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2.3 Mobilidade social entre os forros da Sé

2.3.1 Os horizontes da pobreza e do enriquecimento

Quando na liberdade, o horizonte de possibilidades dos forros podia não ser exatamente amplo, mas era certamente plural. Ainda mais na cidade do Rio de Janeiro, que vivia acentuado processo de dinamização das atividades urbanas, dando origem a novos espaços e funções ocupados ou apropriados pela população livre de cor. Os novos lugares sociais criados neste contexto multiplicaram os mecanismos de mobilidade acessíveis aos libertos. Entretanto, para avaliar a relação dos forros com o enriquecimento (ainda que relativo) e a consolidação deste fenômeno ao longo do tempo, torna-se necessário considerá- los também em relação à pobreza.

Metodologicamente, analiso esta questão ainda por meio dos registros de óbitos. Entretanto, é preciso fazer uma ressalva quanto à validade ou confiabilidade de tal documentação para este fim. Primeiramente, não podemos essencializar a noção de pobreza apresentada pelos coadjutores, suas declarações devem ser vistas como discursos construídos sobre a acumulação dos indivíduos classificados como pobres. Além disso, suas apreensões podiam se basear unicamente na riqueza material que os falecidos tinham no momento da morte, ignorando os bens simbólicos que, naquele contexto, poderiam atribuir prestígio a pessoas com poucas condições materiais. Por isso, as informações dos assentos de óbitos permitem a elaboração tão somente de hipóteses, não de conclusões.

Os párocos usualmente indicavam a situação “socioeconômica” dos defuntos nos assentos de duas maneiras. Uma delas era ao justificar o porquê de o falecido não ter deixado testamento: não o fez “por ser pobre”, “por não ter de que” ou porque “não tinha do que testar”. Outra forma era indicando que ele fora “sepultado como pobre” em determinada igreja ou que seu sepultamento ou encomendação foi realizado “pelo amor de Deus”. Em dois dos livros de óbitos analisados os padres foram módicos neste tipo de informação. Assim sendo, não possuímos qualquer indício acerca das experiências de pobreza dos forros, e muito parcamente acerca dos livres, nas décadas de 1730, 1770 e 1780. Já para os demais períodos as informações são significativas, tanto no volume quanto nos resultados. Neles, os coadjutores foram regulares ao lançar suas apreensões sobre o estado de pobreza de seus paroquianos, fossem eles livres ou libertos, não aparentando maiores evidências de sub- registros. A frequência com que cada categoria social foi caracterizada como pobre está registrada no Gráfico 2.

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Gráfico 2: Identificação de pobreza entre todas as categorias sociais em liberdade, segundo os óbitos(%)

*OBS: Considero “brancos” todos aqueles que não são categorizados com nenhuma cor e condição, bem como não possuem indicação de serem filhos de escravas, forras e mulheres livres de cor.

Fonte: ACMRJ: “Assentos Paroquiais” – Livros de óbitos e testamentos da Freguesia da Sé (AP0400: 1701- 1710; AP0406: 1737-1740; AP0155: 1746-1758; AP0156: 1776-1784; AP0157: 1790-1797).

O resultado desta análise é, no mínimo, surpreendente. A ocorrência que imediatamente salta aos nossos olhos é o acentuado declínio da identificação da população de cor com a condição de pobreza ao longo do setecentos. Na segunda metade do século XVIII, segundo as declarações dos párocos, o percentual de pessoas pobres entre pretos, crioulos e brancos/livres equiparavam-se, margeando 10% em cada categoria. Não sabemos se, de fato, os libertos tornaram-se mais ricos ou menos pobres, mas pode-se aventar que, socialmente, eles passaram a ser menos identificados com a pobreza. Este é mais um elemento a fortalecer o argumento de que neste entrementes se efetuou a consolidação dos forros da cidade do Rio de Janeiro enquanto grupo, bem como a mobilidade social entre eles.

