm executado em nossa terra... é um desses serviços que se não pode pagar, porque vale pela melhor afirmativa de que somos uma grande terra e um grande povo (VENEZA..., 1924, 00:02:07 / VENEZA Americana. Direção: Ugo Falangola e J. Cambière. Recife: Pernambuco-Film, 1924. [na lista de referências].

De modo geral, o filme retratou mais intensamente o Porto do Recife, as obras de expansão dos armazéns, as belezas naturais, o reforço do quebra-mar e as linhas férreas para o transporte de cargas, o uso de grandes guindastes, o movimento de cargas e transportes, a inauguração da Avenida Beira-Mar na praia de Boa Viagem, o Derby, o Quartel e o Parque

95Sobre estes filmes Cunha Filho (2010, p. 37) afirmou que: “Era uma prática de propaganda governamental95

que visava principalmente demonstrar o caráter modernizante dos administradores”. Calado (2015, p. 39): “pelo conteúdo dos filmes e pela utilização posterior, fica evidente que o governo de Sérgio Loreto assimilou o cinema a seu amplo aparato de

propaganda”. Figueirôa (2010, p. 24) também destacou que esses filmes propagavam os avanços e o progresso do Estado, a

ampliação dos serviços de saúde e saneamento, do comércio e da indústria, a renovação do Porto do Recife, assim como a possibilidade da criação de uma indústria cinematográfica, e, novamente, Cunha Filho (2010, p. 49) afirma que: “o Recife

começa a pensar nas grandezas de Pernambuco num momento em que percebe a extensão da sua decadência” (especialmente

usado para eventos cívicos e sociais, ou seja, parte da intervenção modernizante e das ações do Governo no período.

Registrou ainda a visita do governador Sérgio Loreto ao navio Gelria, primeiro navio de grande calado a atracar no porto após as reformas empreendidas, enfatizando o conforto no acesso e indicando que já havia sido feito o trabalho de dragagem na área, e destinou algumas cenas à demonstração do processo de construção do molhe de pedras, situado no lado oposto ao Cais do Porto, com grandes blocos que formaram a linha de proteção, além da construção de mais alguns armazéns, áreas de descarga de materiais e de armazenamento, e a inauguração dos mesmos com a presença do governador e de sua comitiva.

A utilização da linha férrea que acompanha a lateral de toda a área dos armazéns, o trem de cargas em movimento, e a infraestrutura para circulação dos trens que, hoje, ainda encontram-se aparentes em alguns trechos, também são registrados, bem como, a antiga Ponte Giratória, em ferro, em pleno funcionamento, movimentando-se para a passagem de uma embarcação.

Figuras de 112 a 116: Ponte giratória em movimento / Linha férrea e trem de cargas em funcionamento, na lateral dos armazéns do Porto.

Fonte: Fotogramas do filme Veneza Americana, 1924.

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O ponto de ‘clímax’ do filme, entretanto, é a inauguração da Avenida Boa Viagem, uma

autopista para carros e as linhas de bondes que já faziam todo o percurso ao longo da avenida, ligando-a ao centro e às áreas das zonas norte e oeste da cidade. Em algumas cenas, as calçadas em pedras portuguesas do antigo calçadão da Avenida ─ hoje substituídas por pavimentação em blocos de concreto intertravados.

Figuras de 117 a 122: Avenida Beira-mar / Calçadão em pedras portuguesas, posteamento em concreto, automóveis e linhas de bondes e trens / Lunch no dia da inauguração – Sérgio Lôreto e convidados.

Fonte: Fotogramas do filme Veneza Americana, 1924.

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Há destaque também para as edificações já construídas no entorno do Marco Zero (após a grande demolição ocorrida na área na década anterior96), exaltando as novas edificações que ocuparam o lugar dos antigos sobrados da ocupação mais primitiva.

Figura 123: Marco zero e as novas edificações ecléticas

do entorno imediato, dentre elas a Associação Comericial e a antiga Bolsa de Valores.

Fonte: Fotograma do filme Veneza Americana, 1924.

Na última parte do filme, chega a vez da Grande Exposição de Pernambuco, ocorrida em 1924, em que também foram exibidos filmes do Ciclo do Recife. Um parque de diversões é localizado na área em frente ao Quartel, junto à uma exposição de animais. Nessas cenas: pessoas, animais, brinquedos, movimento e velocidade.

Figuras 124 e 125: Parque de diversões - área em frente ao Quartel do Derby.

Fonte: Fotogramas do filme Veneza Americana, 1924.

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A paisagem que antecedeu o Ciclo do Recife foi a de destruição do tecido antigo do Bairro do Recife, em 1913, para a

implantação do projeto “moderno”. É nesse período também que é demolida a Igreja do Corpo Santo.

As Grandezas de Pernambuco foi produzido pela Olinda Film. Pode ser considerado

uma versão menor, e provavelmente anterior ao filme Veneza Americana (1925), ou ainda, um curta-metragem, como chamado atualmente. A primeira parte é destinada a apresentação

da “cidade-porto” representada pelo cais e proteção dos arrecifes. A seguinte, ressalta as

novas ruas e avenidas da cidade, com casarões ecléticos e neocoloniais, além da ocupação do litoral97, imagens de pessoas divertindo-se na areia da praia de Boa Viagem, imagens do Matadouro de Peixinhos e cenas nas ladeiras de Olinda, registrando o casario e a Igreja do Amparo.

