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Instituto Ferreira Vianna: organização, desafios e projetos

4.2.1 Condições prediais e higiênicas da instituição

4.2.1.2 Os incômodos e o descaso na reforma predial de 1937

A agência de Joaquina Daltro foi fundamental para a mudança no curso das vidas das crianças ali tuteladas. A elaboração do seu relatório moveu o poder público para iniciar uma grande reforma predial no Instituto, embora não como ela esperava. Mudanças concretas só começaram a deixar pistas nos ofícios a partir do ano seguinte. Nos ofícios expedidos no período de 12 de janeiro a 31 de dezembro de 1937 (gráfico 1) há um esforço incansável da diretora em alterar as condições físicas da escola.

Durante o ano de 1937 a diretora expediu 167 oficios. Assuntos burocráticos como prestação de contas e movimentação de pessoal e frequência, exigiram maior diligência por parte da gestora escolar, como demonstrado abaixo. Quanto à solicitação de obras e serviços, representam 11% do total, cujos ofícios servirão de fonte para a narrativa deste tópico.

Com a expectativa das reformas prediais, e na tentativa de dar uma solução mais confortável para o deslocamento dos alunos do prédio onde tinham aulas e oficinas, Joaquina Daltro enviou algumas sugestões para o Departamento de Educação, as quais passaremos a conhecer.

Gráfico 1: Assuntos dos Ofícios Expedidos por Joaquina Daltro em 1937

Elaborado pela autora em 2013 com base nos ofícios expedidos pela diretora Joaquina Daltro. Fonte: Centro de Memória Ferreira Vianna, diversos ofícios de 1937.

Ao imaginar que seria acatada sua sugestão de demolição do prédio principal onde os meninos se alojavam, Joaquina sugere o aluguel de uma grande casa, onde coubesse os 300 leitos, e tivesse adequadas instalações sanitárias, cozinha e refeitório. As despesas de aluguel poderiam ser custeadas pela verba 26 (Material), e as demais despesas pelas consignações próprias, previstas na lei orçamentária, e os alunos poderiam ser matriculados nas escolas primárias vizinhas provisoriamente. A empresa Soares de Amorim e C. Ltda, chega a ser indicada pela diretora, como interessada em alugar o espaço descrito.191

No mês seguinte a diretora indica uma casa para ser alugada na Rua Professor

Gabizo, nº 320, onde os alunos poderiam ter as atividades da escola de educação elementar, dando pistas de que houve rejeição à sua primeira proposta, e que seus planos de demolição foram frustrados. Segundo ela, seria muito vantajoso o local indicado, devido ao pequeno trajeto de caminhada da Rua General Canabarro, que não causaria dificuldades na frequência às aulas, nem nos dias de chuva. Se fosse alugada ao Instituto, a casa poderia ser usada a qualquer hora do dia e da noite, distribuindo as crianças em

191 Ofício nº 14, de 10 de fevereiro de 1937, para o Superintendente.

Prest. contas e pedido adiantamento 31% Mov. pessoal, frequência, exercício 32% Lotação alunos, exames, transf. 26% Obras, solicitação serviços 11%

três turnos, o que também traria solução para problemas de indisciplina e de uso do sanitário192.

A obra é iniciada em junho de 1937, contemplando somente o prédio onde

funcionavam o ensino primário193. Ao que tudo indica foi alugada a casa da Rua Visconde

de Itamaraty, nº 68, onde as aulas já estavam sendo ministradas, pois de acordo com o Ofício nº 107, de 16 de agosto desse mesmo ano, a diretora pede a instalação urgente de gás, luz e telefone para este endereço. Somente no final de novembro, três meses após a primeira dentre várias solicitações da diretora, é que ocorreu a instalação da energia elétrica, e nesta ocasião os funcionários da Companhia Light alertaram a diretora que a instalação interna do prédio estava “estragadíssima”, constituindo-se em verdadeiro perigo. Joaquina não hesita em expedir ofício ao chefe da Divisão de Prédios e Aparelhamentos Escolares, solicitando inspeção e os reparos que se fizessem necessários

“à segurança dos que ali são forçados a permanecer”.194

Afirmações como estas, sobre o estado precário do prédio alugado, são ratificadas sempre que tem oportunidade, revelando a diretora não ter concordado com a escolha. Uma dessas oportunidades foi ao comunicar ao Inspetor de Saúde sobre a instalação do gabinete dentário naquele endereço:

Comunico-vos que foi ontem concluída a instalação do gabinete dentário desta escola, o qual passou a funcionar na casa à rua Visconde de Itamaraty n. 68 com horário das 8 às 11 menos às quintas e domingos. Desejo que o dentista Dr. Alberto Almeida Plácido, possa dar o máximo de assistência aos meninos desta casa, alunos internos, que muito têm sacrificado, por motivos vários

tendo por base o estado precário do prédio.195

As palavras da diretora, repletas de descontentamento, denunciam o sacrifício imposto aos internos do Instituto Ferreira Vianna, que passaram a fazer longas caminhadas diárias para frequentarem as aulas na rua Visconde de Itamaraty, e num ambiente insalubre devido à demora na instalação da luz pela empresa responsável. Não é difícil supor que as instalações sanitárias não fossem adequadas, que as salas eram apertadas, e que os alunos suados se aglomeravam, criando assim um ambiente favorável às doenças a que eram frequentemente acometidos. As migalhas que recebiam da Assistência Pública, significavam muito para aqueles pobres meninos; por isso era mister

192 Ofício nº 37, de 13 de março de 1937, ao Diretor Geral de Instrução Pública.

193 Ofício nº 88, de 09 de junho de 1937, para o Superintendente do E.S.G.T.

194 Ofício nº 150, de 25 de novembro de 1937.

que cada profissional colocado naquele estabelecimento, desse o máximo de si, como pedia Joaquina.

Imagem 13: Mapa atual das ruas Visconde de Itamaraty 68 e Prof. Gabizo 320 em relação ao Instituto Ferreira Vianna.

Elaborado por Mariza da Gama L. Oliveira, 2015.

Como se pode observar no mapa, a pequena distância entre a escola e a casa sugerida por Joaquina Daltro, na rua Prof. Gabizo, facilitaria a locomoção dos menores, que poderiam ser transportados em pequenos grupos, contribuindo para suavizar o trabalho das poucas inspetoras que os levariam em três grupos e turnos, beneficiando a questão da disciplina e frequência. Porém, mais uma vez a proposta de Joaquina não foi aceita. O prédio alugado pela prefeitura para as aulas de ensino elementar na rua Visconde de Itamaraty, durante as obras, exigiria um esforço acima das forças das senhoras inspetoras, que diariamente teriam que levar e trazer as crianças para o prédio principal, pelo menos duas vezes ao dia, debaixo de chuva ou sol, e com olhos bem atentos devido aos perigos próprios das ruas. Devido à distância, isto exigiu uma nova estruturação logística para que as crianças estivessem arrumadas e alimentadas, antes do início da caminhada, e possivelmente trouxe prejuízo à frequência nos dias chuvosos.