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4.1 A “invenção” de Portugal

Em Portugal, a idéia do luso-brasileirismo e seus desdobramentos culturais e políticos esteve associada ao processo de descoberta da nação e da nacionalidade portuguesas pelos intelectuais. Esse processo de “invenção de Portugal”, ocorrido entre 1880 e 1930, era uma recepção tardia de um movimento, então corrente nos países centrais da Europa Ocidental, de valorização da nação e de tradições identificadas como nacionais. A partir dele construiu-se um aparato simbólico para representar a identidade nacional: bandeiras, hinos, monumentos, comemorações e a percepção do camponês e do mundo rural como expressão da “alma” da nacionalidade. 141

No caso português, esse movimento se configurou na idéia de

“reaportuguesamento” da nacionalidade, abraçada por uma nova geração de intelectuais comprometidos, inicialmente, com o republicanismo democrático. Essa renovação intelectual engendrada pelo “reaportuguesamento” teve em Afonso Lopes Vieira o seu

principal mentor e influenciou de forma significativa a cultura política portuguesa no primeiro quarto do século XX.

O “reaportuguesamento” subtendia que o país perdera contato com as suas raízes, origens e tradições. O resgate dos valores supostamente característicos da grei142 – o povo – viria ao encontro do Portugal heróico das batalhas contra a Espanha (Aljubarrota, Elvas) e os muçulmanos (Ourique, Alcácer Quibir), das Grandes Descobertas e do império colonial. O

141 Cf. Rui Ramos. A Segunda Fundação (1890-1926). In: José Mattoso (dir.). História de Portugal, v. 6.

Lisboa: Editorial Estampa, 1993, p. 565. Eric Hobsbawm. A Produção em Massa de Tradições. Europa, 1879 a 1914. In: Eric Hobsbawm e Terence Ranger. A invenção das tradições. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1984, p. 271-316.

142 Esse vocábulo do português antigo adquire no discurso nacionalista um sentido de unidade em torno da idéia de nação.

“reaportuguesamento” envolvia um revivalismo historicista, idealista e romântico cujas referências eram o mito de Dom Sebastião e o saudosismo com forte viés nacionalista.143 Os movimentos culturais e políticos da Renascença Portuguesa (1911), Integralismo Lusitano (1915) e Seara Nova (1921) inscrevem-se no ambiente de combates ideológicos e artísticos que a proclamação da república em 1910 favoreceu. Os intelectuais associados a esses movimentos divulgaram suas idéias em revistas de cunho cultural, político e propagandístico nas quais procuravam exercitar uma ação cívica, social e cultural de intervenção no campo político. Ali buscavam expressar e catalisar apoio para as diversas concepções da portugalidade. 144

A Águia foi o instrumento de divulgação das idéias do movimento Renascença Portuguesa, nascido no Porto, logo após o advento da república. A Renascença Portuguesa foi lançada por Teixeira de Pascoaes, Jaime Cortesão, Leonardo Coimbra e contou com a adesão, num primeiro momento, de António Sérgio. Pretendia reerguer Portugal pela ressurreição da alma portuguesa perdida em razão da influência estrangeira. As páginas de Águia foram marcadas pelo saudosismo de Teixeira de Pascoes, mas não se restringiu a essa idéia. Como observa Paulo da Motta de Oliveira, a revista serviu de veículo para outras concepções do destino português desvinculadas do saudosismo como aquelas elaboradas por Joaquim Manso e Raul Proença.145

Em 1920/1921, a Renascença Portuguesa fracionou-se e vários dos seus ex- integrantes, como Jaime Cortesão e Raul Proença, iniciaram a publicação da Seara Nova, revista que deu nome ao movimento “seareiro”. Os “seareiros”, de acordo com Rui Ramos, além da divergência com a Renascença Portuguesa, reagiram, principalmente, contra a crescente influência do Integralismo Lusitano junto à mocidade e tentaram atuar e influir como movimento político de cunho democrático e nacionalista, na condução do Estado português.146

143 Rui Ramos. Op. cit., p. 565-586. O saudosismo teve como modelo a poesia de António Nobre, bastante divulgada no Brasil no início do século XX.

144 Cf. Luís Crespo de Andrade. Introdução. Quatro notas breves. A.A.V.V. Revistas, Idéias e Doutrinas.

Leituras do Pensamento Contemporâneo. Lisboa: Livros Horizonte, 2003, p. 12-13.

