2.1.2 Os objetos e os modos de fazer
2.1.2.1 Os instrumentos
No Reis de Boi, os instrumentos utilizados são: a sanfona, o violão e os pandeiros, podendo aparecer, em um ou outro grupo, outros instrumentos como: o afoxé, o reco-reco e o tamborim.
A sanfona e o violão são responsáveis pela harmonia das músicas, por isso, ser de boa qualidade é fundamental. Segundo o Sr. Paixão, não é qualquer sanfona que dá conta de acompanhar o Reis, tem que ser de oito baixos e ter boa sonoridade. Cada Mestre de Reis tem a sua sanfona e normalmente o Sanfoneiro mesmo tendo a dele, toca a do Mestre na apresentação. O mesmo acontece com o violão. Isso ocorre porque a sonoridade dos dois instrumentos tem que “combinar”, tem que ocorrer o casamento sonoro entre eles. Também acontece de os instrumentos serem identificadores dos grupos, não os instrumentos em si, mas a sonoridade, como uma marca identitária do grupo. Até por esse aspecto, a sanfona e o violão permanecem muitas vezes os mesmos, como herança de um Mestre para outro. Mas nem sempre isso é possível, pelo próprio desgaste do instrumento com o tempo e o uso, e assim, instrumentos novos também são encontrados em alguns grupos. No caso da sanfona é sempre de oito baixos, não podendo, por exemplo, jamais ser substituída por um acordeão. (Fotografias 26 e 27).
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Fotografia 26 - Sanfona do grupo de Mestre Paixão. Fotografia 27 - Sanfona do grupo das Barreiras. Fonte: Fabiane Salume, 2015. Fonte: Fabiane Salume, 2015.
Os pandeiros são responsáveis pelo ritmo das Marchas, que variam, algumas Marchas são lentas e outras bem rápidas. A batida dos pandeiros é basicamente dividida em três tipos: o tempo forte marcado por uma batida com o polegar, uma base que varia segundo a Marcha e a batida final com um repique. Atualmente os pandeiros utilizados são industriais, mas tradicionalmente eram feitos artesanalmente com couro animal. Uma das oficinas realizadas pela Liga Mateeense de Reis de Boi, em 2016, foi a oficina de fabricação artesanal de pandeiros de couro. Essa oficina foi ministrada por Sr. José Luiz Barros e contou com a participação de Mestres e alguns integrantes dos diversos grupos de Reis de Boi de São Mateus.
Esse era um anseio antigo dos Mestres, que diversas vezes relatavam que os pandeiros artesanais que utilizavam antigamente tinham uma sonoridade bem melhor. “Quando eu tinha meus doze, treze anos de idade a gente batia pandeiro de
couro, que é próprio pro Reis”, diz Sr. Benedito Assis (2015). A busca pela melhor
sonoridade rendeu bons diálogos. A sonoridade desejada é um dos fatores principais que determinou a realização desta oficina, pois, a busca pelo som produzido em pandeiros artesanais faz parte da memória afetiva dos mais velhos.
2.1.2.1.1 Modo de fazer o pandeiro artesanal
No primeiro encontro da oficina, Mestre José Luiz (Fotografias 28 e 29) apresentou aos alunos a madeira a ser utilizada no arco do pandeiro. A madeira escolhida foi a “carobinha” por sua flexibilidade e resistência. Foram cortadas “tiras” de madeira para serem aplainadas e lixadas. Terminando esta etapa, os arcos foram curvados manualmente e colocados num recipiente redondo onde ficaram encaixados, forçando-os desta maneira a manter a forma arredondada. Retirando os arcos do recipiente, estes conservaram a curvatura necessária para serem fechados. O fechamento foi feito através de rebites e foram marcados os espaços onde ficariam os guizos. Alguns preferiram com três, outros com quatro e houve quem fizesse com até cinco aberturas. Esta parte da oficina exigiu muita paciência e precisão para que além da sonoridade, também fosse observada a estética do instrumento. Para finalizar o pandeiro, colocou-se a pele já esticada e preparada sobre o arco e com um lápis, marcou-se o local onde seriam feitos furos (mais ou menos uns vinte, depende do diâmetro do arco) para colocar os “taruginhos” (pequenos pedaços de madeira de pinho) que iriam unir e firmar a pele ao arco. Depois de presa, foram feitos pequenos cortes na beirada da pele utilizando um estilete para dar o acabamento em forma de pequenos “dentes”.
Fotografias 28 e 29. Sr. José Luiz ensinando a fazer os pandeiros artesanais. Fonte: Ana Rita de Assis Zordan, 2016.
Como resultado, os participantes aprenderam a fazer e fizeram um pandeiro de couro cada um, do mesmo modo como eram feitos antigamente. A ideia é que esses participantes façam ou ensinem outros a fazerem, para que os pandeiros industriais sejam substituídos pelos artesanais. Entretanto percebemos que esse processo é trabalhoso e como a quantidade de pandeiros utilizados num grupo é grande, variando conforme a quantidade de Marujos, podendo chegar até mais de 30 dependendo do grupo, não sabemos se essa intenção inicial dos Mestres se concretizará efetivamente, talvez não em todos os grupos. Depois da oficina, que aconteceu em 2016, até a conclusão desse trabalho, só houve uma temporada de apresentações, em janeiro de 2017. Nessa temporada observei que os pandeiros utilizados ainda foram os industriais, mas como foram poucos meses entre o término da oficina e o início das apresentações, seria realmente muito difícil essa substituição. No próximo ano observaremos se houve ou não a concretização dessa intenção inicial. De qualquer forma, o fato de terem conseguido resgatar esse modo de fazer, deu esperança aos Mestres, pois houve a transmissão desse saber tradicional para várias pessoas que podem atuar como multiplicadoras dentro dos seus grupos e também fora, já que foi permitida a participação de outras pessoas, além dos integrantes, como pesquisadores e professores. Foi plantada uma semente de tradição que pode futuramente dar frutos e contribuir para a manutenção desse saber. Entretanto, é necessário frisar aqui, que apesar dos pandeiros não serem
mais os mesmos, isso em nada diminui a importância no ritual, marcando o ritmo das Marchas. Assim como acontece com os chapéus, com as máscaras, o processo de transformação e mudança acontece como solução de problemas (dificuldades e facilidades) que vão surgindo com os tempos atuais.