3.2 – PEFOPEX – TURMA 3° SEMESTRE (2)
5.2 – OS LEITORES DECLARADOS
Até aqui falamos sobre aqueles professores que não se auto-denominam como leitores de livros de auto-ajuda. Tomemos agora os que se assumem como “leitores” desses livros, aqueles que se reconhecem, que gostam e que defendem sua utilização. Em grande parte das vezes, apresentam-se até mesmo como leitores “apaixonados” pelo gênero. Assumem-se enquanto tais, escrevem com desenvoltura sobre os livros, autores, temas tratados, bem como sobre os motivos que os levam a ler esse tipo de livro. Olhemos para os números:
- Santa Bárbara D’Oeste: 13 leitores - PEFOPEX 1: 2 leitores
- PEFOPEX 2: 4 leitores
Como se pode notar, é bastante restrito o número de professores que se tomam por leitores de livros de auto-ajuda, em comparação com os 46 entrevistados que se auto-identificam como não-leitores.
Os leitores assumidos sabem o quê ler (autor, obras) e por quê ler essas obras (para refletir sobre a vida, para mudá-la, para solucionar problemas). Como é o caso das respostas dadas por esses leitores:
Leio esses livros pois acho que, mesmo sabendo muito do que eles querem nos “ensinar”, às vezes acabo me esquecendo...Sempre é tempo de lembrar “boas dicas” para facilitar nosso dia-a-dia (o que não garante que todas sejam boas...). Sempre se aproveita alguma coisinha. Títulos: “Quem mexeu no meu queijo?”; “Para que minha vida se transforme”; Histórias para aquecer o coração”; autores: Içami Tiba, Dalai Lama, etc (PEFOPEX 1, 4)
Para que minha vida se transforme Histórias para aquecer o coração I Histórias para aquecer o coração II
Histórias para aquecer o coração dos adolescentes Histórias para aquecer o coração das mulheres
Histórias para aquecer o coração das mães. (PEFOPEX 1, 16)
Em alguns momentos Paulo Coelho. Considero um tipo de leitura essencial para a reflexão e “mudanças”. (PEFOPEX 2, 6)
Sim, sou leitora. Como tantas outras pessoas, passei (e ainda passo!) por inúmeros problemas pessoais, que chegaram a “abalar” meu emocional. Sugeriram-me então, “ler” para uma possível auto-ajuda: comecei por Roberto Shinyachik (...) Amar pode dar certo; A carícia essencial; Vivendo, amando e aprendendo; Otimismo em gotas. (PEFOPEX 2, 8)
Sim. Porque trata de assuntos que tratamos no dia-a- dia.Terapia do estresse, Cinco minutos para Deus, Fique de bem com seu corpo, Terapia da aceitação, Terapia do perdão. (Santa Bárbara D’Oeste, 6)
Sim, porque é um tipo de leitura que nos faz refletir e pensar muitas coisas. Pequeno livro das virtudes além da lenda (Heloísa Galves e Regina M. Azevedo), Ânimo (Lourival Lopes), Minutos de sabedoria (C. Torres Pastorino) e MAKTUB (Paulo Coelho) – livro reflexivo/meditação. (Santa Bárbara D’Oeste, 8)
Sim. Para aceitar e adquirir forças e fé para sair das dificuldades que nós seres humanos passamos todos os dias. Minutos de sabedoria, A vida sexual dos solteiros e dos casados, Força para viver, Como confiar em si e viver melhor, Otimismo todo dia. (Santa Bárbara D’Oeste, 9)
Neste conjunto de entrevistados não há contradição entre as obras/autores identificadas no mercado editorial como de auto-ajuda e as que citam e usam. Esses leitores lêem para entender seus problemas diários, para refletir sobre eles. Pelos títulos citados, as pessoas buscam resolver seus problemas afetivos/emocionais, adquirir ânimo, preparar-se para mudanças, para “lembrar das boas dicas” oferecidas pelos autores. A leitura, como possibilidade de busca
de respostas para os problemas íntimos, afetivos e para compreensão de si mesmo tem presença marcante entre esses leitores.
O professor, como aquele que necessita de ajuda, também é encontrado entre os pesquisados que fazem uso do gênero auto-ajuda. Dos 19 professores que se consideram leitores de livros de auto-ajuda, 9 afirmam usar tais livros para ajudá-los profissionalmente. Uma professora leitora de livros de auto-ajuda, de Santa Bárbara D’Oeste, ilustra esse grupo de professores ao responder sobre os motivos que a levam a buscar esses livros, responde:
Porque o professor precisa estar sempre buscando, refletindo e se auto-ajudando.30 (15)
Que categoria profissional é essa que precisa estar se auto-ajudando? Por que o professor é colocado como aquele que precisa se auto-ajudar? O que é específico a esse profissional que coloque como necessária e desejável a leitura de livros de auto-ajuda? Qual a relação de sua opção de leitura pessoal, em sua atuação profissional, como responsável pela formação de crianças-leitoras?