145 Paulo Fernando da Motta de Oliveira. “A Águia”. Portugal e seu destino durante a Primeira República.

Estudos Portugueses e Africanos (23). Campinas: Unicamp, 1994, p. 57-63.

146 Em dezembro de 1923, Álvaro de Castro, encarregado de formar um novo gabinete ministerial, entregou ao grupo da Seara Nova três ministérios: o da Guerra, Instrução e Agricultura. António Sérgio foi ministro da Instrução por dois meses. Rui Ramos. História de Portugal, v. VI, p. 480-481.

O Integralismo Lusitano, por sua vez, teve em António Sardinha o seu principal expoente e nele nos deteremos pelas influências que alcançou no pensamento dos intelectuais conservadores portugueses, como foi o caso de Malheiro Dias.

Republicano desiludido, António Sardinha converteu-se, logo nos primeiros anos do novo regime, à causa monárquica. O monarquismo de Sardinha estava vinculado, sobretudo, à oposição a cultura republicana democrática, dominante em Portugal no início do regime republicano. Liderado por Afonso Costa o republicanismo democrata de um lado, se opôs à Igreja Católica e aos grandes proprietários rurais e, de outro, favoreceu a expansão da participação política principalmente dos grupos sociais urbanos (pequena burguesia, operariado). No enfrentamento com essa cultura política, Sardinha apoiou-se numa interpretação antiliberal da história portuguesa com fundamento doutrinário no sebastianismo e na tradição religiosa católica.

O sebastianismo147 de Sardinha foi inspirado pelas concepções de Georges Sorel de que os mitos engendram a mobilização política da sociedade. Nesse sentido, em meio à crise de legitimidade e de identidade, o sebastianismo propiciaria a confiança da nação em si própria e a conduziria por meio do instinto e do “espírito heróico” para a sua auto-realização.

O pensamento de Sardinha apropriou-se também das idéias do nacionalismo integral de Charles Maurras e aplicou-as à realidade política portuguesa, então polarizada pelo anticlericalismo, adotado pelo Partido Democrático (oriundo da facção dominante do Partido Republicano Português). Sardinha criticou especialmente a ação política pombalina e o liberalismo vintista, ambos vinculados ao racionalismo filosófico, como contrários às tradições políticas portuguesas formadas na Idade Média, e defendeu uma monarquia pré-constitucional de fundamentação religiosa, autoritária e corporativista.148 O pensamento de António Sardinha, no interior da cultura política portuguesa, representou uma inovação ou

“lance” pela aplicação, temperada por elementos próprios da filosofia política portuguesa, das concepções de Sorel e Maurras como chave de interpretação e intervenção da vida política.149

147 O mito sebastianista enquadra-se naqueles laços de força emocional que o imaginário político estabelece entre o indivíduo e a coletividade pela intermediação do Salvador: “Reconhecer sua autoridade e redescobrir-se nela é, ao mesmo tempo, reencontrar a si mesmo e reencontrar os Outros ... e através dele, existem, para um certo número de homens, as mesmas emoções a partilhar, os mesmos fervores e as mesmas esperanças.”

Raoul Girardet. Mitos e mitologias políticas. [Trad. Maria Lúcia Machado]. São Paulo: Companhia das Letras, 1987, p. 95.

148 Cf. A.H. de Oliveira Marques. A Primeira República Portuguesa (Alguns aspectos estruturais). Lisboa:

Livros Horizonte, 1975, p. 76 e Rui Ramos. Op. cit., p. 540-546.

149 John G.A Pocock. O conceito de linguagem e o métier d´historien. In: John G.A Pocock. Linguagens do ideário político. São Paulo: Edusp, 2003, p. 76-78.

A Renascença Portuguesa, o Integralismo Lusitano e a Seara Nova constituíam movimentos político-culturais nascidos da necessidade dos intelectuais portugueses do início do século XX de pensar e situar a posição de Portugal no mundo. A nação encontrava-se no centro do discurso destes grupos de intelectuais cujas propostas incitavam a ação política dos seus participantes como elementos ativos da regeneração nacional. Nesse processo de afirmação nacional no qual se mesclavam o mito, a memória e a história, o Brasil permaneceu como a imagem abonadora das pretensões de revigoramento da grandeza e da capacidade da nação portuguesa.

