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PARTE I: AS DISTINTAS RAÍZES DO CONCEITO DE ESFERA PÚBLICA

2.5 Os limites do modelo liberal de esfera pública

Em linhas gerais, a tradição da representatividade liberal incorpora a ideia de um espaço público aberto e livre, mas considera a participação do público em geral como limitada e, em grande parte, indireta. Por isso, as teorias liberais da esfera pública tendem a concentrar-se em seus dispositivos estruturais e formais, como o sistema

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partidário e a representação política, a agregação de interesses e os problemas de coordenação social em geral.

Uma limitação adicional do modelo liberal de esfera pública é a de que nele as relações políticas são, muitas vezes, concebidas de forma demasiado restritivas dentro dos modelos jurídicos existentes. A principal preocupação expressa pela ideia da “neutralidade dialógica”, defendida, por exemplo, por Bruce Ackerman, é a da legítima coexistência de diferentes grupos em uma sociedade pluralista, cada um com sua concepção diferente do bem. Para este autor, o liberalismo é uma forma de cultura política na qual a questão da legitimidade é primordial. Ele entende o liberalismo como uma forma de se falar do poder como uma cultura política de diálogo público, com base em determinados tipos de constrangimentos conversacionais. O mais importante constrangimento em conversação no liberalismo é a neutralidade, cujas regras não suportam que um discurso de legitimação avance caso ele possa ser utilizado para que o titular do poder afirme que sua concepção de bem é melhor que a de seus concidadãos ou de que, independentemente de sua concepção do bem, que ele é intrinsecamente superior a um ou mais dos seus concidadãos (Benhabib, 1999: 81-83).

O processo de diálogo público desenvolvido por Bruce Ackerman não se baseia em características gerais da vida moral, mas no modo distintivo como os liberais concebem o problema da ordem pública. Sua questão central é a forma como os diversos grupos primários, dos quais apenas sabemos que não partilham a mesma concepção do bem, podem "resolver o problema de convivência mútua de modo razoável".

Para esse problema, Ackerman propõe um modelo de diálogo público baseado em restrições conversacionais, ou seja, na exclusão da agenda de discussões de questões morais centrais e/ou consideradas irredutíveis por um ou por ambos os participantes da discussão pública. Segundo essa perspectiva, quando os participantes de um diálogo (interação comunicativa) sabem que discordam sobre uma ou outra dimensão da verdade moral, eles não devem procurar por algum valor comum capaz de sobrepujar esse desacordo; nem tentar traduzi-lo para algum enquadramento considerado neutro; tampouco devem procurar transcender sua discordância, discutindo como se alguma forma de “criatura sobrenatural” (unearthly creature) pudesse resolvê-lo. Eles devem simplesmente não dizer nada sobre esse desacordo e retirar os ideais morais que os dividem da agenda de conversação do Estado liberal. Essa atitude moderadora teria a

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vantagem de propiciar oportunidades para falar com o outro sobre os mais profundos desacordos morais em inúmeros outros contextos mais privados. Tendo constrangido a conversação dessa forma, os participantes do diálogo público podem utilizar o diálogo para fins pragmaticamente mais produtivos, a fim de identificar todas as premissas normativas que todos os participantes políticos considerem razoáveis ou, pelo menos, não desarrazoadas (Benhabib, 1999: 82).

Contudo, como argumenta Benhabib (1999: 82-83), o modelo de um diálogo público baseado em “restrições conversacionais” (conversational restraint) não é neutro, na medida em que pressupõe uma epistemologia moral e política que, por sua vez, justifica uma separação implícita entre o público e o privado de natureza tal que nos leva ao silenciamento das preocupações de determinados grupos excluídos.

