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Os limites legais do poder e da ação do Estado

Cada comunidade que pretende uma forma de organização política preocupa-se, automaticamente, com a estrutura das suas instituições e com uma constituição que favoreça a ordem social e proteja a liberdade de seus cidadãos. O Estado de direito, na concepção contemporânea, trata tanto da limitação dos poderes, assim como das funções do Estado, colocando-se em oposição ao Estado absoluto. Por Estado de direito, como se pretendeu expor até o momento, entende-se um Estado em que os órgão públicos obedecem a normas gerais e funcionam no âmbito da legalidade, com exceção dos direitos do cidadão, que pode recorrer a instâncias superiores e questionar o abuso do poder. Esse é o Estado de direito, que reflete a supremacia do governo das leis sobre o governo dos homens.

Do Estado de direito em sentido forte, [...] são parte integrante todos os mecanismos constitucionais que impedem ou obstaculizam o exercício arbitrário e ilegítimo do poder e impedem ou desencorajam o abuso ou o exercício ilegal do poder. Desses mecanismos os mais importantes são: 1) o controle do Poder Executivo por parte do Legislativo [...]; 2) o eventual controle do parlamento no exercício do Poder Legislativo ordinário por parte de uma corte jurisdicional a quem se pede a averiguação da constitucionalidade das leis; 3) uma relativa autonomia do governo local em todas as suas formas e em seus graus com respeito ao governo central; 4) uma magistratura independente do poder político (BOBBIO, 2005, p. 19).

Essas estruturas que organizam o Estado de direito objetivam amparar os cidadãos do abuso do poder. Ou seja, trata-se da proteção das liberdades negativas ou de ação em que os indivíduos não são obrigados a fazer algo que não desejam nem impedidos de fazer aquilo

que anseiam, salvo os casos que interfiram na liberdade ou no direito de outro. O que protege e garante, de alguma forma, as liberdades individuais, além do controle sobre o poder do Estado, é a limitação das ações deste, ou seja, a delimitação dos espaços de interferência do Estado. Nas palavras de Bobbio (2005, p. 21), “[...] o controle dos abusos do poder é tanto mais fácil quanto mais restrito é o âmbito em que o Estado pode estender a própria intervenção, ou [...] no sentido de que o Estado mínimo é mais controlável do que o Estado máximo”.

Para Arendt (1988), apenas em um governo limitado, ou seja, aquele que é limitado em virtude da lei, se pode salvaguardar os direitos civis, visto que assim não dependem das formas de governo. Como já foi ressaltado em outro momento, salvo as formas ilegítimas de governo, que suprimem o governo constitucional com base na lei. Diferentemente de Bobbio, no entanto, Arendt afirma que os direitos garantidos pela lei são todos de caráter negativo, mesmo o direito ao voto, visto que tais direitos não se constituem como poderes propriamente ditos, mas sim uma forma de proteção contra os abusos do poder, pois tais direitos “[...] não reivindicam uma participação no governo, mas uma salvaguarda contra ele” (1988, p.115).

É possível falar sobre os limites da ação do Estado, assim como dos deveres, de modo ético-político, mas é incoerente falar juridicamente sobre os deveres do Estado. Segundo Kelsen (2006, p. 335), “[...] não existe normalmente qualquer dever jurídico atribuível ao Estado, mas apenas um dever ético político”. Nesse sentido, é correto afirmar que o Estado não pode violar os direitos fundamentais, por exemplo, por meio de leis que seriam consideradas inconstitucionais pelo fato de não serem subjetivos, mas constitucionalmente garantidos. Isso, no entanto, não acarretaria um “[...] dever jurídico para o órgão legislativo, mas apenas cria a possibilidade de se anular a lei inconstitucional, através de um processo especial” (p. 336). Sendo assim, se pode afirmar que o Estado que quer o direito, quer consequentemente o que é lícito e não pode praticar o ilícito. “Um Estado que praticasse o ilícito seria contraditório consigo mesmo” (p. 338).

