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CAPÍTULO 2 – Geopolítica brasileira e Clausewitz: o período da Guerra Fria

2.3. Meira Mattos, leitor de Clausewitz

2.3.3. Os limites de uma leitura: O marechal Castello Branco

Meira Mattos foi um leitor frequente de Clausewitz até o final de sua carreira, vários outros artigos do general brasileiro citaram o prussiano após as duas obras que examinamos neste capítulo. A relação mais forte do general Mattos com Clausewitz parece ter sido a estratégia, mas também considerou a importância que a submissão militar à política tem para a teoria da guerra de Clausewitz. Este é um dado importante mediante ao fato de que Meira Mattos foi um autor conservador, defensor de uma democracia baseada em um “moderado autoritarismo” promovido pelos militares, fato constatado nas obras investigadas e também em outros livros do autor, tais como: Pensamento Revolucionário Brasileiro (1964),

Operações na Guerra Revolucionária (1966) e Doutrina Política da Revolução de Março de 64 (1967). Mesmo marcado pelo conservadorismo típico aos militares e pela conjuntura da

distinto, por exemplo, da visão do presidente Castello Branco, do qual o general Mattos foi subchefe do Gabinete Militar. Enquanto Meira Mattos falou sobre a importância central da subordinação militar à política, ou sobre a estratégia de ação direta, Castello Branco utilizou- se de Clausewitz para falar sobre os perigos da guerra revolucionária que rondavam o Brasil na Guerra Fria e do perigo de uma invasão comunista. Isso não quer dizer que Meira Mattos não tenha se preocupado com tal questão, mas não foi uma questão-chave de sua leitura da teoria clausewitziana.

Em conferência pronunciada na Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME), no ano de 1957, Castello Branco falou sobre a doutrina militar – definição, função e características –, principalmente deu destaque a Doutrina Militar Brasileira. O marechal iniciou sua fala delineando o papel da doutrina militar que seria: organizar as Forças Armadas, nortear a sua direção e situar as bases de seu emprego na guerra. A seu ver, o cargo de estabelecer a doutrina militar era do Estado-Maior das Forças Armadas, “cabendo ao Estado-Maior de cada Força elaborar, em decorrência, a doutrina destinada aos elementos que lhe são correspondentes” (CASTELLO BRANCO apud SANTOS, p.176).

Para Castello Branco, outra tarefa importante ao se falar em doutrina militar é distingui-la de uma teoria de guerra:

Teoria de guerra: é um corpo teórico de princípios e processos para a organização e as operações, sem se prender a uma oportunidade, a uma emergência, a tipos de meios definidos e a um determinado conflito. Trata-se, portanto, de dados teóricos; doutrina militar forma um corpo de princípios e processos, retirados quase sempre de dados de uma teoria ou de várias teorias, todos adaptados, a fim de atender aos problemas militares de uma nação para organizar suas forças, prepará-las para a guerra, levá-las a operações admitidas e previstas. Além de adaptar dados teóricos, pode ainda criar elementos doutrinários próprios, tendo em vista atender particularidades da nação e de seus prováveis contendores (CASTELLO BRANCO apud SANTOS, 2004, p. 176- 177).

Castello Branco apontou que a doutrina é, segundo Clausewitz, ‘o que o chefe militar leva para o campo de batalha, prescindindo dos elementos teóricos’ (CASTELLO BRANCO apud SANTOS, 2004, p.177). Após conceituar detalhadamente o termo, o marechal discursou sobre a validade e sobre a importância da política e da sociedade para o sucesso de qualquer doutrina militar. A doutrina militar deve ser produzida para um determinado tempo e seu constante progresso decorre do influxo da ciência e da técnica, bem como do advento de novos meios de transformação da política de segurança nacional. O palestrante não deixou de ajuizar sobre a função da política e até mesmo da sociedade na doutrina militar. A política deveria estar presente no Conceito Estratégico Nacional, onde estariam alocados os subsídios

fundamentais da estratégia geral da Nação. E qual seria o papel da população? Apoiar a constituição e o funcionamento da doutrina, a fim de obter lealdade as suas intenções e a coerência da ação quando necessário.

No ano de 1962, Castello Branco proferiu uma palestra sobre guerra, na qual enunciou o perigo que estaria rondando o mundo: a guerra revolucionária. Mas, antes de adentrar especificamente no tema, Castello Branco transcorreu por assuntos triviais em qualquer guerra: estratégia e tática. ‘A estratégia é para um período e espaço quase sempre amplos, senão profundos; a tática, para um local e tempo restritos’ (CASTELLO BRANCO apud SANTOS, 2004, p. 227). Ele categoricamente afirmou que a tática é subordinada à estratégia, visto que ‘esta trata da concepção e da conduta no conjunto das operações, enquanto aquela se incumbe da aplicação das forças num local’ (CASTELLO BRANCO apud SANTOS, 2004, p. 228). Seria esta uma concepção clausewitziana empregada por Castello Branco?

