Na sociedade, percebem-se os jovens de modo paradoxal: vítimas e vitimados. Do mesmo modo, nas políticas públicas24 juvenis se encontra uma tendência em direcionar ações para minimizar os problemas que fazem dos jovens um grupo social vulnerável e de risco. A primeira tendência considera os jovens como um dos grupos sociais mais afetados pelo impacto das crises econômicas, sociais e culturais. A segunda tendência desenvolve ações que têm como finalidade o controle social dos jovens. Existe uma apreciável quantidade de políticas que têm como objetivo a repressão e a penalização dos jovens. Nestas ações, o confronto com a polícia muitas vezes é causa de morte dos jovens. Contudo, existe uma terceira tendência presente nas políticas públicas, apesar de ser a menos usual e ter relação com aquelas políticas em que os jovens são apresentados como agentes estratégicos do desenvolvimento. Nesta perspectiva se considera que os jovens têm as principais características que se precisa para viabilizar o processo de institucionalização da mudança e a centralidade no conhecimento (RODRIGUEZ, 2004).
Antes de desenvolver cada uma das perspectivas e problematizar a categoria “jovem” nas políticas públicas, salientamos a definição de políticas juvenis que apresenta Balardini (1999):
24
Deve-se explicitar a diferença entre projeto, programa e política. “Programa” e “proyecto” son conceptos relacionados que aluden a distintos niveles de organización en la “cascada de la planificación”. Recuperando la definición dada por la ONU (1984), “un proyecto es una empresa planificada consistente en un conjunto de actividades interrelacionadas y coordinadas con el fin de alcanzar objetivos específicos dentro de los límites de un presupuesto y un periodo de tiempo dados”. Un programa, en cambio, “se constituye por un conjunto de proyectos que persiguen los mismos objetivos. Establece las prioridades de la intervención, identificando y ordenando los proyectos, definiendo el marco institucional y asignando los recursos que se van a utilizar (CHIARA; DI VIRGILIO, 2009, p.55). A política pública inclui os programas sociais, mas é um nivel superior no projeto de planejamento. Então, o Proyecto Adolescentes é um programa que inclui diversos projetos apresentados pelas organizações e também é expressão de uma política pública. Nesse sentido, utilizar-se-á como sinônimo “programa” ou “política” para referenciar a ele, mas nem por isso as diferenças conceituais entre uma e outra categoria são ignoradas.
Política de juventud es toda acción que se orienta tanto al logro y realización de valores y objetivos sociales referidos al periodo vital juvenil, como así también, aquellas acciones orientadas a influir en los procesos de socialización involucrados. Se trata tanto de políticas reparatorias o compensatorias como de promoción y orientadas al desarrollo y/o construcción de ciudadanía […] en clave participativa a política de juventud trata de ir generando las condiciones en las cuales los jóvenes puedan realizarse en tanto tales y, al mismo tiempo, participar en la configuración de la sociedad en la que viven.
Como apresentado acima, a construção da categoria “jovem” é social e, por essa razão, seu significado vai ser variável de acordo com o espaço e o tempo. Assim, as políticas públicas assumem características diferentes dependendo do contexto espacial e do momento histórico. Além das especificidades que adquirem os jovens em um país e em outro e das problemáticas associadas a este grupo social, Bango e Rodriguez (1996, apud BALARDINI, 2001, p. 126) apresentam uma classificação das políticas de juventude na América Latina, as quais têm relação com um período de tempo particular. Esta tipologia está composta por quatro tipos de políticas: as orientadas à temática da educação e o tempo livre dos jovens integrados; as políticas que têm como finalidade o controle social de setores juvenis mobilizados; as políticas que pretendem combater ou reduzir a pobreza e prevenir a criminalidade, e aquelas que procuram a inserção dos jovens excluídos no mercado de trabalho25. Balardini (2001) acrescenta um quinto tipo de política: aquela em que os jovens são concebidos como sujeitos de direitos e atores estratégicos do desenvolvimento. Como foi indicado anteriormente, cada uma destas políticas caracterizam uma época em particular, mas não por este motivo se deve pensar que umas anulam as outras; pelo contrário, estes tipos de políticas se superpõem e coexistem ao mesmo tempo.
Quanto às políticas orientadas à educação e ao tempo livre dos jovens
“integrados”, pode-se dizer que em quase todos os países da América Latina registra-
se um esforço de desenvolvimento de políticas educativas. Com ritmos e características distintas houve, na década de 1960, uma incorporação crescente de contingentes
25
juvenis aos benefícios da educação, especialmente no nível básico. Incorporou-se um número de jovens à educação, mas ao mesmo tempo em que o sistema educativo se expandia, surgia a necessidade de procurar um “bom uso” do denominado “tempo livre” dos jovens. Desta maneira, mediante as políticas, procurava-se evitar que estes se envolvessem em práticas que os levassem a desenvolver condutas negativas, por exemplo, o consumo de drogas e o exercício irresponsável de condutas sexuais.