O que deve limitar a atuação do Estado11 é, segundo Sarlet (2007), o princípio da dignidade da pessoa humana, ou seja, os princípios garantidos constitucionalmente não devem ser violados pelo poder público. Afirma ainda que, além de não violar tais princípios, o

11 Ao referir-se ao Estado o autor está referindo-se automaticamente a todos os órgãos, funções e atividades

Estado deve ter como meta a proteção, o respeito e a promoção dos mesmos. O autor procura elementos na própria constituição e, com base nos direitos fundamentais, os argumentos que oferecem a base normativa para tal defesa12. Estende a defesa dos princípios e da dignidade humana ao âmbito social e privado, para que estes também estejam vinculados e tenham deveres em relação à proteção de tais princípios, pois reconhece que, em tempos de globalização e privatizações, o Estado é o menor inimigo das liberdades e dos direitos fundamentais em geral, situação essa que oferece um “[...] incremento assustador dos níveis de exclusão e, para além disso, aumento do poder exercido pelas corporações, internas e transnacionais (por vezes, com faturamento e patrimônio – e, por tanto poder econômico – maior que o de muitos Estados) [...]” (SARLET, 2007, p. 115).

Pelo fato de não existir uma constituição, uma lei ou um Estado perfeito é que se espera sempre o bom senso e a procura pela maior equidade possível da esfera pública em relação à esfera privada. Nenhum governo13, por mais obtuso que seja, deseja agir de forma irracional e ir de encontro aos princípios jurídicos conhecidos pelo povo e fazer somente aquilo que está de acordo com seus caprichos. Sarlet refere as sábias palavras de Pufendorf (2007), que enumera inúmeros exemplos para dizer que nem todas as leis são boas e muitas, pelo contrário, foram feitas por homens tiranos, que castigavam inocentes, em beneficio próprio, seja pessoal ou de uma causa discriminatória. A isso Pufendorf (2007, p. 449) chama de leis civis que estão notadamente em contradição com as mais claras leis da natureza.

O que se pretende não é colocar em xeque a amplitude e a justeza de todas as leis e do poder público personificado no ente do Estado, mas apontar para o fato de que não há uma infalibilidade no sistema que regula e ordena as sociedades, até mesmo pelo fato de que são construções humanas artificiais sujeitas a acordos e modificações. A ideia de que as leis civis injustas não devem imperar sobre aquilo que é justo de acordo com as leis naturais é explícita nas palavras de Cícero, segundo as quais:

Se as leis fossem instituídas por decreto do povo, por ordem dos príncipes ou pelas decisões dos juízes, então seria lícito cometer latrocínio, lícito cometer

12 O autor refere um exemplo para sublinhar seu argumento, afirmando que “[...] o dever de proteção imposto – e

aqui estamos a nos referir especialmente ao poder público – inclui até mesmo a proteção da pessoa contra si mesma, de tal sorte que o Estado está autorizado e obrigado a intervir em face de atos de pessoas que, mesmo voluntariamente, atentem contra sua própria dignidade, o que decorre justamente do já referido cunho irrenunciável da dignidade pessoal” (SARLET, 2007, p. 116).

13 Salvo os governos totalitários, que suspendem qualquer juízo legal e moral em benefício dos objetivos os

adultério, lícito falsificar testamentos se isso fosse aprovado pelo voto popular ou plebiscito. Porque, se as opiniões e julgamentos de tolos têm tanto poder que, por seu decreto, podem virar a natureza de cabeça para baixo, por que não confirmam que aquelas coisas que são ruins e perniciosas devem ser consideradas boas e saudáveis para nós? Ou por que, já que a lei é

capaz de tornar justa a injustiça, não pode tirar o bem do mal? (apud

PUFENDORF, 2007, p. 450).

