2. A REFORMA AGRÁRIA NA NOVA REPÚBLICA: EXPECTATI-
2.1. Antecedentes imediatos
2.1.3. Os governos Fernando Collor e Itamar Franco
No curto período que se seguiu entre a promulgação da Constituição Federal de 1988 e as eleições de 1989, a população brasileira pôde experimentar o intenso debate que se instalou entre os candidatos à presidência da República, na primeira eleição direta desde Jânio Quadros, no qual se apresentavam diferentes projetos para o País, a serem implementados no decorrer dos cinco anos subseqüentes.
De um total de oito candidatos concorrentes no pleito, Luiz Inácio Lula da Silva (Frente Brasil Popular formada pelo PT, PSB, PCB, PC do B e PV) e
45
Fernando Collor de Mello (PRN)46 alcançaram o segundo turno, polarizando assim a disputa entre uma ala progressista e uma ala conservadora respectivamente.
Com a vitória de Collor no pleito em questão, inicia-se no Brasil um novo momento e um projeto, com as ações governamentais direcionadas no sentido de inserir o país de forma definitiva ao sistema econômico mundial. SILVA (1998:11) a esse respeito, assim se posiciona:
“No limiar desta década, por influência dos ventos ideológicos dominantes, claramente reafirmados no chamado ‘Consenso de Washington’, (sic) esses países dentre os quais o Brasil, foram compelidos a adotar estratégias econômicas baseadas num tripé de inserção internacional, liberalização de mercados e desestatização do setor produtivo.”
Seguindo a lógica propugnada por estes “ventos ideológicos”, na agenda governamental foram definidas as principais medidas a serem implementadas, podendo-se destacar dentre estas: a redução das barreiras tarifárias e não tarifárias, a reformulação das políticas de incentivo às exportações, a eliminação dos entraves ao capital estrangeiro e o início das privatizações de empresas estatais. Para SALLUM JR. (1999:28):
“Esta reorientação estratégica constitui inflexão importante na nossa transição política, pois produziu alterações institucionais que incorporavam no plano do Estado mudanças político-ideológicas que já vinham ocorrendo no seio do empresariado e das camadas médias.”
No âmbito teórico, esta reorientação vem sendo chamada de “neoliberalismo”, estando caracterizada pelo renascimento de um conjunto de idéias clássicas baseadas no princípio do ‘estado mínimo’ e nas excessivas exaltações das virtudes do mercado (SILVA, 1998).
Ao mesmo tempo, toma importante dimensão neste contexto o processo de internacionalização econômica, um dos aspectos fundamentais de um fenômeno maior que vem sendo chamado de globalização, e sobre o qual muito têm se debatido, sobretudo acerca do futuro das nações em geral, e dos países em desenvolvimento, em particular, dadas as condições e a velocidade com que este movimento vem se desenvolvendo.
Nesta conjuntura, pode-se afirmar que na década de 90 o núcleo da agenda política deslocou-se da democratização, fortemente presente na década anterior, para a liberalização econômica, acompanhando as mudanças em curso no âmbito mundial.
Ainda no plano nacional as forças políticas redefiniram suas posições, fato este que pode ser explicado pela orientação do Estado, acima citada, bem como pela expressiva votação alcançada por Lula e o conseqüente fortalecimento da esquerda, que paulatinamente começa a ampliar sua presença tanto no Executivo, em nível estadual e municipal, quanto no Legislativo, na Câmara e no Senado.
Estas colocações iniciais são imprescindíveis para se apreender de maneira efetiva o contexto macroeconômico em que, a partir deste momento, a questão agrária está inserida, bem como para definir o ambiente em que as discussões sobre esta matéria passam a se processar.
Dessa perspectiva, sem pretender reduzir a questão, pode-se afirmar, com base nos dados disponíveis, que no período que compreende o Governo Collor (1990-1992) e Itamar Franco (1993-1994), apesar das manifestações dos movimentos populares e do número crescente de ocupações de terras, os problemas fundiários foram sumariamente relegados a um plano secundário, sendo efetuados apenas assentamentos pontuais.
Segundo o INCRA, no Governo Collor, foram assentadas 38.425 famílias numa área total de 2.793.371 hectares, número este insignificante quando se toma a real dimensão do problema.
Cabe aqui destacar que o centro das atenções de toda a população brasileira nesta época foi o confisco dos ativos monetários depositados em contas bancárias e os escândalos financeiros e casos de corrupção que culminaram com o impedimento do então Presidente da República e a subida ao poder de seu Vice, Itamar Franco, que concluiu o mandato presidencial.
No período em que governou, Itamar Franco deu continuidade ao processo de liberalização econômica iniciado em 1990 bem como tentou retomar os projetos de Reforma Agrária. Neste sentido um programa emergencial para o
assentamento de 80 mil famílias foi aprovado, mas só foram atendidas 21.763 mil famílias numa área total de 847.214, segundo o próprio INCRA.
A marca maior do Governo Itamar Franco, sem dúvida, foi a elaboração e implantação do Plano Real com a “estabilização” da moeda e o fortalecimento a nível nacional de Fernando Henrique Cardoso, então Ministro da Fazenda e como tal, condutor do referido Plano. Cardoso colheu os louros do sucesso inicial do Plano e, em função da popularidade alcançada, foi lançado candidato à Presidência da República, vindo a derrotar em segundo turno, Luiz Inácio da Silva em fins de 1994.
Do que foi exposto e analisado neste capítulo, pode-se concluir que o que efetivamente ocorreu nos governos que antecederam o primeiro mandato de Fernando Henrique Cardoso foi o bloqueio sistemático das possíveis iniciativas institucionais que poderiam promover o acesso à terra a milhões de famílias sem- terra e de pequenos produtores rurais sem área suficiente para o sustento de suas famílias.
As políticas fundiárias implementadas neste período da história brasileira foram reduzidas a questões relativas à organização da produção, portanto, à Políticas Agrícolas, ou quando muito promoveram alguns poucos assentamentos pontuais em terras desapropriadas, confundindo Reforma Agrária com distribuição aleatória de glebas rurais, deixando intocável o latifúndio e neste sentido reafirmando o poder que a elite agrária brasileira ainda detém em nosso país.
Estes fatos, aliados à intensificação das pressões dos movimentos populares e às transformações recentes, sobretudo na orientação político- ideológica do Estado brasileiro, compõem o cenário sendo, desta forma, determinantes na formulação e condução da Política Fundiária do período Fernando Henrique Cardoso assim como seus resultados objetivos, como será analisado nos capítulos seguintes.