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2 OS DIVERSOS CAMINHOS QUE LEVAM AOS GÊNEROS DO DISCURSO:

2.2 OS GÊNEROS DO DISCURSO

2.2.2 Os gêneros do discurso – constituição e particularidade

Bakhtin (2003b) aponta que os enunciados refletem as condições particulares e finalidades de cada esfera da comunicação verbal tanto por seu conteúdo temático, quanto pelo seu estilo (escolha de recursos lexicais, fraseológicos e gramaticais da língua) e, sobretudo, por sua construção composicional, esta percebida como: “determinados tipos de construção do conjunto, de tipos do seu acabamento, de tipos da relação do falante com os outros participantes da comunicação discursiva – com os ouvintes, os leitores, os parceiros, os discurso do outro, etc.” (BAKHTIN, 2003b, p. 266).

. É nesse sentido que o autor afirma que independentemente do caráter individual de cada enunciado, “cada campo de utilização da língua elabora seus tipos relativamente estáveis de enunciados, os quais denominamos gêneros do discurso.” (BAKHTIN, 2003b, p. 262).

Ao falar de estilo do gênero, Bakhtin (2003b) não se refere apenas à emergência do estilo do autor, mas à emergência de um estilo próprio de cada gênero. Nesse âmbito, é digno de ressalva que, dependendo do seu grau de estabilização, os gêneros são diversamente capazes de refletir um estilo individual. Segundo Bakhtin,

Todo enunciado – oral e escrito, primário e secundário e também em qualquer campo da comunicação discursiva [...] – é individual e por isso pode refletir a individualidade do falante (ou de quem escreve), isto é, pode ter estilo individual. Entretanto, nem todos os gêneros são igualmente propícios a tal reflexo da individualidade do falante na linguagem do enunciado, ou seja, ao estilo individual. (BAKHTIN, 2003b, p. 265)

Os gêneros mais favoráveis à emergência de um estilo individual são aqueles da literatura, enquanto os menos favoráveis são aqueles gêneros que se vinculam a uma forma mais padronizada, por exemplo, alguns tipos de documentos oficiais. De fato, Bakhtin (2003b, p. 265-266) aponta, que à exceção dos gêneros artísticos- literários, “o estilo individual não faz parte do plano do enunciado, não serve como um objetivo seu mas é, por assim dizer, um epifenômeno do enunciado, seu produto complementar.”. Os gêneros científicos, por exemplo, em virtude de serem profundamente estabilizados, pouco são capazes de refletir o estilo próprio do autor, nesse caso, a seleção de recursos lexicais, fraseológicos, composicionais se dá em

virtude do estilo do gênero e do quadro teórico do texto e não por conta do estilo particular do autor.

Os gêneros que circulam em cada esfera correpondem às características (condições) particulares dessa esfera e às esses gêneros correspondem estilos particulares; dessa forma os estilos da linguagem, são, de fato, os estilos dos gêneros que se constituem em cada dada esfera. Esses estilos se vinculam a determinadas unidades temáticas e a determinadas unidades composicionais.

A consideração do destinatário típico do gênero (e de seu fundo aperceptível), a índole e o grau de proximidade dos interlocutores determinam matizes estilísticas. Igualmente, as intenções do sujeito do discurso centradas no objeto e no sentido, bem como, principalmente, a expressividade do enunciado, ou seja, “a relação subjetiva emocionalmente valorativa do falante com o conteúdo do objeto e do sentido do seu enunciado” (BAKHTIN, 2003b, p. 289), têm implicações estilísticas.

Bakhtin (2003b) distingue os gêneros e estilos familiares e íntimos daqueles estilos neutros ou objetivos de exposição. Apesar de nos primeiros, revelar-se claramente a dependência do estilo em relação à sensação e compreensão do destinatário pelo falante (perante seu enunciado – do falante – e da antecipação da reação-resposta do destinatário); também nos segundos, em que a atenção se concentra ao máximo no objeto do discurso, está envolvida uma certa concepção do destinatário. Bakhtin esclarece que os estilos objetivos-neutros, que acreditamos assinalar sobremaneira os gêneros da esfera científica (e também, consequentemente, aqueles que mediam interações na área acadêmica),

[...] produzem uma seleção de meios linguísticos não só do ponto de vista da sua adequação ao objeto do discurso mas também do ponto de vista do proposto fundo aperceptível do destinatário do discurso, mas esse fundo é levado em conta de modo extremamente genérico e abstraído do seu aspecto expressivo (também é mínima a expressão do próprio falante no estilo objetivo). (BAKHTIN, 2003b, p. 304)

Estilo e gênero estão profundamente vinculados, de tal forma e em tal extensão, que a transferência do estilo de um gênero para outro configura a destruição e a renovação do próprio gênero (BAKHTIN, 2003b). Portanto, “onde há estilo há gênero” (BAKHTIN, 2003b, p. 265).

No que se refere ao conteúdo temático, Bakhtin (2003b) o entende não como assunto, mas como objeto e finalidade discursiva que revela o querer-dizer do autor

perante um dado auditório social, auditório este que orienta o autor/locutor na escolha de um gênero que seja apropriado à materialização de sua intenção discursiva (BAKHTIN, 2003b). Nesse sentido, o fato de dirigir-se a um interlocutor real, um destinatário previsto, um certo auditório social, que é intrínseco ao enunciado, relaciona-se à multiplicidade de gêneros, pois “As várias formas típicas de tal direcionamento [o endereçamento do enunciado] e as diferentes concepções típicas de destinatário são as peculiaridades constitutivas e determinantes dos diversos gêneros do discurso.”(BAKHTIN, 2003b, p.305). O aspecto intencional do gênero, no que tange a sua adequação a uma determinada situação de interação, a qual se dá no âmbito de uma dada esfera, envolvendo interlocutores específicos, relaciona-se à expressividade e à dimensão semântico-objetal do enunciado. No dizer de Bakhtin (1998, p.96), os diferentes elementos da língua (lexicológicos, semânticos, sintáticos, etc.) “adquirem o perfume específico dos gêneros dados: eles se adequam aos pontos de vista específicos, às atitudes, às formas de pensamento, às nuanças e às entonações desses gêneros.”

Nessa perspectiva, devemos perceber construção composicional não como forma textual, mas sim, como tipo de estruturação do texto como um todo, tipo de acabamento, tipo de relação tanto entre os interlocutores, como com os outros parceiros da comunicação (outros textos, o discurso do outro, etc.). A relação do autor/locutor com o(s) seu(s) interlocutor(es) e seus enunciados, sejam eles enunciados já-ditos ou presumidos, permeia a noção de gênero; e a percepção que os interlocutores têm do gênero dirige o processo discursivo, isso porque “A idéia do nosso enunciado, em seu conjunto pode, é verdade, exigir para sua realização apenas uma oração, mas pode exigi-las em grande número. O gênero escolhido nos sugere os tipos e os seus vínculos composicionais.”(BAKHTIN, 2003b, p. 286).

Após refletir sobre a maneira como Bakhtin concebe a noção de gênero e dada a menção a Bakhtin e aos gêneros no texto dos documentos oficiais de ensino, principalmente no que concerne aos PCN e a PC-SC, pareceu-nos coerente refletir sobre a maneira como essa noção é reenunciada ao longo destes documentos e, portanto, sobre a maneira como chega a seu leitor previsto: o professor.

2.3 O LUGAR DO TEXTO E DOS GÊNEROS DO DISCURSO NA PC-SC E NOS