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3.1 O Teste de Fronteamento

3.1.2 Os fronteamentos

Tendo o exposto acima em mente, observe (3.4) abaixo:

(3.4) João viu [a mulher grávida]

Em (3.4), o constituinte entre colchetes é um predicado saturado, se parece com os VPs discutidos acima, pois também apresenta uma predicador que precisa ser saturado, mas esse predicado parece estar numa posição argumental, isto é, se ele formar um constituinte este será irmão de V. Se assim o for, é esperado que seja possível mover essas estruturas também.

O que fiz nesta seção, então, foi testar as possibilidades de se frontear toda a predicação NP+XP, pois se há movimento na gramática e essa propriedade se aplica a diferentes estruturas, a seqüência acima não parece ser uma exceção.

Assim, tendo em mente que a predicação NP+XP poderia ser fronteada e levando em consideração que toda vez que uma seqüência de elementos é movida (ver o princípio de de-pendência estrutural em Raposo (1992)) ela deva formar um constituinte em algum ponto, ob-serve a árvore da hipótese (A) abaixo. Veja que o DP e o AP formam um constituinte (conforme indicado pelo quadro) que pode ser movido. Esses testes podem, então, ser usado para testar a constituência.

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Hipótese A vP

spec v’

v VP

V SC

DP AP

Por outro lado na hipótese (B) abaixo, o quadro que citamos acima não inclui o DP, por isso a previsão é a de que não seja possível mover ambos num único movimento.

Hipótese B vP

DPsu j v’

v VP

VP V DPi

SC PROi AP

O mesmo se aplica a hipótese (B’), pois neste caso o quadro destaca apenas o AP nu, observe:

Hipótese B’ vP

DPsu j v’

v VP

VP V DPob ji

APi

Considere também as hipóteses (C) e (D), o suas possibilidade de mover a predicação NP+XP:

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Hipótese C vP

DPsu j v’

v VP

DPob ji V’

V SC

PROi AP

Hipótese D vP

DPsu j v’

v VP

DPob j V’

V AP

Tendo em mente as hipótese concorrentes, apresento todos os dados de meu paradigma e os resultados dos fronteamento das predicações NP+XP, por meio do foco contrastivo2: (3.5) [A mulher grávida], o Pedro viu

(3.6) *[A mulher grávida], o Pedro contratou 3 (3.7) [A mulher grávida], o Pedro quis

(3.8) *[A mulher grávida], o Pedro considerou

(3.9) ?[A mulher grávida], o Pedro deixou 4

Importante notar que os julgamentos acima levam em consideração a descrição estrutu-ral(SD) relevante, isto é, a interpretação relevante, conforme apontado, na seção (1.1.2). Assim,

2No início deste capítulo, apresentei os motivos de trabalhar apenas com o foco contrastivo.

3No próximo capítulo apresento um novo dado, num contexto de tópico contrastivo que é um contra-exemplo ao julgamento aqui apresentado. De qualquer forma, ainda mantive este resultado aqui, porque nessa fase do texto não seria possível introduzir a argumentação necessária para o que virá adiante..

4Os julgamentos dessa sentença, com o verbo ‘deixar’, são o que suscitam alguma dúvida, por isso a marcação com o ‘?’. Minha intuição, no entanto, me leva no caminho de assumir que ele se assemelha a ‘considerar’, não permitindo esse fronteamento. Mas é bom não perder de vista essa dúvida.

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para a sentença (3.5), pode-se imaginar um contexto em que um amigo pergunta a outro sobre uma mulher de que eles estavam falando e cujo nome não era importante na ocasião:

(3.10) — Cara, você viu como essa mulher se recuperou? Não faz seis meses que ela deu a luz ao filho dela e ela continua linda. Você chegou a vê-la grávida?

— Sim, sim... eu vi a mulher bem grávida.