As políticas de controle social dos setores juvenis “mobilizados” se relacionam com a progressiva incorporação dos jovens ao sistema educativo e o surgimento dos “movimentos estudantis” (especialmente universitários). Estes movimentos se constituíram como opositores ao sistema político e social estabelecido. Inicialmente procuravam reivindicações vinculadas à educação, mas depois foram contestatórios da sociedade em geral. Assim, a ação para os jovens nos anos 1970 aconteceu essencialmente através de medidas de “controle social” e “repressão”. Deve- se salientar que no contexto político de regime ditatorial (1976-1983) no denominado Processo de Reorganização Nacional, os jovens adquirem uma relevância política inigualável. Eles se organizaram e lutaram pelos seus direitos. Neste período muitos jovens foram vítimas de assassinatos. No caso da Argentina, registraram-se, aproximadamente 30.000 desaparecidos26, sendo os jovens menores de 35 anos a grande parte deste número27.
As políticas de enfrentamento da pobreza e prevenção ao delito são características da década de 1980, quando a esfera econômica e social na América Latina começa a entrar num período de deterioração. Neste contexto, os jovens assumiram visibilidade por pertencerem às populações marginais das principais cidades, em geral excluídos do sistema educativo e do mercado de trabalho. Assim, surge a necessidade de se desenvolver ações de luta contra a pobreza e para a prevenção do delito, dado que se considerava que o aumento dos fatos delituosos tinha estreita vinculação com o incremento da miséria.
26
Registro da Associação Madres de Plaza de Mayo. 27
As políticas que se orientam para inserção dos jovens “excluídos” no
mercado de trabalho caracterizam a década de 1990. Neste período, os níveis de
pobreza se elevaram, configurando sociedades com mais desigualdade social. Também começa a ser visível a questão do desemprego, problemática na qual os jovens são especialmente afetados, sendo que entre eles é que se concentra a maior parte da população desempregada, afetando principalmente as mulheres e os jovens de baixo nível socioeconômico. Por sua vez, os que conseguem ingressar no mercado de trabalho padecem da instabilidade e precariedade. Em geral, estes programas pretendiam oferecer capacitação profissional para o aumento da empregabilidade e/ou a inserção no mercado de trabalho.
Finalmente, as políticas que concebem os jovens como sujeitos de direitos e
atores estratégicos do Desenvolvimento Humano vão além dos programas que
procuram mitigar as necessidades básicas e mais imediatas como alimentação, saúde e educação. Nestas políticas se outorgam importância da liderança e protagonismo dos jovens na concepção, implementação e avaliação das políticas públicas. Neste período se vivencia uma mudança de paradigma na questão juvenil paralelamente à mudança acontecida com as crianças, quando se passa de uma perspectiva de pensar o jovem como “objeto” de intervenção para considerá-lo como “sujeito” de direitos28
.
As características destas diferentes políticas públicas estão presentes nas políticas juvenis atuais. Por isso, no PA busca-se identificar os elementos que ele tem de uma e outra política. Também, busca-se a identificação e análise das diferentes visões da juventude. Considera-se relevante ter um olhar atento e crítico para as ideias e percepções que permeiam e norteiam as políticas de juventude, pois estas implicam ações diferenciadas através da execução dos programas.
Além das classificações indicadas acima, podem-se distinguir as políticas sociais da juventude de acordo com a relação que têm estas com o seu sujeito-alvo. Marin (s/d, apud BALARDINI, 2001) afirma que, na determinação de cada política de
28
Sobre a análise comparativa entre os programas de juventude que mostram a tensão entre os dois últimos tipos de políticas. Ver RAMIREZ, Graciela Noemí (2006): La construcción de la juventud desde
juventude, pelo menos dois fatores intervêm de forma decisiva: por um lado, a natureza e a essência do Estado que a projeta, e por outro lado, as características ou status do papel sócio-político da juventude, da sua consciência política. Assim, o autor apresenta três tipos de políticas juvenis: "para", "pela" e "com" a juventude, e Balardini (2001) acrescenta um quarto tipo: as políticas "a partir" da juventude.
As políticas para os jovens têm marcas paternalistas. Localizam os jovens em campos específicos do corpo social ativo; caracterizam-se pelo protecionismo e por terem um forte conteúdo de controle social. As políticas pelos jovens são aquelas que se realizam por meio dos jovens mesmos. São políticas que se caracterizam pela capacidade de mobilização, pelo forte componente de doutrinamento e pela ênfase na retórica heróica. As políticas com os jovens podem ser pensadas como as mais inovadoras. Seu princípio é a solidariedade e são políticas essencialmente participativas. Por último, as políticas a partir da juventude se referem àquelas atividades e iniciativas imaginadas e realizadas pelos próprios jovens.
Todas estas visões e tipos de políticas juvenis compõem o arcabouço teórico que permite fazer uma caracterização e avaliação política do PA, que permite a problematização das ideias que norteiam o PA e o tipo de jovem que se pretende construir através das intervenções sociais. A política pública, ao mesmo tempo em que se constitui numa decisão, supõe certa ideologia de mudança social, esteja ela explícita ou não na formulação. O exercício de reflexão das políticas públicas juvenis colabora com o debate de desvendar e mudar as interpretações institucionalizadas que constroem os problemas políticos e o conteúdo de conflitos entre jovens e a sociedade adulta. Quem define o problema, define também as suas estratégias de solução.