Com base nas definições de texto, discurso e gênero, apresentadas neste módulo, podemos entenderqueostextossematerializamemgênerosespecíficos.Sendoassim,osparâmetrosdetextualização vão variarde umgênero para outro, não podendo ser definidos antecipadamente para todos os textos.As condições de produção que envolvem contexto, interlocutores, tema, fatores pragmáticos vão definir a linguagem e a estrutura organizacional do texto. Noções como coesão, coerência, informatividade, intertextualidade,situacionalidadeetc.,estarão diretamenterelacionadasaaspectosfuncionaisdosgêneros, já que eles se caracterizam mais por suas funções sócio!comunicativas e menos por suas regularidades formais.
Issoequivaleadizerquenãopodemosentendernoçõescomocoesão,coerênciaeinformatividade, porexemplo,dissociadasdogêneroedascondiçõesdeproduçãoquecondicionamoseuusoecirculação.Tais noçõessejustificamnotextoenosefeitosdesentidospretendidospeloautor,tendoemvistaseuspossíveis leitores.Não selê,nemseescreveumpoemadamesmaformaque selêeseescreveumartigodeopinião, um artigo científico, um anúncio publicitário ou tantos outros gêneros textuais que circulam em nossa sociedade.Naverdade,oselementosdenaturezaextra!lingüísticapassamaserresponsáveispeloprocessode textualização.
Tome!secomoexemplo ocaso de umanúncio de umacampanhapublicitária para o dia dospais, expostoemum outdoor, nacidadedeRecife,em2002,eumpoemadeautoriadesconhecida.
Tem pai que é mãe
Subi a porta e fechei a escada.
Tirei minhas orações e recitei meus sapatos.
Desliguei a cama e deitei-me na luz Tudo porque Ele me deu um beijo de boa noite.
(Autor anônimo)
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Observequeumleitorpoucoatentopodeconsiderarosdoistextosincoerentes,vistoquelidamcom situações aparentemente opostas. No primeiro caso, tal leitor alegaria que um pai não pode ser mãe, no sentidoestritodotermo,jáque,rigorosamente,ohomemnãogera,nempossuias característicasbiológicas da mulher. Além disso, poderia lançar outra crítica referente ao baixo teor de informação veiculado pelo enunciado,gerandoquestionamentoscomo:Quepaiéesse?Emquesituaçãoocorreapossibilidadede opai sermãe?No entanto, quando relacionamoso enunciadocom oatualcontexto histórico e como momento social de circulação desse enunciado (comemoração do dia dos pais), ele se torna coerente. Verifiquemos, primeiramente,queelelançamãodevaloresconstruídossocialmente,ratificadospelosensocomum,–oque nãosignificadizerquesejamunanimidade–queatribuemàmulherummaiorenvolvimentonavidafamiliare educacionaldosfilhos;segundo,queesseenunciadonoslevaaassociar(oucomparar)àsaçõesouatitudesde algunspaisadessamãeresponsávelpelocuidadodosfilhos.Damesmaforma,omomentoeolugarsocialde circulação desse enunciado conseguem fornecer ao leitor as pistas necessárias para o leitor recuperar o sentidosugeridopelamensagem.
Nocasodopoema,aocorrênciadealgunsverbos,acompanhadospornomesquenormalmentenão preenchem oseu valorpredicativo– vistoque deitamos nacama,mas não desligamosumacama, amenos que essa funcione eletricamente –, representaria algo inaceitável em outros textos, mas que se torna perfeitamenteautorizadonopoema.Aaparenteincoerênciajustifica!senoúltimoversoquandoseevidencia a condição de um eu lírico apaixonado, justamente para enfatizar a perturbação que invade os que se encontramnesteestado.
Emrelaçãoaoselementosdecoesãopresentesnopoema,verifica!seque,emboraoseuusoatenda àsnormasdatradiçãocoesiva,tambémilustraumcasoderupturacomessamesmatradição.SegundoKoch (1989,p.19),acoesãodizrespeitoaosprocessosdeseqüencializaçãoqueasseguramoutornamrecuperável uma ligação entre os elementos que ocorrem na superfície textual.É oque justifica o uso das conjunções aditivas e,dopronomeindefinido tudo–jáqueeleconseguerecuperarostermosmencionadosantes–,eda conjunçãocausal porque.No entanto, essatradiçãocoesiva équebrada pela utilização dopronome eleque nãoretomaumreferentejámencionado.Essaquebra,noentanto,nãocomprometeacompreensãodotexto, não otorna incoerente,umavezque é capazde estabelecerumarelação exofórica,comum “ente” amado quenãofoimencionadonotexto.
Issonosremeteaofatodequeacoerência,comoaautoraressalta,podeservistacomoumprincípio deinterpretabilidade, ligadaàinteligibilidadedo textonuma situaçãodecomunicaçãoe àcapacidadequeo receptordotexto(queointerpretaparacompreendê!lo)temparacalcularoseusentido(KOCH&TRAVAGLIA, 1989,p.11). Identificamosesseprincípiodeinterpretabilidadenocasoexpostoacima,jáque,mesmosemum antecedenteexplícitoelexicalizado,ogêneropoemaeodomínio discursivo(literário)permitemqueoleitor consigaatribuirsentidoaotexto.
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Portanto,conformemencionamosacima,emtextosacadêmicoseinstrucionais,porexemplo,
os parâmetrosde textualização sãooutros, porquesão outrosos objetivos deproduçãoe de leitura.Nesse sentido, podemos dizer que o autor do texto, diante das condições de produção, gerencia os critérios de textualização de modo a assegurar ou possiblitar ao leitor as condições de interpretabilidade que são dependentes,dentreoutrosfatores,damaterialidadetextual.
Essesdoisexemplos ilustramqueas condiçõesdetextualizaçãonão sãoimanentes aotexto enem podemserdefinidasantecipadamente,elassãorequeridasesejustificamnocomplexoprocessodeleiturae deproduçãoqueenvolveasituaçãodecomunicação,osgêneros,osobjetivospretendidoseosinterlocutores previstos.
Aindalevandoemcontaacomplexidadedaleituraedaescritaemsuaestreitarelaçãocomos
movimentos dinâmicos de criação e de circulação dos gêneros, destacamos flexibilidade e plasticidade dos gêneros em relação à forma que eles podem assumir. Assim como os textos estabelecem relações intertextuais –nas quais diferentes textosdialogamentre si –, os gênerostambémpodem manter relações inter!gêneros ou, segundo Marcuschi (2002), apresentam!se de forma híbrida. Isso significa dizer que um gênero pode assumir a forma de outro gênero, embora preserve suas funções sócio!comunicativas. Esse fenômenoémaiscomumnaliteraturaenalinguagempublicitária.
Observemoexemplo abaixo queilustraambos os casos:relações de intertextualidadee de
inter!gênero.
Acreditamosqueoleitornãotenhadúvidadequeessetextoseenquadranogêneropublicitário(ou dapropaganda).Senãohádúvidas,propomosagoraquereleiaotextoeresponda:
a. A que outro gênero o anúncio publicitário faz referência?
b. Quais as características gerais de cada um dos gêneros utilizados pelo autor?
c. Que aspectos constitutivos remetem às marcas de intertextualidade e às relações inter!gêneros.
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Gostaríamos de finalizar nossas reflexões chamando a atenção para o fato de que as práticas de leitura e deescrita devemser pensadas tendo em vista a dimensãosócio!histórico!cultural em que elas se inserem. A despeito das especificidades de cada processo, são fenômenos em interface que representam práticassociaismaisabrangentesnasquaisosgênerostextuaisdesempenhamumpapelconstitutivo.
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