Ao ponderar sobre estratégia e tática, Castello Branco suscitou os aspectos da guerra moderna. Para o marechal, o conceito de guerra foi distinto ao decorrer da História, exemplo dado através de dois autores:

Para Lênin, a guerra é solução única para o domínio da classe proletária; para Mao Tsé Tung, é uma das formas mais elevadas da luta pela resolução das contradições entre as classes, é uma extensão da política; e esta ocupa em relação a ela uma posição dominante (CASTELLO BRANCO apud SANTOS, 2004, p. 230).

Distinções à parte, Castello Branco quis ressaltar, com veemência, que o pensamento de guerra democrático era oposto ao pensamento de guerra comunista, já que este vê na guerra um fim e aquele vê na guerra um meio de defesa de sua civilização atacada.

Após avaliar o termo guerra e apontar sua distinção no pensamento democrático e comunista, Castello Branco procurou definir os seis tipos de guerra que podem ser encontradas na História. São elas: (1) Guerra Total: a que agrega todos os meios de um país; (2) Guerra Global: conflito do mundo; (3) Guerra Localizada: é a guerra antiga, de méritos regionais e, proveniente de incompatibilidade entre povos; (4) Guerra Insurrecional: guerra ligada ao povo; (5) Guerra Revolucionária: é uma luta de classes, de fundo ideológico, imperialista, para o domínio do mundo; tem uma doutrina, a marxista-leninista; (6) Guerra Fria: foi arquitetada por Lênin para, de qualquer forma, prosseguir a revolução mundial soviética. Castello Branco enfatiza que este último tipo de guerra, de coações e infiltrações ‘consagraria bem a teoria segundo a qual, a guerra é uma continuação da política por outros meios’ (CASTELLO BRANCO apud SANTOS, 2004, p 231). Seria essa outra expressão clausewitziana utilizada por Castello Branco?

Segundo os tipos de guerra têm-se quatro formas de guerra, que são dadas através da influência direta da ciência e da técnica sobre os meios empregados. As formas de guerra são: (1) Guerra Nuclear: invenção ocorrida a partir Segunda Revolução Industrial, deu ao mundo incomensurável meios de guerra, através da fissão e a fusão do átomo; (2) Guerra Limitada: ressalva de toda ordem na utilização de meios nucleares; (3) Guerra Convencional: usam os elementos existentes desde 1945, excetuando a bomba atômica; (4) Guerra Generalizada: se encontram todos os meios, nucleares e convencionais, além dos bacteriológicos, químicos e dos derivados da eletrônica.

Através da “explicitação didática” do fenômeno guerra, Castello Branco teve a intenção de atentar os oficiais brasileiros para o conflito dado naquele momento, a disputa entre duas ideologias: a democrática e a comunista. Essas duas ideologias estariam em um claro conflito mundial, abrangendo o Brasil, ‘esta luta atravessou o Atlântico e já existe no nosso País’ (CASTELLO BRANCO apud SANTOS, 2004, p. 245). Para ele, a repercussão da ideologia comunista no mundo vinha através do Partido Comunista, que era a presença atuante da URSS nos países. E como o Brasil, na visão de Castello Branco, representado pelas suas Forças Armadas, poderia combater o comunismo e consequentemente a ameaça de uma guerra revolucionária80? ‘Aqueles que devem fazer frente a tais atitudes têm de agir armados de convicção democrática, cioso de suas instituições, empregando desde a persuasão até o combate decididamente ofensivo’ (CASTELLO BRANCO apud SANTOS, 2004. p. 249).

Não acreditamos que os ideais políticos e ideológicos de Meira Mattos e Castello Branco de combate ao comunismo, preocupação com a guerra revolucionária e a defesa da “Revolução de 64” se afastem, o que nos interessa indicar aqui é a distinção na apropriação de Clausewitz. Enquanto o general Mattos fez uma leitura mais centrada nos pontos fortes da obra Da Guerra, Castello Branco utilizou-se das ideias do prussiano para falar sobre a guerra revolucionária e o perigo da ideologia comunista invadir o país, ou seja, a conjuntura histórica teve grande influência na leitura mais limitada do presidente e também militar Castello Branco. No próximo capítulo tentaremos evidenciar como as conjunturas históricas também marcaram as leituras de Clausewitz no Brasil no pós-Guerra Fria, demonstrando assim que foram poucas as apropriações mais amplas da teoria clausewitziana no Exército brasileiro, sendo a leitura empreendida por Meira Mattos uma das poucas exceções.

80 Para Castello Branco a ameaça de guerra revolucionária está na história e no futuro do comunismo, como inevitável e necessária.