4. MILITARIZAÇÃO DO BRINQUEDO: O BONECO FALCON
4.2.2 Os impressos e o Falcon: do público adulto ao infantil
Além das propagandas na televisão, o Falcon atingiu várias mídias materiais. Os impressos acerca do boneco foram de revistas de moda até os HQ’s da Turma da Mônica, do Maurício de Souza.
Mais uma vez, a colecionadora Ana Cadatto colabora para a elaboração desse trabalho.
Em seu blog47 é possível encontrar diversas publicidades do final da década de 1970 e da década de 1980. As publicidades foram digitalizadas e são fornecidas em seu site de forma gratuita.
Uma das primeiras aparições do Falcon em publicidade impressa foi na revista Cláudia. O periódico em questão foi lançado pela editora Abril em 1961 e tinha como público alvo mulheres.
É interessante observar que: a aparição do boneco Falcon em uma revista voltada para mulheres adultas pode indicar que o principal objetivo seria atingir mães de meninos com tal publicidade, para que assim, as mesmas buscassem tal artefato em lojas de brinquedos para presentear os seus filhos. Percebe-se com essa publicidade também que o Falcon ganhava cada vez mais espaço, passando a aparecer em impressos que não tinha como objeto principal o brinquedo.
Figura 26 – Recorte encontrado na Revista Cláudia de maio de 1977
Fonte: Blog da Ana Caldatto.
47 Disponível em: <https://anacaldatto.blogspot.com/2012/01/falcon-olhos-de-aguia-1979.html>. Acesso em: 17 de setembro de 2019.
Apesar de o boneco estar ocupando o quadro de menor tamanho na página, ele está no centro da mesma, o que chama atenção. O conteúdo escrito diz respeito apenas à propaganda do brinquedo, todavia, é curioso observar um dos adjetivos que foi utilizado na publicidade:
másculo. Por se tratar de um boneco para meninos, que até então não se tinha, a boneca era
“exclusivamente” 48 para meninas.
É possível notar que a coluna “O assunto é...” tratava-se dos mais variados assuntos, de cinema a notícias nacionais. Entre toda essa variedade de assuntos, o Falcon surge para chamar atenção de mães que estivessem folheando a revista.
O Falcon também irá surgir na revista Desfile, que circulou no Brasil na década de 1970. Assim como sua aparição na revista Cláudia, o recorte no qual o brinquedo aparece será apenas com objetivo de anunciar o produto.
Figura 27 – Recorte da revista Desfile número 105 de junho de 1978
Fonte: Blog da Ana Caldatto
48 Apesar de que, logicamente, existirem garotos que fugiam a essa regra imposta pela sociedade e brincavam com as bonecas da época, sejam Susies ou Barbies.
Percebe-se que o anúncio foi criado unicamente para introduzir o novo modelo do Falcon que surgiu na época: o boneco loiro, com barba. O que chama atenção é onde esse anúncio foi encontrado: em uma revista de moda, que tem o público adulto de ambos os gêneros. Pode-se supor que pelo fato do Falcon possuir roupas de tecido das mais variadas formas e recortes, tal brinquedo chamaria a atenção de estilistas, tanto para entusiastas que utilizariam o boneco de manequim ou para os filhos desses profissionais, a criança sempre faz parte dos alvos nesses casos.
Em outra revista de moda voltada para adultos, a Figurino, o Falcon apareceu na edição de 1979. As linhas dedicadas ao herói desta vez foram mais extensas, as quais buscavam descrever suas aventuras e acessórios que o boneco contava.
Figura 28 – Revista Figurino de 1979
Fonte: Blog da Ana Caldatto
Algo em comum entre as três publicidades exibidas até agora é que todas chamam a atenção para o fato de o boneco Falcon ter seu corpo inteiramente articulado (incluindo os olhos, como é o fato da publicidade da revista Figurino). Tratava-se de uma novidade, não só
o fato de ser um boneco de gênero masculino, mas também possuir um corpo tão versátil, característica que para os brinquedos da época, não era comum. O que se via até então como uma representação humana eram as bonecas para meninas, a Barbie e a Susi já estavam em circulação, entretanto, ambas não possuíam tantos pontos articuláveis como o Falcon. Por ser voltado para garotos, o a representação do herói estadunidense precisou ter um corpo mais maleável, para ser inserido em um mundo de aventuras criado não somente pela empresa que divulgava seus acessórios, mas também pela imaginação das crianças que o manipulavam.
