HISTÓRIA DE UMA IRMANDADE
2.4.2 – Os imigrantes: refazendo identidades
Portugueses, espanhóis, italianos e alemães compunham, aproximadamente, um terço do número total de irmãos da Irmandade de Santo Antônio dos Pobres. A adesão a uma associação fraternal provavelmente significou muitos para aqueles que ali chegaram. Acreditamos que a reunião na associação pode ter ajudado a inserção dos imigrantes naquela sociedade. Era uma forma de estabelecer novas amizades, ao mesmo tempo em que, com base no apoio religioso, estas pessoas buscavam a proteção do sagrado. Cada qual, na convivência com o outro, ia compondo novas experiências, compartilhando suas memórias, ao mesmo tempo em que ia tecia novas identidades. O envolvimento em um mesmo projeto possibilitava compartilhar e trocar experiências, tecer novas solidariedades, evocar lembranças do passado, o que, aos poucos, acabava por ajudar a reconstruir suas identidades, com base na construção de novas memórias coletivas . Mas, como nos informa Joёl Candau, «uma memória verdadeiramente compartilhada se constrói e reforça deliberadamente por triagens, acréscimos e eliminações feitas sobre as heranças»184. A comunicação entre pessoas de diferentes lugares exigia superar as barreiras impostas pela língua, pela cultura, a fim de refazer
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ASASA-CM. Irmandade de Santo Antônio dos Pobres. Simão Pereira. Livro de Registro de Irmãos, L1-8.
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Ver ANEXO 5. Idem. 183
Ver ANEXO 6. Idem. 184
seus laços sociais. A convivência para viabilizar um projeto comum, administrar a igreja e o culto, proporcionava a gestação de um novo grupo e a redefinição de novas identidades. Sociabilizavam-se, ao mesmo tempo em que criavam uma rede de solidariedades.
Acreditamos que as relações sociais tecidas pelos estrangeiros não se limitavam, no entanto, aos imigrantes. Foram estendidas à sociedade local. Mas, isso não significa que não tenham ocorrido conflitos. E principalmente numa fase final quando ocorreram problemas administrativos e financeiros na organização. De qualquer maneira, se a interação entre várias pessoas dependeu da capacidade das adaptações e trocas culturais não significou o abandono total da cultura de origem. Nesse sentido entendemos que o cotidiano criou espaços que possibilitaram a aproximação e a identificação entre as pessoas com bases culturais tão diversas. A Irmandade de Santo Antônio dos Pobres tornou-se palco dessas adaptações e trocas, reafirmando continuamente a identidade que, antes mesmo da criação da irmandade, já estava em processo de formação.
A assertiva de que a Irmandade de Santo Antônio dos Pobres de Simão Pereira já existia como um grupo de indivíduos que se identificavam e possuíam objetivos em comum pode ser corroborada com a documentação acerca da construção da capela e do cemitério. Tito Antônio de Jezus, em 1860, deixou em testamento uma quantia de 500$000 para principiar a obra de uma capela dedicada ao culto de Santo Antônio. Essa iniciativa acabou por envolver o reverendo encomendado da freguesia, que tomou à frente das obras, muitos devotos, que fizeram doações de materiais para a construção da capela e até mesmo o Governo provincial. Somente em 1865, com a morte do Capitão Francisco Manoel Duque, a obra foi retomada com a verba testamentária deixada por ele ...e d’esta forma, a custo dos bons católicos d’esta Freguesia e daquelles fallecidos benfeitores, está concluída a Capella de Santo Antônio...185 O mesmo Tito Antônio de Jezus também havia doado um terreno para o cemitério da Irmandade no valor de 200$000. A condição para que a doação fosse realizada apresenta-se nos seguintes termos: ...e a Irmandade obrigada a mandar celebrar em os dias do aniversário do fallecimento de Tito Antônio de Jezus uma missa por sua alma...186
Portanto, o ano de 1868 foi apenas a oficialização da irmandade, pois esses devotos já demonstravam seus esforços em criar um espaço de culto, dando assim mais
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ASASA-CM. Irmandade de Santo Antônio dos Pobres. Simão Pereira. Livro de Compromisso, L1-6, f. 7-8.
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coesão ao grupo. A recusa da mesa diretora em acatar a orientação do bispo, D. Viçoso, de ter um pároco, indicado pelo mesmo, com voto de minerva na direção da associação, já demonstra uma unidade e força desse grupo, conflito este que trataremos com mais profundidade no próximo capítulo. Nesse sentido, nos parece mais inteligível a hipótese de que essa unidade provinha de um processo de formação bem anterior à autorização do Estado e da Igreja para o funcionamento da irmandade.
Acreditamos ainda que a convivência entre os imigrantes e os moradores de Simão Pereira é anterior à criação formal da associação fraternal, pois dentre aqueles que fizeram parte da primeira mesa diretora encontramos indivíduos provenientes de Portugal. O Procurador, Antônio Pereira Gabriel, e cinco dos doze mesários eram portugueses.187 Os componentes dessa primeira administração foram os que redigiram o estatuto da organização e, por isso, aqueles que estiveram à frente da criação da irmandade.
Concluindo, a Irmandade de Santo Antônio dos Pobres assumiu duas funções importantes na vida dos confrades provenientes de outros países. De um lado, esses irmãos encontraram na irmandade um espaço de socialização no qual podiam compartilhar suas experiências, expor suas dificuldades, encontrar apoio material e afetivo e um caminho de inserção naquela sociedade. Por outro lado, encontraram na irmandade um sentido para as suas vidas e um apoio espiritual, o amparo de um santo protetor.
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Os portugueses que ocupavam o cargo de mesário da primeira administração eram: João Pereira Coelho, Francisco Antunes da Silva Guimarães, Christóvão Francisco Alves [Rossadas], José Pinto Lisboa e Agostinho da Silva Leal. ASASA-CM. Irmandade de Santo Antônio dos Pobres. Simão Pereira. Livro de Compromisso, L1-6, f.1.