Um outro contexto para uma sentença como essa seria:

(3.11) O Pedro quer muito ver a mulher grávida, mas coitado, mal sabe ele... ela grávida ele nunca vai ver, pois ela já fez laqueadura.

Isso posto, posso fazer uma avaliação desse teste e verificar quais hipóteses ele favorece e quaisdesfavorece, veja então o quadro abaixo (numerei as sentenças no quadro de acordo com a ordem de apresentação de cada verbo subordinante do paradigma, no início deste trabalho; vou usar essa numeração para me referir a cada uma delas):

Sentenças Favorece Desfavorece

(1) ver A B, B’, C, D

(2) contratar B, B’, C, D A

(3) querer A B, B’, C, D

(4) considerar B, B’, C, D A (5) deixar B, B’, C, D A

Tabela 3.1: Balanço parcial do teste Fronteamento

É importante notar que os resultados apresentados no quadro acima, podem ser anal-isados comodecisivosenão decisivos. Isso significa dizer que quando se tem o fronteamento de um determinado constituinte, isso automaticamente exclui as hipóteses em que a seqüência que estou considerando não formaria um constituinte. Então, o desfavorecimento em (1) e (3) é decisivo uma vez que o fronteamento somente se aplica a um constituinte; enquanto aquele em (2), (4) e (5) é não-decisivo, pois a seqüência relevante poderia, eventualmente, formar um constituinte que não se moveria por razões independentes.

Estou considerando a hipótese (D) adequada para (2), (4) e (5), pois estou assumindo como válida a generalização sobreremnant movementproposta por Takano (2000, 146)“Rem-nant movement of α is impossible if the head of α has moved out of α”. Uma vez que essa generalização seja válida, a hipótese (D) pode ser adotada para as sentenças citadas.

O texto de Takano tem como objetivo apresentar de que forma algumas restrições con-hecidas sobreremnant movementse revelam como uma evidência empírica a favor da proposta

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de Chomsky (1995),move-F. Os casos apresentados pelo autor em que possíveisremnant move-mentnão são permitidos são aqueles de movimento de categoria cujo núcleo sobre um movi-mento. E tendo como base o fato que os movimentos são movimentos de traços (categorias são movidas somenteovertlyviapied-pipingpara satisfazer PF), Takano propõe que essa general-ização se siga naturalmente da proposta de Chomsky, isto é, a categoriaα não terá mais por que se mover, pois essa operação é feature-driven, i.e., é motivada por checagem de traços e seu núcleo já sofreu movimento para essa checagem. Dessa forma, sua generalização se segue trivialmente da proposta de Chomsky e, com ela, ele dá conta de dados que anteriormente eram explicados por outros meios menos minimalistas. Assumindo isso, tenho em vista que meus movimentos também têm de ser motivados para checagem de algum traço (feature-driven), apesar de não ter abordado esta questão neste texto.

Com a generalização de Takano, ainda é possível excluir as hipóteses (B), (B’) e (C) para os verbos de (1) e (3), pois sem essa generalização, estas estruturas também permitiriam esse movimento. Isso se dá, porque o verbo se move para uma posição de adjunção a núcleo devP, permitindo que o VP possa ser movido, uma vez que este conteria somente a seqüência relevante, pois o verbo não seria mais pronunciado, conforme apresento na hipótese (B) repetida abaixo.

Se não fosse essa generalização, o constituinte indicado pelo quadro poderia ser fron-teado para a esquerda da sentença e teria-se exatamente o resultado de ter pronunciado (à es-querda) somente NP+AP. E, por isso, não se separaria uma sentença com o verbo ‘ver’ de outra com o verbo ‘considerar’, por exemplo.

Uma outra possibilidade a ser considerada é assumir que não existaremnant movement na gramática e eu conseguiria basicamente os mesmos resultados e sem perder a hipótese (D).

Por outro lado, assumindo que exista esse tipo de movimento, chega-se a um dado empírico que pode ser usado como evidência para a teoria de Takano (2000), pois somente dessa forma