Outro ponto em comum nas revistas: ambos os periódicos nos quais o Falcon aparece são voltados para o público adulto. Esse fato leva a concluir que a publicidade tinha o objetivo de atingir os pais das crianças. Estimula-los a comprar o brinquedo para os seus filhos.
No entanto, nem só em revistas adultas o Falcon apareceu. O HQ da Turma da Mônica, de autoria de Maurício de Souza, trazia em seu verso um espaço para publicidade, onde apareciam propagadas variadas conforme as edições iam avançando. Em uma edição de 1977, ano de surgimento do Falcon, o herói surge no verso de uma edição do personagem Cebolinha.
Figura 29 – HQ do Cebolinha – Turma da Mônica, edição de 1977
Fonte: Blog da Ana Caldatto
Os “olhos de águia” dizem respeito a uma novidade introduzida no boneco. Os olhos ganharam a capacidade de mover-se para os lados, dando mais realismo ao olhar do herói.
Para tal, contava-se com um pequeno mecanismo na nuca do Falcon que permitia o movimento dos seus olhos. Com isso, como consta na publicidade, Falcon ganha mais uma habilidade: estava atento a todos os perigos. Além de destemido e másculo, o herói também se tornara vigilante.
A Turma da Mônica era uma publicação que tinha como público-alvo crianças e jovens (ainda em circulação atualmente, em 2019). Com a publicidade do Falcon no verso de tal periódico, fica evidente o objetivo da Estrela: divulgar seu boneco para que as crianças pedissem para que seus pais comprassem.
Em uma troca de e-mails com o colecionador Ricardo Beluchi, o mesmo forneceu um recorte jornalístico onde é possível ver o preço do boneco Falcon em 1982. O colecionador também enviou uma fotografia de um impresso que diz respeito a uma tabela de preço do comércio varejista, em tal imagem é possível analisar os preços de vários artigos da coleção do Falcon, dos próprios bonecos, o Falcon e os demais personagens, até os acessórios que eram vendidos separadamente, como os veículos. Através desses impressos foi possível ter uma noção de preço do boneco e saber a sua acessibilidade.
Figura 30 – À esquerda: Tabela de preços dos varejistas de 1981. À direita: Recorte do jornal O Estado de São Paulo de 1982
Fonte: Ricardo Beluchi
Sabendo que a moeda vigente na década de 1980 era o cruzeiro e que o salário mínimo entre 1981 e 1982 era em média Cr$ 13.000,0049, percebe-se que o Falcon era de um brinquedo bastante caro, chegando a Cr$ 5.520,00 na sua versão com olhos móveis, custando praticamente um terço de um salário mínimo. Sendo assim, era um boneco que não era acessível a todos, sendo reservado para as classes mais abastadas. Ou seja, fazia sentido a
49 Informação retirada do site da Audtec. Disponível em: <http://audtecgestao.com.br/capa.asp?infoid=1336>.
Acesso em 25 de novembro de 2019.
maior parte de suas publicidades serem através de mídias que eram acessadas principalmente por classes mais abastadas, uma vez que o próprio brinquedo tinha um custo bastante elevado.
As publicidades do Falcon transpassavam a materialidade, saiam do papel e surgiam na televisão. Afetaram adultos e crianças, ambos os sujeitos foram estimulados a comprar o novo produto da Estrela, um herói estadunidense representado em um boneco, em um brinquedo. Imbuído de representações, o Falcon vem ao Brasil disseminar o heroísmo do soldado estadunidense. Sendo assim, torna-se necessário observar as representações em alguns bonecos Falcon.