A TRAJETÓRIA DO ESTUDO
1.8 Os Instrumentos e Procedimentos de Coleta de Dados
Conforme já referido, a coleta de dados foi realizada em 12 escolas municipais de ensino fundamental, na cidade de Campinas/SP, durante os meses de agosto a novembro do ano de 2007. Conforme já mencionado, foram utilizados dois procedimentos de coletas de dados, considerados complementares: a realização de entrevistas coletivas, com registro fonográfico, tomando como referência a estratégia da entrevista-reflexiva e; a aplicação de um questionário na perspectiva dos estudos de clima organizacional. De 12 escolas que se disponibilizaram a participar da pesquisa, profissionais de 05 dessas escolas foram entrevistados com a finalidade de dar voz aos trabalhadores e coletar informações, em profundidade, sobre o objeto de pesquisa.
1.8.1 A Estratégia da Entrevista-Reflexiva
As narrativas orais obtidas através de entrevistas coletivas, com uso de micro-gravador, e coordenadas pela própria pesquisadora foram o foco desta parte da pesquisa. Como já mencionado, de 12 escolas participantes da pesquisa, profissionais de 05 delas foram entrevistados. Para estas escolas, as entrevistas antecederam à aplicação do questionário. A seleção das escolas para participação, nessa etapa do estudo, deu-se em função da disponibilidade das mesmas e da facilidade de acesso da pesquisadora, visto que a visita às escolas para a realização das entrevistas exigia da parte da escola diferentes ajustes na pauta das reuniões e, da parte da pesquisadora, exigia diferentes ajustes, na programação da coleta de dados, em várias escolas, simultaneamente.
Em cada escola participante, desta etapa do estudo foram realizadas duas entrevistas coletivas com cada um dos grupos pesquisados: “equipe de gestão” e um grupo de professores que se colocou à disposição para ser entrevistado em cada uma das unidades escolares. Tal procedimento resultou na realização total de 20 entrevistas. As entrevistas foram feitas separadamente, com cada um dos grupos indicados, e ocorreram no ambiente de trabalho, em horário definido pelos entrevistados. Com os professores, as entrevistas ocorreram em horários de
reuniões coletivas de trabalho do grupo que se disponibilizou para esta etapa do estudo. A primeira entrevista teve a finalidade de apresentar a questão desencadeadora para narrativa e a segunda entrevista teve a finalidade de apresentar uma devolutiva do primeiro encontro, com o objetivo de negociar com os entrevistados o texto da entrevista. Além da utilização do gravador, a pesquisadora utilizou registros escritos sobre dados das narrativas que permitiram algumas interferências em termos de compreensão, síntese, esclarecimento, focalização ou de aprofundamento durante a entrevista, conforme nos sugere a estratégia da entrevista-reflexiva (SZYMANSKI, 2004).
De acordo com Szymanski (2004), a entrevista tem o caráter de interação social face-a- face na qual entrevistador e entrevistado atuam como protagonistas, num jogo de percepções do outro e de si. A autora explicita o contexto de jogo:
[...] Quem entrevista tem informações e procura outras, assim como aquele que é entrevistado também processa um conjunto de conhecimentos e pré-conceitos sobre o entrevistador, organizando suas respostas para aquela situação. (SZYMANSKI, 2004, p.12)
Dessa maneira, Szymanski (2004) afirma que, assim como o entrevistador quer instaurar credibilidade e deseja que o entrevistado colabore, o entrevistado intenciona ser ouvido e ter credibilidade no que diz.
Apesar desse jogo de forças, demonstrando a participação ativa de ambos, persiste a preocupação, por parte de alguns pesquisadores, sobre a desigualdade de poder na situação de entrevista, já que esta foi provocada pelo pesquisador e é dirigida por ele.
