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2 Fundamentos Teóricos da Pesquisa

4.2 Os grupos de discussão

A propósito da opção pelo procedimento de coleta de dados denominado Grupo de Discussão, muitas foram as razões que me levaram a fazer esta escolha. A primeira delas diz respeito ao fato de poder criar, com os grupos, um espaço de intercâmbio que garantisse a escuta e a livre expressão de ideias, sentimentos, dificuldades que os sujeitos enfrentam como professores, tanto em sala de aula como nas situações de formação, mas não só opiniões individuais; pelo contrário, trata-se, segundo Weller (2006, p.245) de um “instrumento de exploração das opiniões coletivas”. Citando Mangold (1960), Weller afirma que:

“[...] a opinião do grupo não é a soma de opiniões individuais, mas o produto de interações coletivas. A participação de cada membro dá- se de forma distinta, mas as falas individuais são produto da interação mútua [...]. Dessa forma as opiniões de grupo cristalizam- se como totalidade das posições verbais e não-verbais” (1960, p. 49 - Tradução e grifos da autora)

Além de as posições dos participantes refletirem as visões de mundo de um dado grupo, dado o caráter interativo da coleta de dados, os grupos de discussão proporcionam ao pesquisador grande economia de tempo, já que se pode obter “mais de um depoimento ou opinião sobre determinado assunto de uma única vez”.

Também, o confronto dos depoimentos leva sempre à identificação de consensos e dissensos e, porque não dizer, a possíveis reelaborações ou revisões de formas de ver e pensar as questões que são objeto de discussão, o que era do meu desejo, pois é possível instaurar, a partir dos grupos de discussão, dinâmicas próprias que dão lugar a comportamentos e processos metacognitivos livres da influência do pesquisador, dado que o controle da discussão fica a cargo dos próprios participantes. Ademais, por se tratar de um grupo de professores que trabalha junto há alguns anos, me pareceu que este procedimento de coleta de dados permitiria desvelar algumas características que pudessem dar a este grupo certa identidade, uma vez que Weller (2006, p. 245), citando Mangold (1960), afirma que:

“[...] um outro aspecto a ser pesquisado por meio dos grupos de discussão, denominado pelo autor como opiniões de grupo e que dizem respeito às orientações coletivas oriundas do contexto social

dos indivíduos que participam em uma pesquisa: os entrevistados passaram a ser vistos, a partir de então, como representantes do meio social em que vivem e não apenas como detentores de opiniões”.

A citação acima vem ao encontro à minha necessidade de conhecer as opiniões de um grupo possivelmente marcado pelas influências da cultura profissional em que estão imersos.

Outra razão de ser da escolha deste procedimento metodológico diz respeito ao modo como das falas, nestas situações, emergem conteúdos múltiplos, diferentemente do Grupo Focal ou de uma situação de Entrevista Coletiva, onde os participantes tendem a ficar presos a uma temática ou questão, ou, ainda, ao que supõem que o pesquisador esperava ouvir. No Grupo de Discussão, a figura do pesquisador ou do entrevistador fica diluída, são os próprios participantes que conduzem a situação, ficando a cargo do moderador somente garantir que todos tenham direito à palavra, que todos tenham a oportunidade de manifestar ideias, opiniões. Portanto, foram orientados a tomar seus colegas como interlocutores privilegiados.

Por último, outra vantagem dos Grupos de Discussão diz respeito ao baixo custo que esta metodologia de coleta de dados representa, pela possibilidade de conseguir reunir, num único horário e local, os sujeitos da pesquisa. No caso dos professores da escola-campo, representou grande vantagem estarem reunidos para uma situação de avaliação coletiva do trabalho realizado ao longo do semestre, o que me permitiu subdividi-los em dois grupos para proceder à coleta de dados, o que nem sempre é possível. A depender da situação, a organização dos grupos de participantes requer alguns cuidados, como contatá-los para conhecer sua disponibilidade de agenda, para realizar o convite e definir o local adequado para o encontro dos participantes, dentre outras coisas.

Assim, organizaram-se dois Grupos de Discussão, cada um contendo cinco participantes, com duração entre 40 minutos e 1h, sendo que as discussões foram gravadas em áudio e vídeo com o auxílio de uma segunda pesquisadora2. Essa decisão foi tomada por acreditar-se que em menor número de participantes, a interação tende a ser mais intensa, de modo que se pode alcançar maior aprofundamento nas discussões. Vale dizer que além de situar os participantes dos

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Eliana Midori, colega de mestrado, gentilmente me acompanhou na coleta de dados, se responsabilizando pela condução e pela filmagem das discussões num dos grupos.

propósitos da pesquisa e do caráter sigiloso dos depoimentos, procurou-se orientar os professores para que falassem um de cada vez, num tom de voz que permitisse o registro em áudio de seus depoimentos.

As questões de caráter aberto, resumidas no quadro a baixo, foram apresentadas aos dois grupos, e com elas tínhamos o objetivo de provocar junto aos participantes uma reflexão sobre o processo formativo e a manifestação de opiniões pessoais. Entretanto, como é característico deste tipo de procedimento metodológico, não se alcança somente o que pensa cada um dos sujeitos. É possível, como já foi dito, pelos consensos e dissensos, chegar a conhecer o que pensa o grupo, enquanto coletivo de trabalho, sobre o processo vivido, e também os resultados alcançados, tanto num âmbito individual como no âmbito coletivo, já que os resultados não se restringem a uma única sala de aula nem a um único professor, e sim, têm uma consequência na qualidade do ensino promovido pela instituição educativa e na formação da equipe como um todo.

Quadro 4 - Questões dos Grupos de Discussão

Perguntas Orientações

Questão de

aquecimento Não foi necessária. Os professores integram uma

mesma equipe e se conhecem bastante. Participam de ações formativas em que são

estimulados a expressar ideias, opiniões, dúvidas e dificuldades, de modo que se avaliou que seria dispensável um aquecimento.

Questões

centrais Como vocês avaliam as ações de formação desenvolvidas este

ano em relação ao ensino da leitura?

Observar se as respostas apontavam:  Tomada de consciência da

concepção de ensino de leitura que tinham;

 Dificuldades com alguns conteúdos da formação;

 Novas aprendizagens no campo do ensino da leitura;

 Demandas formativas individuais contempladas e não contempladas; Dessas ações, quais foram as

mais significativas do ponto de vista profissional?

 Preferência por determinadas estratégias formativas;

 Críticas a determinadas estratégias formativas;

 Referência ao papel da coordenação no processo;

 Referência ao papel da interação com os colegas no processo;  Referência ao caráter colaborativo

das ações de formação;

 Referência à construção da prática autonomia enquanto profissional;  Dificuldades pessoais com os

conteúdos envolvidos;  Troca de experiência entre

professores. Como profissionais, quais as

principais aprendizagens que resultaram para vocês desse conjunto de situações de formação?

 Referência a uma melhor

compreensão do trabalho com leitura de literatura para a faixa etária em que atuam;

 Melhor compreensão dos conteúdos envolvidos;

 Melhor compreensão dos princípios didáticos que devem considerar na elaboração de propostas;

 Valorização do trabalho coletivo;  Valorização da interação com os

colegas para melhor compreender a própria prática;

 Valorização das situações de análise da prática dos colegas para

aprender com eles. Questão de

encerramento Em que medida a prática de vocês foi afetada por essas ações de formação?

 Dificuldades para transpor para a prática em sala de aula;

 Resultados positivos em sala de aula;

 Referência a múltiplas aprendizagens.