Os teóricos liberais das restrições conversacionais assumem que os grupos primários de conversação já sabem o que são os seus mais profundos desacordos ainda antes de terem se engajado em uma conversação ou discussão pública. Esses grupos parecem já saber se seu problema particular é uma questão moral, religiosa ou estética em oposição a uma questão de justiça distributiva ou de ordem pública. Sobre essas duas ordens de problemas, os liberais legalistas afirmam que podemos discutir legitimamente os da segunda ordem, mas que devemos abstrair os da primeira. Contudo, esse tipo de distinção é intrinsecamente problemática: questões como o aborto, a pornografia e a violência doméstica são questões de justiça ou de boa vida? A distinção entre as questões de justiça e as da boa vida não podem ser decididas por alguma forma de geometria moral. Entretanto, um processo de diálogo público sem restrições pode nos ajudar a definir a natureza das questões que estamos debatendo. Todas as questões que os participantes do discurso prático concordam que não podem ser universalizadas e sujeitas a normas legais são questões de vida boa; as demais são questões de justiça (Idem).

Ainda conforme Benhabib (1999: 84), o princípio da neutralidade liberal não é útil para orientar reflexões sobre as lutas políticas que culminam com a transformação de assuntos privados em assuntos políticos. Tudo o que ele diz é que, uma vez que esta redefinição e renegociação política de direito e de bem tenha ocorrido, a lei deve ser neutra. Mas, contrariamente ao que defende a tese da neutralidade liberal, o diálogo público significa desafiar e redefinir o bem coletivo e o senso de justiça individual como um resultado da experiência pública. Ao mesmo tempo em que expressa um dos

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princípios fundamentais do sistema jurídico moderno, o princípio liberal da neutralidade dialógica é demasiado restritivo e paralisante para ser aplicado na dinâmica das lutas por poder no atual processo político. A vida pública conduzida de acordo com o princípio da neutralidade liberal dialógica não apenas careceria da dimensão agonística do político, em termos arendtianos, mas também, e mais gravemente, restringiria o alcance da conversação pública de forma incompatível com os interesses dos grupos oprimidos. Todas as lutas contra a opressão no mundo moderno começaram por uma redefinição do que anteriormente era considerado privado, não-público (nonpublic) e não-político (nonpolitical), como questões de interesse público, questões de justiça e como locais de poder que requerem legitimação discursiva. As organizações de mulheres, movimentos pacifistas, movimentos ecológicos e os novos movimentos de identidade étnica seguem uma lógica semelhante sobre essas questões.

Em “Problemas de legitimação do capitalismo tardio”, Habermas faz uma crítica às teorias das elites na sociologia política contemporânea, mais especificamente às teorias de Weber e Shumpeter. Para ele, tanto os modelos decisionistas quanto os modelos tecnocráticos da prática política refletem a transformação das questões práticas em questões técnicas e sua consequente exclusão da discussão pública. Nos primeiros, a única função da cidadania é legitimar os grupos dirigentes mediante a aclamação através de eleições periódicas. As decisões políticas mesmas caem fora da autoridade da discussão racional na esfera pública; o poder de tomar decisões pode ser legitimado, mas não racionalizado. Nos modelos tecnocráticos, como o de Dahl, por outro lado, o exercício do poder pode ser racionalizado, mas apenas ao custo da democracia. A redução do poder político à administração racional – isto é, a uma administração guiada pela visão teórica do que é objetivamente necessário (para a estabilidade, a adaptabilidade, o crescimento, etc.) – priva a esfera pública de toda função, salvo a de legitimar o pessoal administrativo e a de julgar as qualificações profissionais dos dirigentes. Nenhum dos modelos atribui um papel essencial para o corpo público dos cidadãos, discutindo de forma irrestrita sobre assuntos comuns.

Para Habermas, o triunfo desse tipo de consciência tecnocrata significaria o afundamento definitivo do modelo liberal de esfera da opinião pública que surgiu no século XVIII e que teria persistido, apesar de sua marcante debilitação, nas democracias do Estado social nos países de capitalismo avançado. Significaria o abandono da ideia de uma racionalização do poder através da discussão pública crítica, institucionalmente

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garantida. Seu triunfo significaria, pois, a substituição da razão pública pelo trabalho de relações públicas, capaz de assegurar às elites dirigentes a lealdade de um público despolitizado (McCarthy, 2002: 30-31).