Neste respeito, Holstein e Gubrium (1995 apud SZYMANSKI, 2004) afirmam que há um caráter ativo em todos os que participam da entrevista. Szymanski (2004), por sua vez, sugere a busca de uma condição de horizontalidade de poder na relação entrevistado/entrevistador, buscando respeitar os saberes do entrevistado como saberes acerca de seu próprio mundo, do mundo do entrevistado e das relações entre eles. De acordo com esta autora, refletir sobre a desigualdade de poder na entrevista é considerar a existência de estratégias de ocultamento, por parte do entrevistado, quando omite informações que podem ser desfavoráveis para si ou para o seu grupo e inclui informações que podem ser mais favoráveis aos mesmos.
A estratégia da entrevista-reflexiva foi delineada a partir desses princípios: a entrevista considerada como um encontro interpessoal e a busca de horizontalidade nas relações de poder
provocada pelo procedimento de reflexividade. A reflexividade, segundo Szymanski (2004), é o movimento que o entrevistador faz para tentar compreender a fala do entrevistado, uma forma de aprimorar a fidedignidade da narrativa. Essa devolutiva ao entrevistado, à medida em que se realiza a entrevista, permite ao entrevistado o direito ético de discordar ou modificar a sua fala.
Visto que optou-se pela realização de entrevistas coletivas, tratou-se a narrativa como uma produção do grupo entrevistado, considerando-se assim como Szymanski (2004, p. 57) que “[...] É preciso ter claro que a participação de cada membro reflete a influência dos demais e o resultado final da entrevista refere-se a uma produção do coletivo”4.
Desse modo, considerando-se como referencial metodológico a estratégia da entrevista- reflexiva, conforme discutida por Szymanski (2004) e utilizada por Fabbro (2006), foram adotados os seguintes procedimentos para a realização das entrevistas:
1. Contato inicial com membros da “equipe de gestão” das escolas e professores, envolvidos na pesquisa, para divulgação dos objetivos e das etapas da pesquisa e as formas de participação em cada uma delas. Informações, as quais, foram retomadas no inicio da primeira entrevista com cada um dos grupos envolvidos na pesquisa, em cada escola;
2. Apresentação da questão desencadeadora. A partir do consentimento informado e da definição dos participantes da entrevista de cada um dos grupos a serem entrevistados – “equipe de gestão” e professores da escola – apresentou-se a questão desencadeadora, a saber: Solicitou-se dos
entrevistados que narrassem como percebiam a sua vivência profissional em seu ambiente de trabalho: os prazeres, sofrimentos e desafios vivenciados no cargo que ocupavam. Convém lembrar que para Szymanski (2004, p. 30), “Questões que indagam o “como” de alguma experiência induzem a uma narrativa, a uma descrição.”
Compreendida a questão desencadeadora, considerou-se, em um primeiro momento, a estratégia de realização da entrevista reflexiva de permitir que o entrevistado discorresse livremente, mesmo que se afastasse do tema proposto. A partir das narrativas, a pesquisadora fez poucas intervenções, apresentando, quando se fazia necessário, apenas algumas questões relacionadas à expressão de compreensão da narrativa como “eu estou entendendo que vocês, ou, parece que vocês estão falando sobre [...]”; expressão de sínteses para apresentar o quadro que está sendo delineado pelo entrevistador ou para trazer à tona a questão da entrevista; expressão de
4 Faz-se esclarecer, entretanto, que embora as entrevistas tenham sido coletivas não foram tratadas como produzidas
pelo sujeito coletivo, mas, como produção coletiva - com análise transversal - realizada por diferentes atores dos grupos envolvidos neste estudo.
esclarecimento para expressar o que não ficou claro; expressão focalizadora para voltar ao tema da entrevista ou; expressão de aprofundamento no intuito de aprofundar a narrativa do que foi falado superficialmente.
3. Realização da transcrição literal da entrevista;
4. Execução de uma leitura flutuante, na linguagem de Bardin (1977) uma leitura aberta a todas as idéias a fim de permitir a formulação preliminar de hipóteses provisórias; na linguagem de Minayo (1994 apud SZYMANSKI, 2004), a entrevistadora deixou-se impregnar pelo conteúdo da entrevista, tomando contato exaustivo com o material coletado.
