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CAPÍTULO II: O ESTADO DA ARTE

2.9. Os Jardins Históricos das Quintas da Região Demarcada do Douro

2.9.2. Os Jardins Ornamentais das Quintas do Douro

No Alto Douro Vinhateiro, paisagem cultural da UNESCO (FIGUEIREDO, 2006; MARQUES et al., 2010) integrando o rio Douro e seus afluentes como a espinha dorsal, a sua unidade base é a quinta e grandes propriedades e Vinhedos (Vitis vinífera L.), por vezes com bordadura de Oliveiras (Olea europaea L.) e marcada pelo Cipreste-italiano (Cupressus sempervirens L.), integra um jardim ornamental e bosques. Algumas quintas apresentam, ligados à casa principal, os jardins ornamentais, seguindo-se os pomares, os laranjais (Citrus x sinensis (L.) Osbeck) e as hortas. Os caminhos, regularmente, encontram-se ladeados por árvores de grande porte como são exemplo a presença recorrente quer de Plátanos (Platanus sp.) quer do Cipreste-de-Itália (Cupressus sempervirens). São as denominadas Quintas de Recreio, com suas atividades recreativas e jardins ornamentais.

Evidenciam-se, entre demais, duas tipologias fundamentais nos jardins ornamentais das quintas durienses, o jardim formal, oriundo dos princípios clássicos; e o jardim naturalista heteróclito perfilhando os ideias pitorescos: “muitos dos jardins formais encontrados nas quintas do Douro, provavelmente, foram transformados ou construídos no início do século XX, quando um novo interesse pela formalidade emergiu. Os terraços imobiliários já existentes permitiram facilmente a criação de jardins que adicionou um novo valor recreativo para as antigas propriedades exclusivamente produtivas.” (MARQUES et al, 2010).

Os jardins ornamentais formais “são definidos nos terraços sustentados por muros de pedra, e organizado em canteiros de flores geométricos com alto valor escultural… normalmente definidos por dois eixos perpendiculares, gerando quatro camas… as camas são muitas vezes simetricamente organizadas em torno de um elemento central.” (MARQUES et al, 2010). Estes jardins são de lazer e estão junto às casas, com fontes como componente central do jardim, por vezes artísticas, que têm a dupla função, a estética e a de irrigação funcional, para criarem também um ambiente aprazível, e o aproveitamento da paisagem duriense, seja sobre o rio seja sobre os vinhedos, um mergulhar do olhar de quem vê por esses olhos. Estes jardins alongam-se por terraços com muros em pedra, canteiros geométricos de flores, com valor escultural e o Buxo (Buxus sempervirens ´nana´) como contornos dos canteiros, corroborando a sua

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geometria. Igualmente presentes na tipologia destes jardins encontram-se outros elementos funcionais de ampla relevância como os reservatórios de água, as paredes de pedra, escadas, bancos e os canais de água; evidenciando desta forma uma numerosa multiplicidade de cantaria e alvenaria nas quintas. Semelhantemente podem ser encontrados ainda recursos e ornamentos esculpidos em pedra como esculturas, namoradeiras, alegretes, pérgulas, relógios de sol, murais por vezes ornamentados por belíssimos quadros de azulejos e ostentando estátuas com figuras mitológicas, ou ainda mais recentemente piscinas.

Relativamente à vegetação arbustiva ornamental mais pronunciada destes jardins formais acham-se os Buxos (Buxus sempervirens ´nana´), as Roseiras (Rosa spp.) e as Camélias (Camellia japonica L.). O Buxo é por norma trabalhado em diversas formas, como na Quinta de Sidro, em São João da Pesqueira, na Quinta das Nogueiras, Peso da Régua, sempre com um chafariz ou grande tanque, e diversas flores. Destaque para as Roseiras (Rosa spp.) e as notáveis Camélias da Casa dos Viscondes da Várzea, Lamego, reforçadas pelas camas de buxo, cheios de roseiras e plantas anuais e a Quinta do Bom Retiro, Tabuaço onde uma piscina é o elemento central do jardim. Quanto à vegetação arbórea, para além das árvores mencionada inicialmente, são frequentes a Olaia (Cercis siliquastrum L.), o Bordo (Acer sp.) ou ainda o Carvalho-americano (Quercus coccinea Münchh.). As plantas anuais integram parte de uma composição florística dos jardins ornamentais formais do Douro, auxiliando na dinâmica sazonal dos mesmos.