Além disso, a compreensão liberal da política centrada no Estado pode prescindir da ideia de uma cidadania capaz de organizar-se e de agir coletivamente porque ela não se orienta pelo input de uma formação política racional da vontade, mas pelo output da avaliação das ações do Estado. Assim, o núcleo central do modelo liberal de democracia não é a autodeterminação democrática das pessoas que deliberam, como no republicanismo e no deliberacionismo, mas a normatização constitucional e democrática de uma sociedade econômica que deve garantir um bem comum apolítico através da satisfação das expectativas de felicidade das pessoas privadas inseridas no sistema produtivo (Habermas, 2003a: 20-21).

No âmbito das relações entre sistemas de comunicação e política, a interpretação liberal-conservadora do princípio da representação, como a defesa da política organizada em face da seleção das elites políticas, tem sido utilizada para legitimar um discurso elitista sobre a liberdade de imprensa, sobretudo quando, ao princípio da representação, soma-se a defesa da liberdade de mercado como garantidora das liberdades individuais e, desse modo, da liberdade de imprensa e de opinião. O pensamento liberal-conservador equipara o mercado de ideias com o de mercadorias e serviços. Deixados ao livre jogo da oferta e da demanda, geram esferas públicas que ditam, através da opinião pública, as regras para controlar o Estado. Nessa perspectiva, o público surge de forma espontânea – sempre frente ao Estado – e identifica-se com o visível. A opinião pública é constituída na esfera pública de forma similar ao equilíbrio de mercado, conduzida por uma “mão invisível” que coordena interesses e saberes individuais. E os erros, quando ocorrem, são atribuídos à ingerência do Estado ou à abdicação de responsabilidade pelos cidadãos (Sampedro Blanco, 2000: 33).

Nas teorias liberais da esfera pública, há uma predominância do modelo de opinião pública agregada, que corresponde à soma dos juízos individuais recolhidos através do voto ou das pesquisas de opinião. A opinião pública agregada é um resultado, e o público que lhe importa é o constituído pela maioria que soma vontades já determinadas. De forma geral, ela é composta por opiniões, ou seja, por juízos expressos verbalmente e por meio de ações, a favor ou contra uma ou várias opções. Ela se baseia em predisposições racionais ou emotivas que, em grande medida, permanecem

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implícitas. As teorias da democracia representativa liberal, sobretudo as utilitaristas, elitistas e pluralistas, pressupõem que a opinião pública nasce do interesse privado de indivíduos que não percebem ou não compartilham os interesses alheios (Sampedro, 2000: 20-25).

As deficiências da democracia representativa liberal derivam de que o puro enfrentamento de interesses privados não assegura, se não é que limita, a representação dos mais desfavorecidos. E, de forma mais específica, os modelos liberais elitista, pluralista e decisionista de democracia não asseguram, necessariamente, tampouco de forma automática, a liberdade de expressão e a participação na esfera pública. Entre outros fatores, porque, em maior ou menor grau, rejeitam formas públicas de discussão e argumentação como parte dos procedimentos democráticos, identificam as práticas decisórias com o processo de escolha de governantes e pressupõem um uso instrumental da opinião pública agregada. Consideram que as opiniões individuais já estão definidas pelos interesses particulares e pré-políticos, relativamente imutáveis, cabendo apenas às instâncias políticas de decisão somar as opiniões e atender à maioria.

Por sua vez, a democracia deliberativa desenvolve um modelo forte de esfera pública como espaço de formação racional e discursiva da opinião pública. Ela apela ao diálogo de todos os cidadãos e à sua capacidade de gerar consensos universais, em que os interesses privados fundem-se em um único interesse público ou em interesses coletivos concorrentes, questões que serão tratadas no próximo capítulo.

