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1. respeito à legislação, às diretrizes e às normas oficiais

2.2 A NOÇÃO DE GÊNERO PARA A PERSPECTIVA SISTÊMICO-FUNCIONAL

2.2.3 Os gêneros do contexto escolar segundo a LSF

Desde as primeiras fases do projeto desenvolvido pelos pesquisadores da Escola de Sydney, havia a busca, a fim de desenvolver a leitura e a escrita, de mapear os gêneros que os alunos precisavam conhecer para ter sucesso nas diferentes etapas de escolarização da educação australiana. Para a realização desse objetivo, os pesquisadores analisaram textos produzidos por alunos de escolas primárias e secundárias. Segundo Santos (2006), retomando o relato de Joan Rothery, o critério utilizado pelos estudiosos para identificar os diferentes tipos de texto (posteriormente, identificado como gênero) foi levantar as características que distinguiam os textos em termos das escolhas léxico-gramaticais e semânticas, associado à identificação dos propósitos comunicativos a que se prestavam os textos.

Com base nesse mapeamento, ao final do projeto Write it Right, o grupo construiu um mapa apresentando a taxonomia dos gêneros que comumente eram solicitados aos alunos do ensino primário e secundário. A figura 12 apresenta o mapa apresentado pelos pesquisadores.

A partir desse mapa, o grupo identificou três grandes famílias de gênero, a saber os gêneros da família do envolver, os da família do informar e os da família do avaliar. Rose e Martin (2012) salientam que, obviamente, um texto possui propósitos múltiplos, mas há sempre um propósito primário e é ele que molda a organização composicional do texto. Nesse sentido, cada família apresenta um propósito específico. Segundo os autores, os gêneros pertencentes à família do envolver têm a característica de engajar leitores, por isso, nesse grupo estão os gêneros relacionados às estórias. Já os gêneros da família do informar têm o propósito comum de apresentar informações aos leitores, desse modo, nessa categoria entram os gêneros factuais. Os gêneros da família do avaliar, por sua vez, possuem o propósito de avaliar e persuadir o leitor, em consequência disso, nesse grupo estão os gêneros argumentativos por excelência.

A família de gêneros do envolver, de acordo com Rose e Martin (2012) é composta por cinco tipos de estórias: i) relato36, que simplesmente relata uma série

de eventos; ii) narrativa, que tem como diferencial a resolução de uma complicação; iii) episódio, que compartilha sentimentos e emoções a respeito de um evento complicado não resolvido; iv) exemplum, que julga o comportamento ou caráter de pessoas; e v) notícia jornalística, que envolve o leitor relatando um evento importante e apresentando diferentes pontos de vista sobre o evento.

A família de gêneros do avaliar, segundo Martin e Rose (2012), pode ser organizada em dois grupos: os que se caracterizam como reação a textos e os que são argumentos. O tipo de reação a textos é composto por três gêneros: i) opinião, que expressa os sentimentos do autor em relação a um texto; ii) resenha, que descreve e aprecia um texto; e iii) interpretação, que interpreta a mensagem que um texto simboliza. O tipo de argumentos é constituído por dois gêneros: i) exposição, que defende um ponto de vista; e ii) discussão, que debate dois ou mais pontos de vista.

Considerando a natureza do corpus analisado nesta pesquisa e os resultados encontrados em estudos que se aproximam do pretendido no presente trabalho, tais como Veel (1997), Macken-Horaric (2002), Martin e Rose (2008), Moyano (2013), podemos conjecturar que a família dos gêneros do informar seja a mais recorrente

36 A tradução dos termos que compõem a taxonomia dos gêneros da LSF segue a proposta elaborada por Gouveia (2013).

em nosso estudo. Em decorrência disso, tratamos de modo mais pormenorizado os gêneros dessa família seção a seguir.