Ana de Castro Osório (1872-1935) julgava prevalecer nas relações Brasil-Portugal, o “orgulho das Duas Pátrias”:

Esse sonho é a aliança firme e segura das duas Pátrias irmãs, é o predomínio da raça comum é a imposição da nossa língua como uma das mais faladas do mundo, é (...) a ressurreição duma nova fé e duma energia coletiva, tão grande que imponha ao mundo o respeito pelo que fomos, criando uma nova era de lusitanismo a engrandecer a história!150 Fundada no uso de uma língua comum, a formação de uma “grande aliança” luso-brasileira de cunho moral, econômico e político só era possível pela presença dos emigrantes, agentes vivos da comunhão dos “povos lusitanos”. Tratava-se, a aliança luso-brasileira, da “única que está dentro da nossa alma, que vive nos nossos corações, que se impõe pela tradição do passado e vive o maior sonho do futuro!”.151

Ana Osório apresentou-se como uma missionária da comunhão Brasil-Portugal e com este espírito proferiu várias conferências no meio das comunidades imigrantes portuguesas no Brasil. A tarefa missionária luso-brasileira assumida pela escritora harmonizava-se com a exaltação da idéia do “reaportuguesamento” da nacionalidade. Como autora de livros infantis foi para esse público que Ana Osório dedicou um livro da coleção das Viagens venturosas de Felício e Felizarda cujo cenário

era o Brasil e o leitmotiv, a intervenção do português em sua construção. O Brasil era o outro, diferente de Portugal e este fato podia ser notado pela exuberância da natureza, elemento onipresente nas descrições e sensações dos viajantes estrangeiros. Tratava-se, porém, de uma paisagem que ao português não causaria estranhamento: “Não devíamos nós, portugueses, estranhar já a diferença, porque de há séculos que a Pátria nos serve apenas de lugar de repouso (...)”152 A visita ao Rio de Janeiro era motivo para que os dois personagens, Felício e

150 Ana de Castro Osório. A Grande Aliança (A minha propaganda no Brasil). Lisboa: Edições Lusitânia, 1924, p. 13-14.

151 Cf. Ana de Castro Osório. Op. cit., p. 37.

152 Ana de Castro Osório. Viagens venturosas de Felício e Felizarda ao Brasil. Lisboa: Lusitânia Editora, 1923, p. 44.

Felizarda, discutissem a figura de D. João VI e o impacto da presença real. Enquanto Felizarda reprovava a triste figura que o rei fizera em Portugal, “o mais desgraçado exemplo de covardia governativa”, Felício observava que embora não tivesse uma natureza heróica, o ato do rei propiciara a independência do Brasil.

Se na ocasião em que fugiu não tivesse vindo com a corte, tudo quanto havia lá de mais rico e nobre, não se tornaria o Brasil tão depressa, um país independente e florescente como se tornou.153

A atração pelo Brasil envolvia emigrados por motivações econômicas ou políticas e portugueses que singravam o oceano Atlântico na condição de viajantes sem o objetivo, portanto, de estabelecer residência de longo prazo. Ambos os grupos estavam vinculados ao Brasil por uma mescla de laços afetivos, culturais e econômicos. Em ambos encontravam-se intelectuais portugueses cujas relações de sociabilidade e padrão cultural estavam distanciadas da grande massa de imigrantes portugueses provenientes das áreas rurais.

A afetividade constitui um elemento freqüente nos discursos sobre as relações luso-brasileiras enunciados por escritores, diplomatas ou pelas lideranças da comunidade portuguesa no Brasil. Destarte, o atavismo pelo Brasil era declarado por inúmeros intelectuais lusitanos como Alberto d’Oliveira: “O Brasil foi sempre para mim, jádesde a infância, uma das irresistíveis atrações e seduções do meu espírito”.154 Sentimento compartilhado por João de Barros e Nuno Simões, ambos campeões da causa do luso-brasileirismo, e ligados ao Brasil pela memória e pela experiência dos pais. O pai de João de Barros, o visconde da Marinha Grande, foi vice-cônsul no Brasil. Domingos da Costa Simões, pai de Nuno Simões, emigrou para o Rio de Janeiro onde obteve alguma fortuna no comércio. No Rio de Janeiro, travou relações com o abastado barão de Joane, comerciante e pai de Bernardino Machado.

Como “brasileiro” enriquecido, Domingos Simões adquiriu importância econômica e social na “terra”, o concelho de Vila Nova de Famalicão.155 Ana de Castro Osório, por sua vez, proclamava a comunhão intelectual “que faz da literatura brasileira e portuguesa uma só literatura, dos nossos sábios o orgulho das Duas Pátrias, dos nossos heróis a veneração de todos!”156 Enquanto o embaixador Martinho Nobre de Mello, na presença de Getúlio Vargas, proclamou o Brasil a segunda pátria dos lusitanos.157

153 Ana de Castro Osório. Op. cit., p. 48.

154 Alberto d’Oliveira. Na Academia Brasileira. In: Na Outra Banda de Portugal, p. 44.

155 Cf. Arminda Ferreira. O luso-brasileirismo na perspectiva de Nuno Simões: esboço de um estudo biográfico.

In: Artur Sá da Costa (coord.). Gentes da terra. Vila Nova de Famalicão: Quasi Edições, 2006, p. 80-81.

