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fornecedor. Envolve toda uma cadeia de produção com vários atores participantes, uns responsáveis pela extração da matéria-prima, outros pela produção das peças, outros pela montagem, outros pela distribuição, outros pela comercialização, etc., até o produto chegar às mãos dos consumidores.

Não foi por outro motivo que o CDC dispôs de forma tão ampla sobre o conceito de fornecedor, em seu art. 3º, como sendo “toda pessoa física ou jurídica, pública ou privada, nacional ou estrangeira, bem como os entes despersonalizados, que desenvolvem atividade de produção, montagem, criação, construção, transformação, importação, exportação, distribuição ou comercialização de produtos ou prestação de serviços95”.

Todas essas atividades descritas pelo Código do Consumidor de uma forma ou de outra colaboram para que o produto ou serviço seja disponibilizado no mercado. Nada mais justo que todos também assumam sua parcela de responsabilidade pela falta de qualidade daquilo que ajudaram a fornecer.

No CDC, os dispositivos que tratam da solidariedade estão expressamente previstos no parágrafo único do art. 7º; art. 18, caput; art. 19, caput; §§ 1º e 2º do art. 25; §3º do art. 28; art. 34, caput. Trata-se de solidariedade legal, tendo em vista que esta não se presume (art. 265 do Código Civil de 2002).

Há solidariedade, nos termos do art. 264 do Código Civil de 2002, “quando na mesma obrigação concorre mais de um credor, ou mais de um devedor, cada um com direito, ou

94 NUNES, op. cit., p. 173-174. 95 BRASIL, 1990, op. cit.

obrigado, à dívida toda”. Nesse sentido, a responsabilidade de todos os fornecedores que compõem a cadeia de produção é solidária, o que significa dizer que tanto o fabricante como o construtor, comerciante, produtor, importador, comerciante etc., podem ser acionados judicialmente quanto à qualidade do produto96.

No caso desta monografia, como trata-se, na maioria das vezes, de compra e venda em que o fornecedor (imobiliária, construtora, empreiteira, etc.) obriga-se a entregar a coisa (um apartamento), o art. 18 do CDC prevê a responsabilidade solidária dos fornecedores pelos vícios de qualidade. Desse modo, caso seja entregue um imóvel com vício de vedação acústica, poderá o consumidor exigir a devida reparação de um, de alguns ou de todos os fornecedores que colocaram o produto no mercado de consumo.

Sobre o assunto, comenta Zelmo Denari97:

[...] o consumidor poderá, à sua escolha, exercitar sua pretensão contra todos os fornecedores ou contra alguns, se não quiser dirigi-la apenas contra um.

Prevalecem, in casu, as regras da solidariedade passiva, e, por isso, a escolha não induz concentração do débito: se o escolhido não ressarcir integralmente os danos, o consumidor poderá voltar-se contra os demais, conjunta ou isoladamente [...]. Importante lembrar que o art. 88 do CDC veda a denunciação da lide98. Embora o mencionado artigo faça referência ao fato do produto, deve ser aplicado analogicamente também para os casos de responsabilidade solidária99.

Com isso, caso uma ação seja proposta contra a imobiliária que vendeu o apartamento, não poderá ela alegar litisconsórcio passivo necessário100 entre os demais responsáveis para

96É o que defende Leonardo Roscoe Bessa: “[...] a pretensão do consumidor em relação à substituição do produto,

à devolução do valor pago ou ao abatimento proporcional do preço, além das perdas e danos (§1º. do art. 18), pode ser dirigida tanto ao comerciante, como ao fabricante ou a qualquer outro fornecedor intermediário que tenha participado da cadeia de produção e circulação do bem (importador, distribuidor etc)” BENJAMIN; MARQUES; BESSA, op. cit., p. 150.

97 GRINOVER, et. al., p. 215.

98 “[...] denunciação da lide é a modalidade de intervenção forçada de terceiro provocada por uma das partes da

demanda original, quando esta pretende exercer contra aquele direito de regresso que decorrerá de eventual sucumbência na causa principal” CÂMARA, Alexandre Freitas. Lições de direito processual civil. v. I. 21. ed. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2011, p. 191-192.

Há divergências entre os autores em relação ao disposto no art. 88 do CDC, se o Código realmente quis se referir à denunciação da lide ou se seria o caso de chamamento ao processo. Fredie Didier Jr., por exemplo, se posiciona no sentido de que o CDC, no art. 88, quis se referir ao instituto do chamamento ao processo e não da denunciação da lide. É que, segundo o autor, por força do parágrafo único do art. 7º do CDC, e de outros que tratam da responsabilidade solidária do fornecedor, “a modalidade interventiva cabível é o chamamento ao processo (art. 77 do CPC)”. Isso porque, continua o processualista, o chamamento ao processo “é modalidade interventiva que beneficia, unicamente, o devedor solidário demandado, em detrimento do credor-autor, que terá de demandar contra quem, a princípio, embora pudesse fazê-lo, não quis promover a demanda” DIDIER JR., Fredie. A

denunciação da lide e o chamamento ao processo nas causas coletivas de consumo. Disponível em:

<http://www.didiersodrerosa.com.br/artigos/Fredie%20Didier%20Jr.%20-%20A%20denuncia%C3%A7%C3% A3o%20da%20lide%20e%20o%20chamamento%20ao%20processo%20nas%20causas%20coletivas%20de%20 consumo.pdf>. Acesso em: 02 jun. 2014, p. 4.

ingressar na lide, por força do disposto no art. 88 do CDC. Quando muito, poderá a imobiliária, caso seja condenada, mover ação regressiva contra os demais responsáveis (construtora, empreiteira, etc.), cobrando do verdadeiro culpado a quantia que houver despendido.

É o que se extrai dos ensinamentos de Guimarães101, quando diz:

Em resumo, escolhendo o consumidor um ou alguns entre todos os fornecedores, não poderão os réus alegar a existência de litisconsórcio passivo necessário, impondo o ingresso dos demais responsáveis.

Sendo proposta a ação contra o comerciante e havendo condenação, poderá este, em ação regressiva, cobrar do verdadeiro culpado (produtor, fabricante, construtor etc.) os valores que tiver desembolsado.

O CDC, como o próprio nome indica, tem por objetivo proteger o consumidor, e ao estabelecer essa responsabilidade solidária entre todos os componentes da cadeia produtiva, nada mais fez do que dar proteção à parte mais fraca da relação de consumo, através da “efetiva prevenção e reparação de danos patrimoniais e morais”, prevista como direito básico no inciso VI do art. 6º.

Denota-se disso tudo, que o CDC visa a garantir a proteção do consumidor da maneira mais ampla possível, assegurando que se vier a sofrer algum dano, seja efetivamente ressarcido.

Contudo, mesmo o consumidor dispondo de uma lei protecionista, a máxima “o Direito não socorre aos que dormem” vale também para o CDC, de sorte que aquele que tiver seu direito violado terá um prazo para exigir a devida reparação.