A participação do cidadão na cena pública é uma forma de manter a vigilância sobre as ações do Estado, pois os governos podem querer estender suas ações sobre a vida privada das pessoas. É participando e opinando que as pessoas podem fazer cumprir os contratos jurídicos estabelecidos previamente. Alguns governos, sob pretextos morais, invadem sutilmente o âmbito privado dos cidadãos, devido ao fato de que esses mesmos cidadãos já não têm expressão na esfera pública. Por isso, a construção daquilo que é público deve ter influência direta dos cidadãos, pois são eles que constroem os artifícios que regulam e ordenam as cidades; no entanto, conforme Ribeiro (2008a), cada vez mais as pessoas se abstêm da participação naquilo que deve ser comum para investirem suas energias naquilo é privado.

Outro autor que se deteve sobre a questão dos limites da interferência e da ação do Estado foi Humboldt. Para ele, a máxima pela qual o Estado deve orientar-se ou sobre a qual deve estabelecer seus fundamentos é aquela segundo a qual o objetivo de todos os homens é o máximo desenvolvimento de suas faculdades. Nesse sentido, o Estado se coloca como meio e não como fim de si mesmo. “Se o Estado tem um fim último, esse é o de ‘elevar os cidadãos ao ponto de poderem eles perseguir espontaneamente o fim do Estado’ [...]” (HUMBOLDT,

apud BOBBIO, 2005, p. 25).

Humboldt (2004), especificamente no que se refere à atuação do Estado distingue-se de Sarlet (2007), pelo fato de que restringe a função do Estado aos direitos individuais, enquanto Sarlet estende-o à questão dos direitos públicos. Para Humboldt, o Estado em sua melhor atuação é aquele que se responsabiliza pela segurança dos indivíduos, o que significa defender a liberdade dos mesmos no âmbito da lei. Por isso, o Estado que se ocupa com o bem-estar para além da segurança corre o risco de um agenciamento que pode possibilitar-lhe a intromissão nas questões privadas. A partir do momento em que os indivíduos estão mais preocupados com suas posses do que com o poder e aquilo que é comum a todos, esses tornam-se uma presa fácil para o Estado, que prontamente possibilita o conforto a esses

indivíduos tornando os facilmente manipuláveis para, depois, por meio da repetição, moldar o seu caráter. Aquele que se serve das migalhas do Estado deixa de exercer o espírito patriota em relação aos seus semelhantes.

Sobre os efeitos negativos do Estado de bem-estar, Humboldt afirma que:

[Os] resultados perniciosos de ação extensamente solícita por parte do Estado são ainda mais notavelmente demonstrados na supressão de toda energia criativa e na deterioração necessária do caráter moral. [...] Aquele homem que é facilmente conduzível torna-se, por vontade própria, disponível para sacrificar o que resta de sua capacidade para a ação espontânea. Ele se imagina liberado da ansiedade que vê agora transferida para outras mãos e tem o sentimento de estar fazendo o suficiente quando olha para a sua liderança e a segue. Assim, suas noções sobre o mérito e a culpabilidade permanecem em aberto, ainda sem conclusão. A ideia do primeiro [o mérito] já não mais o inspira, e a consciência dolorosa da última [a culpa] o assalta menos frequentemente e de maneira menos incisiva, já que ele pode mais facilmente atribuir suas deficiências à sua peculiar posição e deixá-las à responsabilidade daqueles que fizeram disso aquilo que se tornou. Se acrescentarmos ainda que ele, possivelmente, pode não apreciar os desígnios do Estado como sendo tão perfeitamente puros em seus objetivos ou execução – podendo suspeitar que além de suas próprias vantagens dali advindas existem outros propósitos adicionais que são intencionados –, então não apenas a força e a energia, mas também a pureza de sua natureza moral sofrerá. Ele agora se considera não apenas completamente livre de qualquer dever que o Estado não lhe tenha expressamente imposto, mas também exonerado, ao mesmo tempo, de qualquer esforço pessoal no sentido de aprimorar sua própria condição; e até mesmo teme semelhante esforço, como se estivesse prestes a descortinar novas oportunidades, das quais o Estado poderia tirar vantagem. [...] Resumindo: o Estado, visto de uma perspectiva mais favorável, lembra o médico que retarda a morte do paciente por meio de fortalecer-lhe a doença. Antes de existirem médicos, os homens conheciam apenas a saúde e a morte (2004, p. 159-160).