2.2.3.1 Os gêneros da ciência escolar

Martin e Rose (2012) identificam alguns gêneros usados para informar, chamados de gêneros factuais. Esses gêneros podem ser agrupados em quatro famílias: a das histórias, a das explicações, a dos relatórios e a dos procedimentos. De acordo com a taxonomia de Rose e Martin (2008), a família das histórias é composta por três gêneros: i) relato autobiográfico, que relata as etapas da vida do autor do texto; ii) relato biográfico, que relata as etapas da vida de outra pessoa; e iii) relato histórico, que relata etapas na história. A família dos procedimentais também é formado por três gêneros: i) instrução, que esclarece como fazer uma atividade; ii) protocolo, que indica o que fazer e o que não fazer (regras e leis); e iii) relato de procedimento, que relata experimentos e observações. A família das explicações é composta por quatro gêneros: i) Explicação sequencial, que explica uma sequência de acontecimentos; ii) Explicação fatorial, que explica causas múltiplas para uma consequência; iii) Explicação consequencial, cujo propósito é explicar muitas consequências para uma causa e iv) Explicação condicional, que explica consequências possíveis dada a ocorrência de uma situação. A família dos relatórios, por fim, é formada por três gêneros: i) Relatório descritivo, classifica e descreve um tipo de entidade; ii) Relatório classificativo, que classifica e descreve diferentes tipos de coisas e iii) Relatório composicional, descreve diferentes partes de um todo (MARTIN; ROSE, 2008).

É necessário ressaltar que, ao abordar os gêneros factuais, Martin e Rose (2008) se referem a distintas áreas do conhecimento. Com base nisso, como mencionado na Introdução, adotamos como referência taxonômica os gêneros catalogados por Veel (1197), uma vez que o pesquisador se dedicou à análise de manuais didáticos australianos da área de ciências naturais, assim como a nossa proposta.

Em sua proposta de gêneros da ciência escolar Veel (1997) organiza as famílias de gênero de acordo ao domínio de uso da linguagem ao qual está relacionado. Segundo o pesquisador, a ciência escolar trabalha com quatro domínios em que a linguagem é empregada: a saber, o domínio relacionado a “fazer

ciência”, que compreende a família dos procedimentos; o domínio relacionado a “organizar informações científicas”, em que se encontra a família dos relatórios”; o domínio relacionado a “explicar eventos cientificamente”, que compreende a família das explicações”; e o domínio ligado a “desafiar a ciência”, que se relaciona com a família dos argumentos. Nesse sentido, defende o autor, para que o aluno consiga realizar tais domínios, que se relacionam a práticas científicas específicas, é necessário que ele domine a linguagem que possibilita a realização dessas atividades.

Com base nessa configuração taxonômica, Veel apresenta a seguinte sistematização (Figura 13) para os gêneros da ciência escolar secundária, em contexto australiano.

Figura 13 – Gêneros da ciência escolar em contexto australiano

Fonte: Traduzido de Veel (1997, p. 171)

Como a identificação dos gêneros em contexto brasileiro é resultado de nossa pesquisa, não apresentaremos, de modo detalhado, a estrutura esquemática dos gêneros catalogados por Veel (1997). À medida que formos discutindo os resultados no capítulo de análise, apresentamos a configuração proposta por Veel (1997).

Com base nos pressupostos teóricos que fundamentam nossa análise, oriundos da perspectiva da Linguística Sistêmico-Funcional, e entendendo a estreita relação existente entre texto e contexto (HALLIDAY, 1989). No capítulo a seguir, apresentamos o percurso metodológico adotado neste estudo, o qual já foi, em

partes antecipado pela maneira como as categorias analíticas foram apresentadas neste capítulo de fundamentação teórica.

instrumento (s.m.) é meio. nas mãos de um artista, arte. é aquilo que se expressa do seu próprio jeitinho único. é o que sozinho não alcança seu máximo potencial. nasceu para ser dupla de alguém. é conjunto. é inteiro sozinho, mas é inesquecível acompanhado.

(João Doederlein @akapoeta)

O objetivo deste capítulo é apresentar as escolhas metodológicas que orientam a execução do trabalho empreendido nesta pesquisa, cujo propósito é mapear os gêneros usados para ensinar conteúdos da área de ciências naturais escolar em livros didáticos de ciências usados no 6º ano do ensino fundamental. Para isso, inicialmente apresentamos a natureza do estudo empreendido. Em seguida, contextualizamos a pesquisa em termos do universo de análise. Em um terceiro momento, discorremos a respeito dos procedimentos realizados a fim de constituir o corpus. Por fim, apresentamos os procedimentos analíticos empregados na presente pesquisa.