Capítulo II – Os caminhos metodológicos da pesquisa
2.1 A trajetória
2.1.2 Os instrumentos da pesquisa e os objetivos
Para o alcance dos objetivos anunciados na introdução, nos debruçaremos sobre os instrumentos a serem utilizados: observação e entrevista semi-estruturada. A entrevista é um instrumento que tem sido empregado em pesquisas qualitativas como uma solução para o estudo de significados subjetivos e de tópicos complexos demais para serem investigados por instrumentos fechados num formato padronizado. Lakatos (1993) inclui como conteúdos a serem investigados fatos, opiniões sobre fatos, sentimentos, planos de ação, condutas atuais ou do passado, motivos conscientes para opiniões e sentimentos.
Convencionalmente, entrevista tem sido considerada como
um encontro entre duas pessoas, a fim de que uma delas obtenha informações a respeito de determinado assunto, mediante uma conversação de natureza profissional que proporciona ao entrevistador, verbalmente, a informação necessária (LAKATOS, 1993, p. 195-196).
Ao considerarmos o caráter de interação social da entrevista, passamos a vê- la submetida às condições comuns de toda interação face a face, na qual a natureza das relações entre entrevistador/entrevistado influencia tanto o seu curso como o tipo de informação que aparece. A experiência humana dá-se no “espaço relacional do conversar” que, segundo Maturana (1993, p. 9), é “o entrelaçamento do linguajar e do emocionar”. Esse autor define o linguajar como um “coexistir em interações recorrentes”, durante as quais os interlocutores coordenam sua conduta de forma consensual.
No que se refere ao tipo de entrevista semi-estruturada, podemos afirmar que são combinadas perguntas abertas e fechadas, sendo que o informante tem a possibilidade de discorrer sobre o tema proposto. O pesquisador deve seguir um conjunto de questões previamente definidas, mas ele o faz em um contexto muito semelhante ao de uma conversa informal. O entrevistador deve ficar atento para dirigir, no momento em que achar oportuno, a discussão para o assunto que lhe interessa, fazendo perguntas adicionais para elucidar questões que não ficaram
claras ou ajudar a recompor o contexto da entrevista, caso o informante tenha “fugido” ao tema ou tenha dificuldades com ele. Esse tipo de entrevista é muito utilizado quando se deseja delimitar o volume das informações, obtendo assim um direcionamento maior para o tema, intervindo a fim de que os objetivos sejam alcançados.
A técnica de entrevista semi-estruturada também oportuniza elasticidade quanto à duração, permitindo uma cobertura mais profunda sobre determinados assuntos. Além disso, a interação entre o entrevistador e o entrevistado favorece respostas espontâneas. Elas também são possibilitadoras de uma abertura e proximidade maior entre entrevistador e entrevistado, o que permite ao entrevistador tocar em assuntos mais complexos e delicados, ou seja, quanto menos estruturada a entrevista maior será o favorecimento de uma troca mais afetiva entre as duas partes.
Desse modo, estes tipos de entrevista colaboram muito na investigação dos aspectos afetivo e valorativo dos informantes, de forma que seja possível determinar significados pessoais de suas atitudes e comportamentos. As respostas espontâneas dos entrevistados – e a maior liberdade que estes têm – podem fazer surgir questões inesperadas ao entrevistador, as quais poderão ser de grande utilidade em sua pesquisa.
A observação como instrumento. Este método de coleta de dados baseia-se na atuação de observadores para obter determinados tipos de informações sobre resultados, processos, impactos, etc.
Para que se torne um instrumento válido e fidedigno de investigação científica, a observação precisa ser antes de tudo sistemática. Isso implica a existência de um planejamento cuidadoso do trabalho e uma preparação rigorosa do observador. Planejar a observação significa determinar com antecedência “o que” e “o como” observar. A primeira tarefa, pois, no preparo das observações é a delimitação do objeto de estudo. Definindo-se claramente o foco da investigação e sua configuração espaço-temporal, ficam mais ou menos evidentes quais aspectos do problema serão cobertos pela observação e qual a melhor forma de captá-los.
A observação que utilizaremos é chamada de participante, pois se admite que o pesquisador tenha sempre um grau de interação com a situação estudada, afetando-a e sendo por ela afetado. Isso implica uma atitude de constante vigilância por parte do pesquisador, para não impor seus pontos de vista, suas crenças e seus preconceitos. Antes, vai exigir um esforço deliberado para colocar-se no lugar do outro e tentar ver e sentir, segundo a ótica, as categorias de pensamento e a lógica do outro. A observação participante e as entrevistas aprofundadas são, assim, os meios mais eficazes para que o pesquisador se aproxime dos sistemas de representação, classificação e organização do universo estudado (ANDRÉ, 2005).
Baseados em sua experiência de trabalho de campo, alguns autores, como Patton (1980) e Bogdan e Biklen (1994), apresentam várias sugestões sobre o que deve ser incluído nas anotações de campo. Segundo Bogdan e Biklen, o conteúdo das observações deve envolver uma parte descritiva e uma parte mais reflexiva.
A parte descritiva compreende um registro detalhado do que ocorre “no campo”, ou seja, descrição dos sujeitos, reconstrução de diálogos, descrição de locais, descrição de eventos especiais, descrição das atividades, os comportamentos do observador. A parte reflexiva das anotações inclui as observações pessoais do pesquisador, feitas durante a fase de coleta: suas especulações, sentimentos, problemas, idéias, impressões, pré-concepções, dúvidas, incertezas, surpresas e decepções. As reflexões podem ser de vários tipos: reflexões analíticas, reflexões metodológicas, dilemas éticos e conflitos, mudanças na perspectiva do observador, esclarecimentos necessários.
Evidentemente, essas sugestões não podem ser tomadas como normas ou listas de checagem para o desenvolvimento do estudo. São apenas diretrizes gerais que podem orientar a seleção do que observar e ajudar a organização dos dados.
Segundo Lüdke (1986), tanto quanto a entrevista, a observação ocupa um lugar privilegiado nas novas abordagens de pesquisa educacional. Usada como principal método de investigação ou associada a outras técnicas de coleta, a observação possibilita um contato pessoal e estreito do pesquisador com o fenômeno pesquisado, o que apresenta uma série de vantagens.