Nessa mesma perspectiva, Arendt (2003) adverte para o perigo de o âmbito público passar a abrigar questões privadas, onde as relações que estabelecem os vínculos são alimentadas pela caridade e não mais por um mundo comum14. Para a autora, as ordens monásticas são exemplos de onde a política foi substituída pela caridade. Da mesma forma, não se pode aceitar um Estado que esteja empenhado apenas em fazer caridade e

14 Por mundo comum, lê-se, dentre outras, na página 62 de A condição humana: “[...] o termo ‘público’ significa

o próprio mundo, na medida em que é comum a todos nós e diferente do lugar que nos cabe dentro dele. Este mundo, contudo, não é idêntico à terra ou à natureza como espaço limitado para o movimento dos homens e condição geral da vida orgânica. Antes, tem a ver com o artefato humano, com o produto de mãos humanas, com os negócios realizados entre os que, juntos, habitam o mundo feito pelo homem”.

assistencialismo mantendo assim o status quo, ou seja, mantendo as condições ideais para que as pessoas apenas se comportem deixando de agir.

Há situações em que não se deve permitir a interferência do Estado como, por exemplo, no matrimônio15. Essa é uma associação que diz respeito ao âmbito privado, visto que envolve a disposição e a inclinação individual de cada um dos envolvidos e qualquer coerção ou imposição externa desencaminha o percurso natural da liberdade. Humboldt (2004) assevera ainda que, nos casos em que não há a orientação do Estado, a moralidade atua mais livremente. Outro caso em que a interferência do Estado não é bem-vinda é na integração social ou no lazer, âmbito no qual as escolhas pessoais são imprescindíveis.

Pufendorf (2007) e Humboldt (2004) convergem na ideia de que deve haver uma limitação na interferência do Estado sobre a esfera privada e particular. Pufendorf alerta para que não se condenem as leis e o Estado a mais do que merecem e que as leis não são sempre as culpadas pela injustiça ou pela maldade. Assinala que “[as leis] devem retificar o vício até um certo ponto; mas ir além disso fica absolutamente fora de sua jurisdição” (PUFENDORF, 2007, p. 451). Salienta ainda, que mesmo os deveres, alguns deles, não devem sofrer a interferência do Estado e cita como exemplo “[...] os de beneficência, que não é mais beneficência a partir do momento em que, para alguns propósitos, está envolvida a coerção” (p. 452).

O Estado e, consequentemente, suas leis não devem querer interferir no caráter dos homens e nem impor uma moralidade a eles. Nesse ponto, ambos autores, Humboldt (2004) e Pufendorf (2007), concordam. Este último autor assevera que a função do legislador é uma e a do moralista é outra, sendo que a função do primeiro é oferecer meios para que se atinjam os fins do governo civil.

[O] fim das leis civis, em si mesmas, não é tornar realmente virtuosos aqueles a quem as leis são impostas. [...] Para isso, as leis teriam de ser capazes de regular o interior dos homens; mas, uma vez que isso é algo que elas não podem alcançar, nada têm que fazer metendo-se com o que acontece aí; isso é uma prerrogativa do infinito examinador dos corações. Nem estão disponíveis às leis meios tais que, por meio de um princípio de virtude, elas logrem conseguir obediência ao que exigem como mais justo e moral (PUFENDORF, 2007, p. 453).

15 Exemplo do que o autor pretende, com a negação da interferência do Estado no matrimônio, é o fato de que,

Pensar a concepção de homem e de humanidade, assim como sua organização em uma sociedade, implica uma concepção política e jurídica. As sociedades organizadas por um sistema republicano e democrático orientam suas instituições de acordo com seus princípios e ordenamentos jurídicos. Incluídas as instituições escolares públicas, que têm o dever de cumprir a tarefa para à qual foram estabelecidas, qual seja, de instruir minimamente seus alunos sobre os mais diversos conhecimentos, além de ensinar sobre os princípios da República e da Democracia.

2. DEBATES FILOSÓFICOS EDUCACIONAIS ATUAIS ACERCA DA INSTRUÇÃO