3.4 A Bíblia e a luta pela terra
3.4.2 Os Grupos do Evangelho e a luta pela terra
A construção dessa caminhada foi de muita dificuldade, porém a comunidade encontrava forças em si mesma e na rede de comunidades que caminhavam juntas e, estavam decididos a continuar dando prioridade ao trabalho de Evangelização. Relatam que não tinham a intenção de voltar atrás devido às reivindicações daqueles que queriam uma Igreja apenas sacramental sem compromisso com o
Evangelho. Acreditavam firmemente que a Palavra de Cristo estava viva e presente no dia a dia. Com esta crença continuavam a formar Grupos do Evangelho e assim construir verdadeiras comunidades cristãs. Esses grupos se sentiam ligados uns aos outros como se fossem pequenos córregos que iam formando rios e depois desaguar no mar: a Diocese (Anexo10). Esses grupos tinham o seu principal compromisso com a libertação dos marginalizados e se declaravam inimigos da injustiça e da exploração (AS BOAS NOTÍCIAS, 1975, p. 29-31).
A Bíblia era o grande instrumento, a grande arma para a guerra que estava declarada, mas outros instrumentos também eram importantes como suporte para esta luta: “O Evangelho, os documentos do Concílio, as cartas dos Papas, a carta dos direitos humanos das Nações Unidas, as leis trabalhistas, os estatutos do sindicato, do lavrador, da terra e tudo o que proclama o direito do fraco e clamam pela libertação” (AS BOAS NOTÍCIAS,1975, p. 31).
Aos ler alguns trechos de documentos dessa Igreja tem-se a impressão de uma declaração de independência, se expressa a alegria de um povo que havia conquistado a autonomia e a liberdade:
Se a Igreja somos nós, o povo, então cantemos nossos cânticos, festejemos nessas festas, ‘foliemos’ com nossas folias, criemos nossas formas de celebrar os sinais de Deus em nosso meio. Acabemos com coisas impostas que nos tiram a oportunidade de participar, de tomar iniciativa e expressar o que está dentro de nós e entre nós (AS BOAS NOTÍCIAS, 1975, p. 33).
Essa igreja foi tomando iniciativas na luta pela terra e elas se transformaram em acampamentos e assentamentos, só no município de Goiás existem vinte e quatro assentamentos de reforma agrária, todos eles foram acompanhados pela Diocese de Goiás. Os resultados que estão aí mostram que os rumos da caminhada estavam certos e que a decisão foi firme: “Não fugiremos deste assunto, por mais duro que seja de resolver. Um bispo, nosso conhecido, de outra região do Brasil, definiu a luta pela terra, como uma luta inglória, e é assim mesmo. Mas o povo precisa de terra para trabalhar” (AS BOAS NOTÍCIAS, 1975, p. 34). Essas dificuldades não fizeram as comunidades desanimar, pois foram percebendo sempre mais que a base de toda a luta era a força da fé e a união das comunidades e grupos eclesiais de base.
Os Grupos do Evangelho e a necessidade de trabalho para a sobrevivência foi motivando os lavradores a assumirem uma luta concreta pela terra. Os acampamentos, as ocupações e os assentamentos são uma consequência desse compromisso assumido. A Bíblia estava ali sempre presente como fundamento. “O fundamento Bíblico do acesso à terra é dado pelo seu uso. O trabalho na terra dá o direito de posse. O trabalho é anterior à propriedade” (GOMES, 1995, p. 17)11.
As Comunidades Eclesiais de Base, não apenas em Goiás, mas em todo o Brasil realizaram uma intensa reflexão em torno da terra e sempre em relação à luta pela terra como um tema Bíblico. Essa reflexão produziu ações práticas em âmbito local e em âmbito mais amplo como foi o caso da criação da Comissão Pastoral da Terra (CPT).
A criação da CPT nacional em 1975, nasce de uma opção pastoral, que partiu da análise das condições em que viviam os homens do campo. As leis agrárias estavam em estágio absurdo, onde nem os direitos mínimos eram respeitados. Os posseiros e os assalariados rurais estavam abandonados pela própria lei. Esta concitação provoca a Igreja, que cria um organismo para dar apoio e defender junto aos trabalhadores e posseiros seus direitos (GOMES, 1995, p. 17).
Na Diocese de Goiás foi logo criada a comissão diocesana, essa comissão não tinha a função de levar nada pronto, ela tinha a função de assessorar e estimular o surgimento de lideranças que assumissem a sua própria causa. Tinha uma função educativa, era um outro braço da Escola do Evangelho, se preocupava com uma realidade especificamente social, entretanto não descuidou e esqueceu de que este era um processo de Evangelização. O povo deveria ser o sujeito da construção dessa história. O desafio era o de se fazer um com eles e realizar o trabalho como diz Sócrates de Maiêutica, tirar as soluções de dentro deles. Referindo-se às massas Freire (2013a, p. 177), afirma: “Pensar com elas seria a superação de sua contradição. Pensar com elas significaria já não dominar”.
A educação do campo não está preocupada em apenas levar conhecimento para que os jovens do campo possam competir em igualdade no mercado de trabalho. Ela está preocupada, sobretudo na construção de outro projeto de desenvolvimento que inclua também os trabalhadores do campo como sujeitos da
11Luiz Antonio Lopes Gomes foi agente de pastoral da Diocese de Goiás, posteriormente professor de escola pública, realizou uma pesquisa de mestrado no assentamento São Carlos, município de Goiás, com o título de:Dolorosa transição: de trabalhadores sem terra a trabalhadores com terra.
construção de um novo modelo, que tenha como alicerce a justiça social. Como consequência aconteceria a eliminação das desigualdades e constituiria uma nova cultura que ajudasse até mesmo a repensar o modo de ser do país, de ser um povo e de fazer a sua história (KOLLING, NERY e MOLINA, 1999).
O trabalho desenvolvido na Diocese de Goiás foi pensado em vistas a uma intervenção na realidade do povo que ali vivia. Essa foi logo de início a sua característica. Quando a educação do campo pensa a escola e o desenvolvimento do campo pensa no sentido de que “precisa desenvolver um projeto educativo contextualizado, que trabalhe a produção do conhecimento desde questões relevantes para a intervenção social nessa realidade” (KOLLING, NERY e MOLINA, 1999, p. 62-63).