Figuras de 126 a 129: Arrecifes / Dique de pedras / Casarões e palacetes nas novas avenidas.

Fonte: Fotogramas do filme As Grandezas de Pernambuco, 1925.

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Tomar banho de mar já se tornava um hábito saudável. No século XIX eram lugares onde não se podia passear, muito menos tomar banho, devido aos dejetos e esgotos.

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Figuras de 130 a 136: Matadouro de Peixinhos / Igreja do Amapro em Olinda / Banho de Mar em Boa Viagem.

Fonte: Fotogramas do filme As Grandezas de Pernambuco, 1925.

Recife no Centenário da Confederação do Equador é um registro da homenagem que

fora feita ao centenário da Confederação do Equador98 (1824-1924) na cidade. Encomendado, em 1924, pelo governador Sérgio Loreto para comemorar os dosi anos de sua gestão. Sérgio Loreto realizou, no Recife, uma série de festejos a partir do dia 2 de julho, data da proclamação da Confederação do Equador.

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A Confederação do Equador fora um movimento revolucionário que se posicionava contra a monarquia, que ocorreu na cidade do Recife em 1824.

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O filme enfatizou a grandeza dos pernambucanos que se envolveram nessa batalha e sua

bravura, citando a cidade (conforme texto presente no letreiro) como a “heroica terra de

Fernandes Vieira, de Filippe Camarão e de Frei Caneca, cidade que sempre esteve na vanguarda de todos os movimentos visando a conquista da liberdade e victoria da

democracia” (RECIFE..., 1924, 00:10:08).

O filme ainda citou a figura de Joaquim Nabuco, como importante representante da sociedade local, grande tribuno e literato. Ademais, alternou planos com frases sobre os feitos e os personagens dessa luta pela liberdade e democracia, e planos que traziam um pouco de poesia para a tela, ao descrever as belezas naturais, além das próprias paisagens naturais:

O céo, leve, puro, suave, onde as nuvens parecem ter azas [...] (uma vista do cais do Porto) [...] o nosso mar verde, vibrátil, luminoso [...] (imagem do mar e de arrecifes) [...] as nossas areias tépidas e cobertas de relva (imagem da areia, mar e pedras) [...] os nossos coqueiros, que com seu espanador parecem ao longe sacudir as nuvens brancas (quadro com imagens de coqueiros) [...] e o oceano a quebar-se em branco lençol de espumas [...] (conforme letreiro do filme).

A parte final deste filme, após a exposição de imagens posadas de personalidades da política local, foi de um evento religioso (uma missa) e político (por ter a presença do governador e de sua comitiva) ocorrido no Largo das Cinco Pontas. Nesses planos, há um número maior de pessoas ocupando um espaço público, em um evento público, que deixa clara a vocação e tradição católica da cidade, o que praticamente não apareceu nos filmes de cidade europeus da década de 1920.

Figuras de 137 a 142: Evento no Largo das Cinco Pontas.

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Fonte: Fotogramas do filme

Recife no Centenário da Confederação do Equadoro, 1924.

O último filme natural, estudado, foi A Chegada do Jahú. Produzido por Edson Chagas, o filme tratou da chegada e recepção de João Ribeiro e da tripulação do Jahú no Recife, ocorrida no dia 6 de junho de 1927. Nele, vê-se a preparação dos moradores do Recife para recepcioná-lo no porto, nas imediações da Praça Rio Branco (atual Marco Zero), com famílias, moças e crianças, homens, fotógrafos com suas máquinas, além de bondes, ruas e edifícios ecléticos no Bairro do Recife. É um reflexo do desejo do povo de conhecer o novo e a emoção pela chegada do hidroavião.

Figuras de 143 a 151: Cais do Porto, embarcações, multidão / fragmentos das edificações ecléticas do entorno do Marco Zero.

Fonte: Fotogramas do filme

A chegada do Jahúo, 1927.

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Outro aspecto do filme A Chegada do Jahú é o uso, pelas pessoas, de roupas brancas (a maioria dos homens usava paletó e calças brancas) e de chapéu de palha, muito adequado ao clima local. Houve destaque também para as melindrosas (tipo de personagem feminina que

usava roupas curtas, chapéu, fumava e “melindrava” os homens), crianças, e uma em especial,

que faz uma encenação de uma dança comum na época (o charleston).

Figuras de 152 a 154: Crianças e melindrosas.

Fonte: Fotogramas do filme

A chegada do Jahú, 1927.

Os demais filmes do Ciclo do Recife são filmes de enredo. Não eram encomendados ou financiados pela gestão pública e, em geral, se inspiravam em melodramas americanos - o cinema pernambucano teve influência do cinema de Hollywood - mas, mesmo assim, também traziam aspectos relevantes sobre a cidade, a vida moderna e urbana na década de 1920.

No documento Recife: cidade e cinema (1922-1931) (páginas 104-113)