Sobre João de Barros ver neste capítulo as páginas 55-57.

156 Ana de Castro Osório. A Grande Aliança, p. 13.

157 Martinho Nobre de Mello. Política do Espírito. In: Rumo do Brasil, p. 95.

Álvaro Pinto lembrava aos filhos, nascidos no Rio de Janeiro, do pertencimento deles a duas pátrias e, por conta disso, “deveis estudar com o mesmo interesse e carinho, e cuja grandeza deveis querer acima de tudo”. Essa característica luso-brasileira dava-lhes a missão de esclarecer os problemas comuns aos dois países e criar as condições propícias para o intercâmbio.158

A comunhão intelectual, a comunidade de afeto, o culto das duas pátrias perpassam as trajetórias de inúmeros emigrados portugueses no Brasil. Estas idéias e sentimentos adquiridos na vivência e experiência individual assumem um significado coletivo interpretado pelos intelectuais brasilófilos, alguns deles também emigrados, ou viajantes, como o jornalista Pedro Muralha e o arquiteto Raul Lino. Muralha confessava ter ido

“descobrir o Brasil”, conhecido apenas como a antiga colônia, ou, após a emancipação, como

“um comprador dos nossos vinhos, das nossas conservas, das nossas batatas e das nossas cebolas.”159 Para Lino ir ao Brasil era desvelar uma visão onírica da natureza marcada por uma profusão de cores e percepções visuais.

Eu imaginava o Brasil como grande palácio de cristal, de dimensões inverossímeis, povoado da mais rica e variada flora, luxuriante vegetação estranha ao resto do mundo na sua opulência privilegiada. Mil espécies floridas estendem-se a perder de vista sob a abóbada de rendilhadas folhas; onde a luz do Sol, rompendo em grandes losangos de ouro através do saturado verde, teria originado a linda bandeira da nação brasileira –

“Auriverde pendão de minha terra ...” no poético dizer de Castro Alves.160

A seguir são examinadas as trajetórias de três intelectuais portugueses brasilófilos, que se empenharam na primeira metade do século XX, na aproximação luso-brasileira.

4.2. A trajetória de três intelectuais portugueses no Brasil

As estratégias e práticas culturais de João de Barros, Álvaro Pinto e José Osório de Oliveira refletiram diferenças geracionais de ordem cultural, principalmente literária, do que antagonismos ou posições intransponíveis quanto à necessidade de valorização de uma comunidade cultural e afetiva, formada por brasileiros e portugueses.

João de Barros (1881-1960) era filho de Afonso Ernesto de Barros (visconde da Marinha Grande), líder do Partido Regenerador em Figueira da Foz e durante muito tempo

158 Álvaro Pinto. A meus filhos. (Dedicatória) In: São Paulo: Cidade vertiginosa. Lisboa: Edição do Autor, 1937.

159 Pedro Muralha. Op. cit., p. 182.

160 Raul Lino. Auriverde jornada. Recordações de uma viagem ao Brasil. Lisboa: Edição de Valentim de Carvalho, 1937, p. 21.

vice-cônsul no Brasil.161 Poeta, professor, jornalista e político, ele militou pela república e pela democracia. Durante a Primeira República, Barros exerceu o cargo de Secretário-Geral do Ministério da Instrução e de Ministro dos Negócios Estrangeiros. Foi sócio da Academia de Ciências (1913) e sócio-correspondente da Academia Brasileira de Letras (1920).162 A trajetória intelectual e política de João de Barros encontrou-se identificada à campanha para a concretização da aproximação luso-brasileira, manifestada na fundação e direção da revista Atlântida, e numa vasta obra sobre as relações Brasil-Portugal, escrita ao longo de meio século. A última foi a coletânea de artigos publicados nos jornais portugueses sobre as relações Brasil-Portugal reunidas em Adeus ao Brasil (1960).

João de Barros não foi emigrante no sentido estrito do termo. Desde a primeira viagem ao Brasil (1912) até meados da década de 50, porém, Barros atravessou o Atlântico em missões oficiais ou por iniciativa particular como agente da aproximação Brasil-Portugal.