5. Produção de uma pré-análise da narrativa, através do levantamento de categorias de análise e da indicação de suas respectivas unidades de contexto, isto é, indicação do parágrafo ou de fragmentos do parágrafo das narrativas para confirmação das unidades temáticas ou das categorias de análises, para apresentação ao entrevistado no segundo encontro. A finalidade da pré-análise foi possibilitar a validação ou refutação dos dados obtidos. Isto é, possibilitar ao entrevistado correções, confirmações e acréscimos do conhecimento/interpretação/impressões produzidos pelo entrevistador a partir de sua narrativa.
6. Exposição, no segundo encontro, da compreensão do entrevistador sobre a narrativa dos entrevistados a fim de completar a discussão inicial e equilibrar as relações de poder na pesquisa por meio da confirmação ou refutação das impressões do entrevistador.
1.8.2 O Questionário na Perspectiva dos Estudos de Clima Organizacional
Para a realização da pesquisa, na perspectiva de clima organizacional em escolas municipais de ensino fundamental da cidade de Campinas, foram definidas, com base na literatura especializada, cinco grandes dimensões de estudo que deveriam orientar a elaboração de um dos instrumentos de coleta de dados, o questionário. As dimensões definidas foram: A) Relações de Trabalho; B) Sentido do trabalho; C) Organização; D) Estilos de Gestão e; E) Condições de Trabalho. Para cada uma das dimensões definidas, foi especificado um conjunto de indicadores de análise. Os indicadores são, de acordo com Luz (2001), as variáveis ou fatores de estudo que deverão ser contemplados em um questionário de clima organizacional.
Assim, por um lado, a definição das dimensões e dos indicadores de clima organizacional, propostos para a elaboração do questionário baseou-se em proposições apresentadas na literatura
especializada (BEDANI, 2006; BORGES, PERES, 200-; CODA, 1997; FALCÃO FILHO, 1986; KOLB et al., 1986; LAROS, PUENTE-PALACIOS, 2004; LIMA, 2001; LUZ, 2001; PIÑA FIERRO, 1986; SBRAGIA, 1983; SILVA, 2001; SIQUEIRA, 2002; SPIRI, 1998; TEIXEIRA JUNIOR, 2005; VAITSMAN et al. 2003). Por outro lado, a definição dos indicadores procurou considerar aspectos relacionados às características da organização moderna do trabalho no mundo, envolvendo o caráter de flexibilização e de precarização do trabalho, aspectos os quais induzem-nos a olhar para a organização, as condições e as relações de trabalho, a fim de poder compreender o sentido do trabalho, conforme apontados por Dejours (1992; 2003) e Oliveira (2004).
Definidos os indicadores de estudo, foi elaborado um questionário de afirmativas, contendo 54 questões, estruturadas a partir da noção de freqüência. A maior parte das afirmativas foi caracterizada como de cunho positivo. As afirmativas foram agrupadas em blocos e relacionadas às dimensões e indicadores de clima definidos. A tabela 1 apresenta os indicadores em relação às dimensões de clima organizacional correspondentes.
Tabela I. Disposição dos indicadores em relação às dimensões de clima organizacional
correspondentes.
Dimensão Indicadores
Relações de Trabalho 1. Atitudes de companheirismo, amizade e cooperação; 2. Atitudes frente a conflitos; 3. Tolerância.
Sentido do Trabalho
4. Sentimento de pertencimento;
5. Reconhecimento e importância do trabalho; 6. Autonomia; 7. Sentido de realização. Organização 8. Estrutura; 9. Valorização profissional; 10. Comunicação; 11. Desempenho e qualidade.
Estilos de Gestão 12. Habilidades técnicas e políticas da gestão. Condições de Trabalho 13. Ambiente e condições de trabalho;
14. Qualidade de vida e saúde.
Foram definidos os seguintes objetivos para cada um dos indicadores: