• Nenhum resultado encontrado

CAPÍTULO 4 – ANÁLISES DE FILMES DE HORROR

4.1. Filmes baseados no livro The Body Snatchers

4.1.3. Os Invasores de Corpos – A Invasão Continua (1993)

Nessa terceira versão, dirigida por Abel Ferrara, a adolescente Marti vai morar com sua família por alguns meses em uma base militar por causa do trabalho de seu pai. Seu meio-irmão mais novo começa a notar que há alguma coisa estranha acontecendo, mas os outros membros da família não lhe dão atenção até ser tarde demais.

Inicia com uma música bem pesada, já no título do filme, mas que se mescla com outros efeitos sonoros, que são bem difíceis de identificar. O que pode mostrar que o filme terá uma mistura desses dois elementos.

Passados os créditos, a primeira cena já começa com um voice-over de narração da personagem principal, explicando a situação, contada em forma de flashback. Bem parecido com a versão de 1956. É uma exteriorização dos pensamentos da personagem. Esse artifício acontece durante todo o filme, reafirmando para o fato de que algo muito horrível está para acontecer.

Ocorre muito a utilização de música como criação de tensão. Logo no início, quando a família interrompe a viagem e param em um posto para descansar um pouco, ainda não há nenhum som que indique a situação que está por vir. Mas assim que Marti vai usar o banheiro, uma música forte toca, quando ela leva um susto com o homem que coloca a mão em sua boca para silenciá-la, e fala sobre as pessoas

transformadas estarem em todo lugar. Essa música forte e marcante também é muito semelhante com as usadas na primeira versão.

O som, no desenrolar do filme, começa lentamente a apresentar outras características que não a música. Quando Marti e Jenn vão até a casa de Jenn e encontram sua mãe, que está dormindo em um sofá, há uma música baixa e tensa porque ela pode muito em breve estar sofrendo a transformação, já que sua janela está aberta e qualquer um poderia colocar uma semente em seu quarto. Quando as duas saem do cômodo, deixando a mãe sozinha, começamos a escutar vento, alguns barulhos orgânicos e outros indefiníveis, ainda junto com música.

A maior mudança parece ocorrer na cena quando alguns dos personagens estão no bar, e o homem que abordou Marti aparece; começa uma música tensa, bem audível, provavelmente para mostrar que era a mesma pessoa, ou a ameaça que ele pode representar. A música se arrasta, um pouco mais suave, para a próxima cena, quando Marti e Tim estão caminhando, antes de parar totalmente. Eles se beijam, mas a música que toca continua com um aspecto de tensão; e segue enquanto a câmera aponta para um local com água, onde vemos várias pessoas retirando as sementes alienígenas, que fazem alguns barulhos estranhos de guincho enquanto são deslocadas, como se estivessem vivas. Somente quando várias dessas plantas estão sendo removidas da água pelos transformados, é que o som começa a apresentar verdadeiramente uma grande quantidade de características diferentes. Vários efeitos sonoros são usados para representar os sons não naturais desses organismos alienígenas. Essas grandes mudanças vão culminar na cena de transformação de Marti, que é feita somente com efeitos sonoros. Enquanto Marti está dormindo na banheira, sua cópia, escondida no telhado, começa a ser criada; há um som que fica ensurdecedor e uma tensão que são criados somente com esses efeitos, tudo se mistura. Nós escutamos vários dos sons enquanto ela está sendo assimilada: alguns barulhos de coisas orgânicas se quebrando enquanto partes da coisa se movem em direção a ela, barulho de água, batidas graves de coração, algo que parece ser um bebê chorando, e mais uma infinidade de sons indefiníveis.

Figura 23: Marti sendo transformada

Um aspecto que parece ser bem importante na construção do clima geral da obra é um som metálico que está presente em várias cenas no decorrer do filme, inclusive sendo utilizado junto com músicas. Na cena da escola de Andy, o filho mais novo, a professora está pedindo para que seus alunos façam uma ilustração e, quando terminam, as crianças mostram seus desenhos; vemos que todos apresentam exatamente a mesma imagem. Há uma música com uma melodia que lembra o som de uma caixinha de música, com elementos infantis, misturada com alguns barulhos indefiníveis, que parecem algo metálico raspando, bem irritante e meio perturbador. Assistindo ao filme um pouco mais adiante, é possível perceber, em outra cena, qual parece ser a origem desse som. Depois que a mãe de Andy já foi transformada, há uma situação em que ela joga seu antigo corpo no caminhão de lixo, e a cena se passa em câmera lenta; pode-se notar que o som que ouvimos na escola de Andy é o mesmo som que o caminhão faz quando freia. Isso é interessante já que esse som comum que escutamos diversas vezes durante o filme também foi utilizado de uma maneira inesperada.

Vale notar, sobre a passagem da música para uma maior utilização de efeitos sonoros, que no final do filme, onde há um desespero para se tentar fugir daquela situação, há bem mais cenas que antes poderiam se utilizar de música, mas que agora estão sendo sustentadas somente com a sobreposição de sons na cena: helicópteros, os barulhos das criaturas quando gritam para apontar um humano, os soldados correndo, sirenes, entre muitos outros.

Podemos observar que esta versão parece que perdeu um pouco da experimentação, se comparada com a de 1978, que apresentava pontos sonoros distintos em cada cena de tensão. Notamos como esse aumento da tecnologia não necessariamente significa um aumento no nível conceitual de uma obra cinematográfica. No fim, quem toma a decisão de utilizar ou não as novas tecnologias em benefício do filme é o responsável pela obra.