Em certa época, adquiriu no Brasil a fama de maior expoente da poesia portuguesa, no primeiro terço do século XX, para irritação de outros brasilófilos como Álvaro Pinto e José Osório de Oliveira, que citavam o fato como exemplo do desconhecimento do mundo intelectual brasileiro da literatura portuguesa contemporânea.

Assim, Álvaro Pinto, depois de adjetivar João de Barros de excelente rapaz, poeta brilhante e “vistosa borboleta das letras portuguesas”, punha em dúvida as intenções da aproximação, promovida conjuntamente com João do Rio, e em seguida, passava a acusá-lo de querer destruir A Águia e a Renascença Portuguesa.

Você sonhou destruir a Águia com a Atlântida. Falhou. Você sonhou destruir as edições da ‘Renascença’ com as suas. Falhou. Você sonhou reduzir Portugal-Brasil a duas simples pessoas. Falhou. Eu não posso ser seu inimigo, porque absolutamente nada, até hoje, Você tem colhido no meu campo ou eu tentado colher no seu. Cortei em determinado tempo relações consigo, porque o vi demasiado senhor do seu lugar burocrático, tratando-me do alto.163

Desse modo, as inimizades e oposições de círculos literários distintos em Portugal refletiam-se no intercâmbio cultural luso-brasileiro. No caso em tela, os excluídos do grupo da Atlântida acusavam João de Barros de gerar uma imagem distorcida do mundo intelectual

161 Cf. Ângela Bonifácio Vitor. Sentido do Atlântico em João de Barros. Convergência Lusíada (18) Rio de Janeiro: Real Gabinete Português de Leitura, 2001, p. 44.

162 Victor Brinches. Dicionário Biobliográfico Luso-brasileiro. São Paulo: Fundo de Cultura, 1965, v. I, p. 165-166.

163 Portugal-Brasil. Álvaro Pinto. A Águia, Jun. 1921, p. 114-115.

português e de alargar o distanciamento em vez de facilitar a aproximação com o Brasil.164 Tal fato foi salientado por José Osório de Oliveira, ao notar o desconhecimento dos intelectuais brasileiros da literatura portuguesa.

Com efeito, de uma maneira geral, o vosso conhecimento da literatura portuguesa é mais do que incompleto: insuficientíssimo. Depois do Eça e de Antonio Nobre, saltando por cima de um prosador com a genialidade de Raul Brandão e de um poeta tão extraordinário como Camilo Pessanha, apenas haveis descoberto Fernando Pessoa e, ao que parece, outro poeta contemporâneo.165

João de Barros representava segmentos da vida cultural portuguesa tradicionalmente vinculados ao Brasil como a Academia das Ciências e a Sociedade de Geografia de Lisboa.

Eram instituições identificadas com a monarquia e o anacronismo intelectual e, portanto, delas se afastavam, por motivos estéticos, literários ou políticos, os intelectuais em ascensão com a Primeira República portuguesa. João de Barros, de outro lado, estava próximo, apesar das diferenças políticas, daqueles intelectuais portugueses que assumiram uma posição de relevo nas relações culturais luso-brasileiras nas décadas de 1910 e 1920, como Alberto d’Oliveira, Julio Dantas, Malheiro Dias, Nuno Simões e Bettencourt-Rodrigues.

A obra poética de João de Barros distanciava-se das inovações e preocupações literárias manifestadas por Almada-Negreiros, Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro. A crítica de Almada-Negreiros a geração intelectual precedente ao modernismo, a qual pertencia os intelectuais portugueses mais destacados na “campanha luso-brasileira”, e ao predomínio do academicismo na cultura portuguesa, veiculada no “Manifesto Anti-Dantas”, explicitava de forma agressiva esse distanciamento.

Uma geração, que consente deixar-se representar por um Dantas, é uma geração, que nunca o foi. É um coio d’indigentes, d’indignos e de cegos! É uma resma de charlatães e de vendidos, e só pode parir abaixo de zero! (...)

O Dantas saberá gramática, saberá sintaxe, saberá medicina, saberá fazer ceias pra cardeais, saberá tudo menos escrever que é a única coisa que ele faz. (...)

o Dantas é o escárnio da consciência!

Se o Dantas é português eu quero ser espanhol!