Relativamente aos jardins ornamentais informais, estes destinam-se a “a recriar ambientes com um caráter mais pitoresco, formas naturais, elementos orgânicos, caminhos sinuosos e configurações mais dramáticos, também foram criados nas propriedades do Douro.” (MARQUES et al, 2010). Com efeito, a vegetação nesta tipologia de jardins ornamentais de algumas quintas do Douro é usada com o propósito de serem recriados ambientes mais ou menos exóticos, e a água particularmente orientada para aptidão de se formarem lagos de formato orgânico com ilhas, pontes ou grutas artificiais. A Quinta do Vale Abraão, em Lamego, apresenta um belíssimo jardim ornamental com 5 hectares junto ao rio Douro, presumivelmente construído em meados do séc. XIX, trazendo para a paisagem árvores exóticas, raras e nativas, incluindo caminhos sinuosos, lagos, cascatas, túneis, painéis de azulejo. É, sem dúvida, notável, do ponto de vista paisagista. A Quinta de Santa Júlia de Loureiro, no Peso da Régua,

inclui um jardim ornamental muito interessante, salientando-se uma casa de chá e uma estrutura acastelada e algumas árvores e arbustos notáveis como Tílias (Tilia sp.), Castanheiros (Castanea sativa), Azevinhos (Ilex aquifolium), Pinheiros (Pinus pinaster) e Eucalipto (Eucalyptus globulus).

Merecem igualmente referência na tipologia de jardins ornamentais naturalistas com lagoa, canteiros e pedras como a Quinta das Aveleiras em Torre de Moncorvo, ou a Casa do Freixieiro, em Baião, com os canteiros e a cerca do caminho, a gruta no jardim da Quinta das Quintãs, em Mesão Frio, o lago e a gruta, dominada pelas árvores de grande porte; ou os lagos cercados por xisto na Casa Grande de Travanca, em Armamar. Existe uma articulação harmoniosa de árvores e arbustos, pedras e xistos e água. Também aqui a vegetação, particularmente a arbórea e a arbustiva, usufrui de uma função elogiável no que respeita à “composição contribuindo para os contrastes de luz e sombra, revelar ou enquadrar pontos de vista, para compor com escala e uma diversidade de formas, tamanhos e cores” (MARQUES et al, 2010). No caso de árvores de grande porte e exóticas destaque para a frequência da Magnólia (Magnolia grandiflora), da Tília-argêntea (Tilia tomentosa Moench), da Palmeira (Phoenix canariensis Chabaud) e do Cedro-do-atlas (Cedrus atlântica (Endl.) Carrière), entre outras variadas. De referir também a incorporação da estrutura arbórea frutífera, aqui utilizada quer como função ornamental, quer como função produtiva.

São os jardins ornamentais do Douro por vezes com muros de sustentação em betão. Existem algumas alterações recentes nestes elementos da paisagem, como o betão ou as cubas de alumínio que, de certo modo, descaraterizam a paisagem duriense, ou novas incrustações. Não obstante, os jardins ornamentais, diferentes dos jardins históricos, têm também a sua grande importância na Região Demarcada do Douro, “toda a organização em socalcos, suportados por muros de xisto e granito, as escadas e corrimãos, estruturas de água e outros ornamentos de pedra esculpida, mostram grande compreensão e habilidades artísticas artesanais.” (MARQUES et al, 2010).

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Figura 20 - 1) Quinta das Sopas, 2) Quinta dos Frades, 3) Quinta da Alegria de Cima (Fonte ML DRCN/CITCEM FLUP, 2014).