Outros aspectos se mostram ainda mais singulares. Os únicos a ultrapassar esta média eram os pardos que, proporcionalmente, eram duas vezes mais pobres que os demais (cerca de 20% dos pardos foram identificados como pobres). Infelizmente, os assentos de óbitos dessas pessoas não trazem mais informações sobre suas condições materiais de vida. Sabemos apenas que entre os pardos assim identificados havia um forro “oficial de pedreiro” falecido em 1751, uma forra “que [vivia] de lavadeira” e um forro “caixeiro de uma banca de peixe”, ambos mortos em 1792. No início desta centúria (1701-1710) a situação era ainda mais dramática: metade de todos os pardos da freguesia da Sé foi associada à condição de pobreza. Ao que tudo indica, a sorte dos libertos pardos não era melhor que as dos pretos no início do

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século. Além do fato de nenhum deles ter escrito testamento, dos 10 fregueses pardos da Sé entre 1701-1710, o padre coadjutor alegou que 5 deles viviam em pobreza. Entre os pretos do mesmo período a situação era outra. Além de nenhum dos 5 assim declarados ser indicado como pobre, três pretas forras deixaram testamento.

Assim sendo, os pardos eram as pessoas de cor mais reconhecidas como pobres que apresentavam maiores taxas de pobreza entre a população de cor da freguesia da Sé, segundo os critérios de avaliação dos párocos. Em todos os intervalos de tempo em que os padres relataram a “carência” de seus fregueses, os grupos dos pretos e dos crioulos sempre apresentaram menos da metade da proporção de pobres em relação àqueles. Este é um fenômeno de difícil interpretação. Se ser pardo simbolizava a ascensão no conjunto dos indivíduos de ascendência africana e escrava, como devemos compreender estes resultados?

Primeiramente, é preciso considerar que o aumento na identificação dos pardos com a pobreza se deu concomitantemente à diminuição da categoria no total da população forra. Em meio a uma crescente e volumosa população de pretos, a condição de pobreza de alguns pardos pode ter ficado mais evidente, pois socialmente não se esperava deles esta situação. Afinal, na vida em sociedade os fenômenos ressaltados pela coletividade são as exceções, não o corriqueiro; não precisa ser verbalizado aquilo que está conforme o esperado, as regras e as tendências do dia a dia. Para dar um exemplo presente na fonte histórica aqui trabalhada, na hierarquia escravista colonial às pessoas livres – condição considerada ideal – era dispensada qualquer designação de cor ou condição, era o silêncio que as qualificavam. Daí a baixíssima frequência na documentação dos indivíduos caracterizados como “brancos” ou “livres”. Já as situações contraditórias ao ideal necessitavam ser expostas, dando origem ao extenso vocabulário de cor aqui estudado. Partindo de tal pressuposto, a grande presença de pardos considerados pobres não refletiria diretamente sua proporção no interior do grupo, ao contrário, indicaria a excepcionalidade da condição de pobreza a eles atribuída. Apesar de plausível, considero este modo de compreender o problema insuficiente e carente de maiores fundamentos.

Além disso, é necessário atentar para os sentidos da riqueza vigentes em uma sociedade estamental que iam muito além dos níveis de acumulação material. Conforme argumenta Giovanni Levi, em sociedades de Antigo Regime

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os bens materiais e as reservas imateriais eram entendidos como se não pertencessem a gêneros separados. O primeiro era visto com todas as suas ligações com o mundo personalizado das relações; o segundo, como se fosse tangivelmente concreto, indiferente às suas raízes na subjetividade das relações sociais 112.

Por isso, podemos afirmar que ser pardo era uma categoria socialmente concebida como melhor que crioulo e preto, apesar – ou independentemente – das fortunas acumuladas ou da penúria material, devido ao prestígio envolvido nas relações sociais que permitiam a um liberto afastar ou silenciar sua ascendência cativa e, assim, empardecer. Entretanto, sem conhecer a fundo os seus paroquianos, é possível que os párocos baseassem seus julgamentos na externalização da riqueza por parte dos defuntos em vida. Muitos estudos demonstram como as libertas africanas, em diversas regiões da colônia, tinham o hábito de ostentar seus bens materiais, com roupas de luxo e joias 113, riquezas que, provavelmente, chamavam mais atenção aos olhos dos padres que os bens imateriais dos pardos. De fato, como veremos à frente, os pardos que amealharam riquezas durante a vida não chegaram a ter grandes fortunas, sugerindo que eles não tinham muitas chances de acumular volumosas porções de bens materiais – ou, ao menos, que suas oportunidades eram menores que as dos crioulos e pretos. Estes não apenas eram indicados como pobres na mesma proporção que os livres, como também redigiam testamentos mais frequentemente.

