4 SUSTENTAÇÃO TEÓRICA DA PROPOSTA
4.2 OS FUNDAMENTOS DO INTERACIONISMO SIMBÓLICO
Na Escola de Chicago, de tradição humanista, o ser humano é visto como um ser criativo, inovador e livre para definir cada situação de um modo único e imprevisível. O eu e a sociedade são considerados um processo, não uma estrutura (CRONK, 2001).
O esforço de Mead reside em ter demonstrado que a mente e o eu são emergentes sociais e que a linguagem na forma de gesto vocal, proporciona o mecanismo para esta emergência (MEAD, 1978). Em Mente, o eu e a sociedade (1934), Mead descreve as bases de sua compreensão sobre o desenvolvimento dos indivíduos no processo social (MEAD, 1978). Para ele, o indivíduo só pode ser entendido em
termos dos processos sociais, dentro do campo de suas experiências. Considera que, dentro do processo social, a comunicação é fundamental para a compreensão do indivíduo. Ocorrem duas fases no processo comunicacional: a primeira fase é a comunicação por gestos, e a segunda é a fase da linguagem ou comunicação de gestos significativos. As duas fases acontecem em um contexto social no qual dois ou mais indivíduos interagem um com o outro (BLUMER, 1982).
O ato individual é visto dentro de um ato social, é uma unidade completa de conduta que não pode ser analisada em sub-partes específicas, os atos interrelacionam-se e estruturam-se uns sobre outros, em forma hierárquica, ao longo da vida da pessoa. Começam com um impulso, que envolve percepção e atribuição de significado, uma repetição mental. Um ato social é uma relação triádica que consiste num gesto inicial de um indivíduo, uma resposta a esse gesto por outro indivíduo e uma resultante do ato, a qual é percebida ou imaginada por ambas as partes na interação (MEAD, 1978, p.30). Considerando-se aqui como estrutura triádica: o gesto de um indivíduo, uma resposta a esse gesto por outro indivíduo e o resultado da ação iniciada pelo primeiro.
Para Mead (1978, p. 34), ao buscar gestos capazes de converterem-se em gestos significantes, e de tal modo capazes de transformar o individuo biológico num organismo que pensa (humano), descobre-se o gesto vocal. Portanto, o gesto vocal é a fonte da linguagem propriamente dita e de todas as formas derivativas do simbolismo e, assim, da mente.
A mente é a presença de símbolos significantes da conduta. É na subjetivização, dentro do individuo, do processo social de comunicação, que surge o significado (MEAD, 1978, p.35). Os símbolos significativos são gestos (quase sempre vocais) que produzem no indivíduo que faz o gesto a mesma compreensão que é produzida pelo indivíduo ao qual o gesto é dirigido. Muitas pesquisas na enfermagem empregam o Interacionismo Simbólico (THOLL, NITSCHKE, 2012; SILVA, BARBIERI-FIGUEIREDO, 2011; LOPES, JORGE, 2005; BERGAMASCO, 2001).
De acordo com Silva e Barbieri-Figueiredo (2011, p. 28)
O conhecimento, a experiência e a consciência são três condições que vão influenciar na construção do significado. Todos eles têm um caráter dinâmico e evolutivo ao longo desta experiência. Por este motivo, deve-se admitir que o significado evolua e altere-se no tempo. As crenças sobre a
doença, como herança social e cultural, também contribuem para a construção do significado, em especial, na fase inicial da doença, ou seja, quando o conhecimento e a experiência ainda são escassos.
As pessoas ao internarem no quarto terapêutico, alteram seu cotidiano, entendido como sendo as várias formas de viver e agir em sociedade, de suas interações, crenças, valores, significados e símbolos, relacionados a cultura onde estão inseridos. (NITSCHKE, 1999a; 1999b). Deparamos com duas pessoas que estão ansiosas, com medo, mas que se permitem a ambigüidade, o medo e a afetividade se permeiam, a cumplicidade se mistura na vivencia dualizada fazendo com que histórias reais do cotidiano se mostrem neste período.
O cotidiano expressa esta prática diária de muitas maneiras de viver, experimentar e sentir os costumes e rituais familiares, individuais e coletivos de diversos grupos na sociedade, também denominadas tribos (MAFFESOLI, 1987).
5 CAMINHO METODOLÓGICO
Neste estudo envolvendo o significado do quarto terapêutico para pessoas que passaram pela radioiodoterapia, as estratégias metodológicas foram delineadas durante a elaboração do projeto de pesquisa.
5.2 OPTANDO POR UM MÉTODO
Buscou-se deste modo utilizar a pesquisa qualitativa, de caráter descritivo. A pesquisa qualitativa é interpretativa e se propõe a descobrir conceitos e relações nos dados brutos para, em seguida, organizá-los em um esquema explicativo teórico. Para Minayo (2004), a pesquisa qualitativa possibilita que compreendamos a realidade que surge das percepções e vivências dos sujeitos da pesquisa, sem haver preocupação com a quantificação, sendo a representatividade e a dinâmica presentes no material, o foco da pesquisa.
A escolha do método depende da natureza do problema a ser investigado. A opção pela Teoria Fundamentada nos Dados8 (TFD), idealizada por Glaser e Strauss (1967), foi pertinente para compreender os significados do quarto terapêutico, pois esta teoria objetiva captar aspectos intersubjetivos das experiências sociais do ser humano pelo conhecimento da percepção ou do significado que determinada situação ou objeto tem para o outro. A partir da construção indutiva de uma teoria assentada nos dados, novos conhecimentos poderão ser acrescentados, trazendo à área do fenômeno estudado novas perspectivas para o seu entendimento (STRAUSS; CORBIN 2002).
De acordo com Minayo, “o processo de investigação prevê idas ao campo antes do trabalho mais intensivo, o que permite o fluir da rede de relações e possíveis correções já iniciais dos instrumentos de coleta de dados” (MINAYO, 1992 p. 103). O campo já era bastante conhecido, entretanto foram realizadas todas as etapas do processo, bem como todas as pessoas que participaram da pesquisa receberam o Termo de
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8 A definição de termos utilizados durante o processo, elaboração, transcrição e codificação dos dados são os usados por Anselm Strauss e Juliet Corbin no livro Pesquisa qualitativa- Técnica e procedimentos para o desenvolvimento de Teoria fundamentada, TFD /2008, 2ªedição/reimpressão 2009 e encontram-se descritos no Apêndice 5 desta tese.