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3 Democracia deliberativa e o modelo geral de esfera pública

Deliberação, como lembra oportunamente Avritzer (2000b), comporta dois conjuntos de significados, podendo igualmente ser entendida como atividade intersubjetiva de “ponderação” e “reflexão” ou de “decisão” e “resolução”. O autor utiliza essa distinção semântica para resgatar as formas como o termo foi utilizado ao longo do tempo na Ciência Política. Esse resgate tem início com Rousseau para quem o processo deliberativo da comunidade política acerca dos problemas referentes à direção do Estado ou da cidade deveria culminar com uma decisão. A legitimidade dessa decisão era determinada pelo nexo normativo entre a vontade da maioria24, aferida através da agregação das vontades particulares e manifestas dos cidadãos que deliberavam, tendo em mente o bem comum e a vontade geral. Essa interpretação da deliberação, que se manteve hegemônica por quase 200 anos, tem dado lugar a outra interpretação alternativa que enfatiza o momento da argumentação pública (ou do discurso público) cujo fim pode ser tanto a formação de opiniões ou atitudes bem informadas acerca de uma questão ou problema de interesse do público quanto a tomada de decisões acerca de normas e ações que incidem sobre uma dada comunidade política. Contudo, as noções de centralização e de descentralização do poder de decisão política e de participação popular na discussão pública generalizada ou na discussão pública em fóruns que fazem uma mediação direta entre uma sociedade civil organizada e o Estado são fundamentais para que sejam estabelecidas distinções à vertente liberal, da associativista e da procedimental da democracia deliberativa.

É possível identificar várias correntes no modelo de democracia deliberativa, a exemplo do deliberativo-associativista, do deliberativo-procedimental e do deliberativo- radical25, com significativas diferenças nas formas como articulam seus problemas centrais, uns ressaltando o papel dos novos arranjos institucionais da sociedade civil no desenvolvimento de novas formas de accountability político (Arato, 2002) e na reversão de distorções do modelo liberal de democracia representativa através do desenvolvimento de estratégias de uma democracia associativa (Cohen, 2007), outros interpretando o caráter contestador dos setores altamente politizados e mobilizados da

24 Rousseau (2004: 41) estabelece uma distinção entre “vontade de todos” e “vontade geral”: enquanto a

primeira é a soma das vontades particulares, a segunda é a vontade da maioria obtida quando se retira dessas vontades “as mais e as menos, que mutuamente se destroem”.

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Para uma visão mais abrangente da democracia deliberativa e das críticas dirigidas a esse modelo ver a coletânea de textos reunidos por Werle e Melo (2007), Elster (1998), Benhabib (1996).

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sociedade civil como fonte de impulsos inovativos que podem conduzir a um desejável aprofundamento da democracia através do alargamento da agenda da conversação pública (public conversation) e da discussão sobre as fronteiras que separam o público do privado (Benhabib, 2007; 1999) ou, ainda, defendendo um modelo mais inclusivo de democracia através do aumento da representatividade dos grupos política e socialmente marginalizados na comunicação pública (Young, 2000; 2001).

Mas, de modo geral, os democratas deliberativos advogam por um debate informado, pelo uso público da razão e pela busca imparcial da verdade. Para eles, o problema central é saber se a ideia democrática de bem comum é pouco mais que o agregado de preferências particulares, ou se ela pode ser articulada com a deliberação e o debate público sério. Para Claus Off e Ulrich Preuss, como não há uma relação linear positiva entre participação e sensatez, o desafio para teoria democrática não é o de simplesmente considerar as crescentes categorias de pessoas que poderiam ter direito a participar da política, tampouco o de considerar os âmbitos para os quais a democracia poderia ser legitimamente ampliada. O desafio para a democracia refere-se, mais necessariamente, à introdução de procedimentos que primem pela formulação de preferências justificáveis, cuidadosamente examinadas, coerentes, situacionalmente abstratas e validadas socialmente (Held, 2007: 333-334).

Assim, para os deliberacionistas, a fonte de legitimidade não é a vontade predeterminada dos indivíduos, mas o processo de sua formação, ou seja, a própria deliberação. A ideia fundamental é a de substituir a noção de preferências fixas e exógenas aos processos democráticos, típica do modelo hegemônico de democracia liberal, por um processo de aprendizagem reflexiva26 e aberta, a partir da qual e na qual os indivíduos aceitem os assuntos que precisam compreender para manter um juízo político sensato e razoável. Esse processo origina aquilo que Off e Preuss chamam de preferências reflexivas que são ...