O Dantas é a vergonha da intelectualidade portuguesa! o Dantas é a meta da decadência mental! 166

O manifesto evidenciou o descompasso crescente da representação que os círculos literários portugueses tinham de si, da cultura de seu país e de sua irradiação no mundo no

164 Posteriormente, Álvaro Pinto retratou-se publicamente e estabeleceu relações de amizade com João de Barros.

Cf. João de Barros. Memória a Álvaro Pinto. Ocidente: Revista Portuguesa de Cultura (226), v. LII, Fev.

1957, p. 93-94.

165 José Osório de Oliveira. Carta aos escritores do Brasil. In: Na minha qualidade de luso-brasileiro ...

(Elementos para a historia das relações literárias entre o Brasil e Portugal). Lisboa: 1948, p.15.

166 Almada-Negreiros. Obras Completas, v. 6 - Textos de Intervenção. Lisboa. Editora Estampa, 1972 Apud Gilberto Mendonça Teles. Vanguarda européia e modernismo brasileiro. Apresentação e crítica dos principais manifestos vanguardistas. 10ª ed. Rio de Janeiro: Record, 1987, p. 242.

momento de lançamento da política de aproximação cultural luso-brasileira, cuja iniciativa e condução couberam ao grupo de intelectuais identificado com o passadismo e a tradição. As tensões, daí decorrentes, manifestaram-se inúmeras vezes nos escritos de intelectuais portugueses sobre o Brasil e nas relações mantidas com os intelectuais brasileiros como Álvaro Pinto e José Osório de Oliveira.

Álvaro Pinto (1887-1956) foi secretário de redação e administrador de A Águia (1912-1921) e diretor das revistas Ocidente e Revista de Portugal (1938-1956). Estabeleceu-se no Rio de Janeiro, em 1920, com uma tipografia (Annuario do Brasil) em sociedade com António Sérgio e publicou A Águia no Brasil (1920-1921).167 Após o afastamento da Renascença Portuguesa e o retorno de Sérgio a Portugal, Álvaro Pinto lançou as revistas Terra de Sol (1924-1925) e Crítica (1928), juntamente com o poeta Tasso da Silveira.

A vinda de Álvaro Pinto para o Brasil e as “aventuras editoriais”, aqui vividas por ele, espelham as possibilidades, desafios e limites que um grupo restrito de emigrantes – os intelectuais – vislumbrava na outra “banda” do Atlântico. A decisão de migrar para o Brasil mesclava fatores particulares (era recém-casado) e a situação interna vivida por Portugal, no início dos anos 1920168, limitava as oportunidades disponíveis para um intelectual burguês e empregado do serviço público (era inspetor de alfândega). Os temores e as hesitações só foram superados com os conselhos e o encorajamento recebidos de Carlos Malheiro Dias, então editor da Revista da Semana.169

No Brasil, além de editor das revistas mencionadas, Álvaro Pinto dedicou-se ao jornalismo, sendo redator da página portuguesa do Diário de Notícias do Rio de Janeiro, e, mais tarde, correspondente desse jornal, em Portugal, e a edição de livros de autores portugueses e brasileiros. A editora Annuario do Brasil publicou as primeiras obras de Alceu Amoroso Lima, Barbosa Lima Sobrinho, Cecília Meirelles, Rodrigo Otávio Filho e Guilherme de Almeida. Editou a maior parte das obras de Jackson de Figueiredo, Elísio de

167 Álvaro Pinto chegou ao Rio de Janeiro em março de 1920. Logo depois chegaram sete operários e a tipografia com modernas máquinas alemãs que instalara no Porto em 1914 com cinco amigos. Álvaro Pinto.

Páginas de Memórias. Quadros das minhas aventuras editoriais no Brasil. Ocidente: Revista Portuguesa de Cultura (67), v. XXI, Out. 1943, p. 363.

168 “Como Portugal estava nessa época em regime de desordem permanente, nada aqui se podia realizar com sossego e ânimo confiado”. Álvaro Pinto. Op. cit., p. 363. Esta observação é feita duas décadas depois da emigração para o Brasil e expressa uma comparação com o quadro de ordem e hierarquia imposto pelo Estado Novo ao qual Álvaro Pinto mostrava senão simpatia pelo menos benevolência.

169 Cf. Álvaro Pinto. Carlos Malheiro Dias. Apontamentos para a história de seus últimos anos de vida dramática. Ocidente: Revista Portuguesa de Cultura (43), v. XV, Nov. 1941, p. 146. Leitor e admirador de Carlos Malheiro Dias, Álvaro Pinto só o conheceu pessoalmente em 1919 e tornou-se seu amigo durante os anos de vivência no Rio de Janeiro.