Conforme discutido no capítulo 1, como o testamento não era um documento obrigatório redigia-os, na maior parte dos casos, quem considerava ter bens de algum valor a deixar no momento da morte, desejava exibir prestígio ou reforçar laços sociais. Por isso, para os historiadores dos grupos subalternos do período colonial estas fontes sinalizam possíveis casos de ascensão social, por trazerem à tona trajetórias de indivíduos pertencentes aos estratos sociais inferiores que conseguiram acumular pecúlio e adquirir bens materiais e imateriais, feitos que a maioria de seus pares não realizava. Para o caso dos libertos da Sé, esta foi a metodologia usada para avaliar a extensão do fenômeno de mobilidade social do

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LEVI, Giovanni. A herança imaterial: trajetória de um exorcista no Piemonte do século XVII. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000, p. 218.

113 FARIA, Sheila. Sinhás pretas, damas mercadoras... FURTADO, Júnia Ferreira. Pérolas negras: mulheres livres de cor no Distrito Diamantino. In.: FURTADO, Júnia Ferreira (org.). Diálogos Oceânicos: Minas Gerais e

as novas abordagens para uma história do Império Ultramarino Português. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2001.

PAIVA, Eduardo França.Escravidão e universo cultural na Colônia. Minas Gerais, 1716-1789. Belo Horizonte:

Editora UFMG, 2001. LARA, Silvia Hunold. Sedas, panos e balangandãs: o traje de senhoras e escravas nas cidades do Rio de Janeiro e de Salvador (século XVIII). In.: Silva, Maria Beatriz Nizza. Brasil: colonização e

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grupo, em um processo de reconstrução de sua própria imagem na sociedade em que viviam e de reconfiguração dos princípios hierárquicos que a ordenavam. Ao longo do século, 89 libertos testaram, segundo informaram os padres coadjutores da freguesia, mas como em seis casos o documento não foi copiado e anexado ao assento de óbito, o trabalho baseia-se em uma amostragem de 83 testamentos. A análise que se segue conjuga as informações encontradas nesta documentação em diálogo com dados que os óbitos ainda têm a oferecer, realizando o necessário cruzamento de fontes para apreensão da pluralidade característica do segmento liberto.

Gráfico 3: Cores/“qualidades” dos forros testadores (%)

Fonte: ACMRJ: “Assentos Paroquiais” – Livros de óbitos e testamentos da Freguesia da Sé (AP0400: 1701- 1710; AP0406: 1737-1740; AP0155: 1746-1758; AP0156: 1776-1784; AP0157: 1790-1797). O gráfico foi feito com base em todos os testamentos de forros anexados aos registros dos livros de óbitos citados.

A comparação entre a população forra como um todo e o grupo daqueles que experimentaram algum nível de ascensão social demonstra a ineficácia em querer estabelecer qualquer tipo de correspondência direta entre aspectos demográficos e o fenômeno de mobilidade social. Atentemos, primeiramente, para as configurações da primeira metade do Setecentos (Gráfico 3). Pardos eram maioria entre os libertos, ao menos até a década de 1740. Não sabemos ao certo o sentido no qual a cor era empregada, se para indicar mestiçagem ou gerações mais afastadas do cativeiro – ou as duas coisas. Mas, a despeito da distinção que os pardos provavelmente possuíam em relação aos demais homens de cor da freguesia, entre os que testavam eles eram minoria, seguindo em acentuado declínio até o fim desta centúria. Na

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década de 1790, pardos e crioulos se equiparavam demograficamente no total da população liberta, correspondendo cada um, respectivamente, a 16,6% e a 14,6%. Mas quando se trata dos que optaram em redigir testamento o equilíbrio se desfaz, correspondendo os pardos a somente 10% dos testadores do período e os crioulos a 26,5%.

Ainda que, ao longo do século, os pretos tenham diminuído a frequência com que testavam, eles mantiveram-se à frente dos demais forros da freguesia, bem como dos livres (aqueles socialmente brancos, sem ascendência escrava declarada). Os testadores eram majoritariamente pretos em todos os períodos avaliados, conforme demonstra o Gráfico 3. Igualmente importante é o fato de 66,6% destes pretos serem também africanos (34 em um total de 51 testadores pretos). Nesse sentido, reforçando o argumento de descontinuidade entre os padrões das alforrias e da ascensão social, outro aspecto se destaca. Enquanto a manumissão premiava preferencialmente escravos da segunda geração em diante no cativeiro, a ascensão econômica vivida pelos forros era experimentada sobretudo pelos africanos. Disto concluímos que os africanos e os socialmente pretos – situações que por vezes se sobrepunham – eram os que mais conseguiam amealhar bens ao logo de suas vidas na liberdade.