Buscando indícios nas respostas dos professores aos questionários que possam levar à compreensão do professor como aquele que necessita de ajuda, localizamos alguns autores/teóricos da área de educação que são classificados como escritores de auto-ajuda pelos professores, nas respostas à questão 4. Destacamos estes:
Celso Antunes, Piaget, Paulo Freire. (Santa Bárbara D’Oeste, 20)
Rubem Alves – O Retorno e Ternos, E aí? Cartas aos adolescentes e a seus pais; Cenas da vida; A festa de Maria; Sobre o tempo e a eternidade; Histórias para quem gosta de ensinar; Histórias para quem gosta de aprender; Navegando.
Celso Antunes – Marinheiros e profesores; Alfabetização Emocional; Inteligências Múltiplas. Santa Bárbara D’Oeste, 25)
Paulo Coelho, Rubem Alves. (Santa Bárbara D’Oeste, 30)
Eu li o livro Inteligência Emocional, que suponho ser de auto-ajuda. Me interessei porque gosto de psicologia. (PEFOPEX 2, 13)
Dentre muitos pesquisadores/teóricos que escrevem para os professores, sobre os desafios profissionais enfrentados no seu dia-a-dia, por que esses autores vêm citados mais de uma vez por esses entrevistados? Talvez eles sejam mais (re)conhecidos dos professores por serem divulgados nos cursos de formação inicial e continuada e/ou em entrevistas pela mídia. Talvez esses autores, com exceção de Piaget, estejam associados ao gênero pelo fato de transformarem teorias complexas em uma linguagem mais simples, mais acessível – o que representa uma das características dos livros de auto-ajuda.
Voltemos nosso olhar, neste momento, para os principais e mais importantes desafios que os professores-leitores apaixonados de livros de auto- ajuda encontram no seu dia-a-dia: seus alunos. Ao serem perguntados, na questão 6, se conhecem e/ou trabalham e os motivos que os levam a optar pelos de auto-ajuda para crianças, respondem
(...) porque tratam de assuntos às vezes complicados e difíceis da criança entender e, aceitar, de uma maneira “fantasiosa”, porém verdadeira e simples para as crianças, mostram o lado bom e até a importância de alguns acontecimentos que, na maioria das vezes, são transformados em bichos de sete cabeças ou em “traumas psicológicos” (Santa Bárbara D’Oeste, 25)
Conheci essa coleção – “Se ligue” em você – recentemente através de minha colega de trabalho, profa. L. Procuro trabalhar com Histórias infantis que contenham sentido moral. Ex: A galinha ruiva, etc. Trabalhei no sentido de cooperação, do trabalho coletivo; que a classe estava precisando. (Santa Bárbara D’Oeste, 32)
Sim, sempre que existe a necessidade ou existiu, de trabalhar sentimentos com as crianças para quais dou aula. Classes com dificuldade de relacionamento entre os alunos ou entre os alunos e seus familiares. Também para conhecimento e informações para as crianças, para que elas possam trabalhar esses sentimentos ou informações, no seu dia-a-dia. (Santa Bárbara D’Oeste, 18)
Embora desconheça livros com este gênero, procuro trabalhar o lado emocional através de conversas (individual ou coletiva), dinâmicas, brincadeiras, textos (histórias infantis, contos), etc.
Tais procedimentos se dão ao fato da eminente carência afetiva e emocional de várias crianças. Cabe citar que a escola situa-se numa região de classe social baixa. (sic!) (Santa Bárbara D’Oeste, 16)
Desde meu primeiro contato com as crianças, foi despertada uma grande ânsia, em mim, por conhecê-las, compreendê-las, orientá-las...ajudá-las! Está aí uma das formas para chegar a esse objetivo – livros de auto-ajuda – e também exercitar o hábito, o prazer por ler. (PEFOPEX 2, 8)
Para aumentar auto-estima, ou melhorar o relacionamento afetivo entre as crianças, criando laços entre eles. (PEFOPEX 1, 16)
Já li livros desse tipo com meus alunos, para “conversar” sobre os temas depois. Também já recorri a esses tipos de livros para “resolver” ou ajudar algum problema como medo, por exemplo. Aliás, para o medo mesmo, já utilizei em primeira e segunda séries, em anos anteriores, nessa mesma escola e na escola que trabalhei até 2001 (escola particular também). (PEFOPEX 1, 4)
Os motivos da utilização desses livros são diversos: para aprender a lidar com dificuldades, evitando “traumas psicológicos”, para trabalhar sentimentos, dificuldade de relacionamento dos alunos entre si e entre os alunos e seus familiares, para desenvolver o lado emocional de forma a lidar com a carência afetiva das crianças. Os professores desejam recuperar/melhorar/desenvolver a auto-estima de seus alunos e ajudá-los nas diferentes circunstâncias de suas vidas.
Parece-nos evidente que o grupo dos “leitores dos livros de auto-ajuda” tem como função profissional ajudar seus alunos a resolver problemas: de auto-estima, de mudanças, de medo, de relacionamento afetivo, “do lado emocional”. Parece existir a necessidade de uma educação “terapêutica”, psicológica, como se os aspectos afetivos pudessem ser aperfeiçoados dentro do espaço escolar através
do trabalho do professor, onde este assemelha-se mais a um terapeuta, a um psicólogo do que ao antigo professor que trabalhava gramática, aritmética, álgebra, etc.