[...] o resultado de uma confrontação consciente do ponto de vista particular com o ponto de vista oposto, ou com diversos pontos de vista que o cidadão, depois de refletir, pode descobrir dentro de si mesmo. Essa reflexividade pode ser facilitada mediante disposições que superem o isolamento monológico do ato de votar complementando este modo de participação com formas mais dialógicas de fazer-se ouvir (Held, 2007: 335).

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Para uma definição do que seja aprendizagem reflexiva e para análises sobre as formas com ela vem sendo incorporada aos processos democráticos em sociedades pós-tradicionais ver Giddens, Beck e Lash, (1997), bem como Giddens (2001; 2003; 1991b).

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Estudando as opções que aparecem na bibliografia, Michael Saward (apud Held, 2007: 358) destaca múltiplas possibilidades para a realização de deliberações em um ambiente de cultura pública adaptada para a transformação reflexiva das preferências dos indivíduos, a saber:

 Participação em micro-foros especialmente construídos onde uma pequena mostra representativa de pessoas deliberam sobre assuntos específicos (pesquisas deliberativas, júris de cidadãos, etc.);

 Participação em partidos políticos;

 Participação em parlamentos nacionais ou de outro âmbito;

 Participação em redes de comitês supranacionais, como as estruturas de governo da União Européia;

 Participação em associações privadas voluntárias;  Participação em tribunais;

 Participação em ampla esfera pública de “enclaves protegidos” ou “contra- públicos subalternos”. Em outras palavras, nas esferas públicas formadas pelos “grupos oprimidos da sociedade”.

Ao participar de debates públicos, os indivíduos podem ter contato com questões que previamente poderiam não considerar problemáticas ou de seu interesse, bem como com opiniões e interpretações diversas acerca de algo no mundo. Além disso, o processo de participação em uma discussão pública obriga os indivíduos a clarificar suas próprias ideias, opiniões e formular de forma reflexiva suas preferências. E, ao contrário do pluralismo liberal que toma a participação cidadã como capacidade de influenciar as decisões políticas, com o fim de proporcionar uma igual proteção de interesses, os deliberacionistas tomam a participação em processos de deliberação coletiva, conduzidos de forma racional e equitativa entre indivíduos livre e iguais como um princípio para se alcançar a legitimidade e a racionalidade nos processos de tomada de decisão coletiva (Benhabib, 2007: 50).

Dentre as formas sugeridas pelos deliberacionistas para o aumento do elemento deliberativo nas democracias modernas, estão a introdução de pesquisas deliberativas, dias de deliberação e de júris de cidadãos, a ampliação dos mecanismos de informação dos eleitores e de comunicação, a reforma da educação cívica para melhorar a possibilidade de eleições maduras e o financiamento público de grupos cívicos e de associações que buscam o compromisso com a política deliberativa (Held, 2007: 351- 357).

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De forma semelhante às demais pesquisas de opinião, a pesquisa deliberativa requer a seleção aleatória de uma amostra representativa da população, ou seja, do universo do eleitorado. Contudo, enquanto uma pesquisa de opinião padrão valora o que pensa o eleitorado, tendo em conta o pouco que sabe, uma pesquisa deliberativa é elaborada para mostrar o que o eleitorado pensaria se, hipoteticamente, pudesse submergir em um processo deliberativo intenso. O processo consiste em reunir um grupo de indivíduos, durante um período de dias para deliberar sobre um assunto ou tema candente que preocupa a população. Primeiramente, pergunta-se a opinião dos membros do grupo antes da deliberação. Em seguida, a deliberação é subdividida em dois elementos: exposição do tema e perguntas a uma série de especialistas na questão; e um debate entre os participantes com a perspectiva de alcançar as posições defendíveis em público. Ao fim, volta-se a colher as opiniões dos membros do grupo e comparam-se as amostras. Normalmente, o processo de deliberação modifica as opiniões, tanto pela via da aquisição de informações baseadas em provas quanto pela via da participação ativa nos debates e do reconhecimento das opiniões e argumentos dos