• Nenhum resultado encontrado

Os intrusos nas florestas da colônia Erechim

No documento 2008JaneGoretti (páginas 46-50)

Segundo relatório da Diretoria de Terras e Colonização sobre o serviço de fiscalização das florestas do Estado nos municípios, incluindo o de Passo Fundo, no período de julho de 1914 iniciaram-se os trabalhos de exploração das florestas pelo Estado, atendendo, primeiramente, o município de Passo Fundo, onde havia mais urgência de fiscalização. Neste relatório é mencionado que o início da fiscalização foi muito penoso, porque a população não estava habituada a se ver contrariada e, também, pela visão que possuía de que o que pertence ao Estado é de todos. Encontravam-se nelas os que entravam como intrusos, os clandestinos, que aos poucos iam explorando a madeira, vendendo-a por preços insignificantes, e os que exploravam a erva-mate encontrada em meio a floresta; havia, ainda, matas devastadas para servir a negócios ilegais.

O inspetor florestal embargou e marcou todas as madeiras encontradas que não possuíam justificativa convincente, como 56 cedros nas matas de Paiol Grande, junto à estação Capoerê; 127 tirantes de pinho, empregadas na construção do galpão para a serraria na floresta de Sertão; 101 tábuas de cedro e 58 torradas falquejadas e brutas e também cerca de 1800 dormentes28 de 1m; 80 embargados a João Dorl, que, segundo o diretor da colônia Erechim, desde muito cedo cortava e vendia a madeira de Capoerê29. O mesmo inspetor embargou pequenas quantidades de ervais explorados indevidamente; após os coletores prometerem não fazer cortes indevidos tiveram licença para carregar a erva-mate. Então, recebeu autorização para cortar e fiscalizar os ervais em Passo Fundo a empresa Márquez & Veja, a qual deveria pagar 200 réis por arroba de erva.

Os intrusos estabelecidos em terras do Estado eram indivíduos nacionais provenientes, em sua maioria, das Colônias Velhas; agricultores de origem estrangeira que estavam à

27GREGORY, Capitalismo, latifúndio, migração..., 1988.

28 Dormente era a viga colocada em posição oblíqua sobre a qual se assentavam os trilhos de uma ferrovia. 29 Rio Grande do Sul. Relatório enviado a Presidência do Estado pelo Secretário do Governo dos negócios das

Obras Públicas (partes). De 1914, 1915 e 1916. Biblioteca Pública do Estado do Rio Grande do Sul. Porto Alegre.

Em relatório da Diretoria de Terras enviado ao governo do estado em 1914 registrou-se a respeito:

Se, em vez da instalação que realizamos nestes últimos 6 anos dos 41.938 imigrantes introduzidos pelo Povoamento do Solo, tivéssemos consagrado os nossos esforços em normalizar a situação dos intrusos existentes em terras do Estado, conforme não temos cessados de lembrar, enormes benefícios teríamos já colhido, que podem ser assim resumidos: 1.º) grande reducção nas despezas publicas; 2.º) augmento considerável na receita proveniente da venda de terras; 3.º) reducção da devastação das florestas; 4.º) a vantagem inapreciavel do desenvolvimento da ordem na propriedade territorial, com todos os beneficios decorrentes31.

Para estabelecer em torno de dez mil famílias de intrusos em cinco anos seria necessário uma demarcação anual de dois mil lotes rústicos.32Portanto, eram dois gastos: um para acomodar os que nela estavam e outro com os que chegavam.

No estado do Rio Grande do Sul eram freqüentes os pedidos de grandes áreas para fins de colonização. Para o Estado, do ponto de vista do aspecto financeiro, era lucrativo tanto vender para empresas colonizadoras como vender diretamente pequenos lotes aos colonos. Porém, no aspecto social, a venda direta ao pequeno agricultor, a preço reduzido, representava proteção a este, que, além do valor da terra, recebia outros benefícios indiretos pela sua instalação na terra. Ao contrário, o colonizador particular precisava assegurar o juro do capital que empregara com isso, revendendo as terras por um custo maior aos colonos.

A colonização da Colônia Erechim demandava um serviço complexo, pois a construção das vias e das estradas vicinais implicava a exploração e conservação das florestas. Nesse sentido, no município de Passo Fundo o pessoal responsável pela conservação das

30 Rio Grande do Sul. Relatório enviado a Presidência do Estado pelo Secretário do Governo dos negócios das

Obras Públicas (partes). De 1914, 1915 e 1916. Biblioteca Pública do Estado do Rio Grande do Sul. Porto Alegre.

31 Ibidem, p. 111. 32 Ibidem.

florestas compunha-se apenas de um inspetor, quatro guardas de primeira classe e três da segunda33.

Para conhecer a área pertencente ao Estado com o fim de melhor utilizá-la e também de normalizar a situação dos intrusos que se achavam em grande número no território pertencente ao município de Passo Fundo, criou-se a Comissão de Terras na colônia Erechim em 1908, pois existia apenas a comissão em Passo Fundo, a qual estava anexada à de Lagoa Vermelha. Primeiramente, foi nomeado para chefiar os trabalhos de discriminação na Comissão de Terras de Erechim o agrimensor Severiano de Souza e Almeida, que atenderia também a várias outras atividades que exigiam constante assistência. Porém, logo ele foi dispensado dos serviços de organização florestal e, em seu lugar, foi nomeado chefe interinamente o engenheiro Lindolpho A. Rodrigues da Silva; que o substituiu no trabalho de organização do serviço florestal e na discriminação das terras do município de Passo Fundo.

A partir de 30 de abril de 1913 passaram a ser atendidas as necessidades dos serviços de terras das colônias, conforme os administradores relatavam em correspondências anuais enviadas ao governo do estado. A Diretoria de Terras e Colonização, antes constituída de uma só secção, nesse período passou a ter três - uma para atender o serviço de terras, uma para colonização e outra para os serviços florestais e agropecuários34 –, conforme o decreto nº 1962, de 30 de abril de 1913. Em despacho de 20 de julho de 1912, o Estado cedeu uma área à União, com 749.840 m², para a construção de duas fontes públicas em Marcelino Ramos, a fim de abastecer as locomotivas da viação férrea. Nesse período também foram resolvidas pelo Estado as indenizações das terras públicas não discriminadas, em torno de 145 atos de posses35.

A Comissão de Terras passou a atuar mais de perto na discriminação dos espaços, no assentamento dos colonos e na proteção às florestas, esta última realizada seguindo critérios que não excluíam o povoamento, mas incluíam a sua conservação e defesa, como os cumes elevados, alguma originalidade por motivo estético e econômico, e, até mesmo, a mata como forma de valorizar o terreno. Assim é que no período em que se iniciou a criação de estradas de rodagem, os responsáveis pelos serviços de colonização perceberam a necessidade de engenheiros de estradas de rodagem para orientar a derrubada das matas.

33 Rio Grande do Sul. Relatório enviado a Presidência do Estado pelo Secretário do Governo dos negócios das

Obras Públicas (partes). De 1914, 1915 e 1916. Biblioteca Pública do Estado do Rio Grande do Sul. Porto Alegre.

34 Dados encontrados num relatório do secretário de Estado dos Negócios das Obras Públicas na data de 17 de

julho de 1913. Biblioteca Pública do Estado do Rio Grande do Sul. Porto Alegre.

ribeirinha expoliou a madeira, transportando-a pelo rio Uruguai, principalmente os cedros37. A causa principal da devastação das matas eram a derrubada excessiva e cortes clandestinos nas margens do rio Uruguai e seus afluentes, realizadas pelos intrusos. Além disso, delas se faziam roças ou campos nos períodos de seca e, ainda, caçadores provocavam incêndios nas matas. Passou, então, a haver uma preocupação por parte do governo de melhor organizar a região do Alto Uruguai. Desse modo, instruções do serviço florestal eram necessárias para discriminar as florestas que seriam utilizadas para a colonização e as destinadas à exploração da madeira, mediante contratos que regulavam tais condições38.

As florestas por longo tempo não tiveram muita importância para o Estado, o que só ocorreria com o crescimento da população colonial. Conforme a intrusão foi se constituindo e necessitando de aproveitamento das reservas florestais com o fim de defesa dos mananciais e cursos de água para garantir o potencial hidráulico. Em especial, por se achar a região Norte bastante devastada, era preciso encontrar uma forma de racionalizar a exploração, conservando as matas, mas, ao mesmo tempo, retirando a madeira necessária para o consumo e para exportar, especialmente para a Argentina. Os intrusos são fruto de exclusão das antigas colônias, que se tornaram um viveiro de agricultores, e também foragidos dos movimentos revolucionários no estado. Severas penalidades aos intrusos foram estabelecidas quando da instalação das comissões pelo Regulamento de Terras e Colonização de 4 de julho de 1900, cujo conteúdo previa àqueles que tivessem ocupado terras anteriormente à criação do edital que poderiam permanecer na terra e aguardar a demarcação dos lotes, ao passo que para os ocupantes estabelecidos após o edital previa-se despejo com perda completa das benfeitorias.

Com a criação do Regulamento de Terras, os intrusos eram intimados a se retirar e eram-lhes oferecidos lotes demarcados, com prazos para a retirada. Os nacionais não foram tratados com a mesma política de distribuição de terras que os colonos, pois, de acordo com os relatórios da Diretoria de Terras e Colonização, a estes foram garantidas por parte do

36 GREGORY, Capitalismo, latifúndio, migração..., 1988, p. 82. 37 Ibidem.

Estado terras e condições para as pagarem com prestação de serviços na construção de estradas e caminhos.

A intrusão foi um grave problema social e também se fazia presente nas terras particulares, de modo que, mesmo com leis e editais, não foi possível acabar efetivamente com os casos de intrusão. Novas medidas, então, foram adotadas pela Diretoria de Terras e Colonização em 30 de maio de 1919, quando foi afixado um edital complementar que determinou o despejo dos intrusos recentes em terras do Estado; quanto ao domínio privado, o Estado só ampararia os ocupantes estabelecidos anteriormente ao edital; também os intrusos recentes em terras de domínio privado estariam sujeitos a ser despejados.

A intrusão dava-se em razão do crescimento vegetativo da população colonial, aliado ao novo processo de organização das colônias, que visava a um sistema de produção voltado ao mercado local e global. Nesse contexto, tentava-se normalizar a situação de intrusão para que sobrassem terras, as quais se tornavam devolutas, a fim de se poder introduzir nelas os imigrantes. Os intrusos e posseiros, em razão dos conflitos com estancieiros e coronéis, forçaram a expansão da pequena propriedade; eles investiram contra o sistema de direito e de força exercido pela classe latifundiária, procurando impor-se pela violência e criar um novo processo histórico para gestar a propriedade camponesa.

No documento 2008JaneGoretti (páginas 46-50)