II A nova rede paroquial
3) Os limites paroquiais
Falta ainda reconhecer no terreno os limites das igrejas paroquiais desta segunda fase, trabalho que, contudo, está facilitado pela identificação que já fizemos anteriormente dos novos termos municipais e das Comendas da Ordem: na sequência do que se passava no período anterior, a estrutura eclesiástica estava justaposta à estrutura «civil» (mesmo que tal não significasse necessariamente a paroquialidade do templo, no caso de uma circunscrição comendatária).
Quanto a Canha, os limites paroquiais correm nas mesmas linhas dos limites civis, que por sua vez são também, provavelmente, os limites comendatários, como já vimos. Significa isto que, em termos eclesiásticos, Santa Maria de Canha foi traçada a partir de Palmela, a partir da jurisdição de São Pedro. Se Canha já fosse paróquia antes de 1235, o que não é de todo impossível, pelo contrário, tal significaria que o seu território, eventualmente, poderia ainda ter sido destacado da alçada de Santa Maria de Palmela,
pois não sabemos exactamente quanto tempo demorou S. Pedro a construir, e quando existiu o primeiro templo em Canha.
Santa Maria de Setúbal, a actual Sé da cidade do Sado, foi sagrada a 15 de Agosto de 1248, em documento hoje desaparecido, mas referenciado por estudiosos que ainda lhe tiveram acesso, como já explicámos. Esta data vem confirmar a nossa ideia de que, por vezes, antes de existir Foral outorgado, já estaria presente no terreno a estrutura paroquial, pois o diploma de reconhecimento do município é datado apenas do ano seguinte. Significa este facto que em Setúbal parecem ter sido os limites paroquiais que precederam os municipais, e lhes deram origem, algo que se terá verificado e sido comum noutros locais.
Nesta primeira fase, estes limites eram muitíssimo reduzidos, praticamente limitando-se à própria vila, que só teve termo alargado já no século seguinte, em 1343, delimitado por D. Garcia Peres, Mestre de Santiago, a pedido de D. Afonso IV619. Durante os quase cem anos seguintes, mesmo o minúsculo termo municipal virá a albergar ainda uma outra jurisdição paroquial, S. Julião.
O território da paróquia de Santa Maria de Setúbal foi certamente retirado do de Santa Maria de Palmela. Correria desde à Fonte Nova, a ocidente, englobando o ainda nascente arrabalde de Troino620 (onde existiria já a capela de Nossa Senhora da Anunciada) até ao também nascente arrabalde de Palhais, a oriente, onde surgiria mais tarde a capela de São Sebastião. Ao centro, a zona onde seria feita a muralha, entre a Ribeira do Livramento e a Porta de Palhais (actual porta de S. Sebastião) respectivamente a poente e a nascente. A norte, a linha com Santa Maria de Palmela correria provavelmente pelo traçado que posteriormente veio a ser consagrado pelas muralhas, eventualmente atingindo ainda as alturas da Gafaria, cerca de 200 metros para o Setentrião, contados a partir da zona muralhada adjacente a Santa Maria.
Quando apareceu S. Julião, a segunda paróquia de Setúbal (pensamos nós entre os anos de 1260-1270) este diminuto espaço jurisdicional foi também repartido com a nova igreja, passando os limites dentro da vila a ser os seguintes, conforme se lê no documento de criação das novas paróquias da Anunciada e de S. Sebastião, em 1553:
619
Cf. LC, doc. 302, ff. 373-375, pp. 599-303.
620
Que este arrabalde de Setúbal faria parte do termo original de Setúbal, e não apenas o espaço que veio a estar incluído dentro da muralha mandada fazer pelo Bravo, torna-se evidente pelo facto de o Compromisso da Confraria de Nossa Senhora da Anunciada, com sede na capela com o mesmo nome ali existente ser datado de 1330, isto é, treze anos antes do alargamento do termo, indicando-se expressamente nele que a capela estava no termo da vila de Setúbal. Cf. IANTT, Ministério do Reino, liv.527, mf. 856.
«Ficam á dita Freguezia de S. Gião quinhentos e cincoenta fogos, partindo como antigamente parte, com a Freguezia de Santa Maria pelo meio do beco que vem do Postigo da pedra da banda do mar ás Cazas de Estevam Netto, as quaes ficam com Santa Maria, e as de Luis Miaveiro que estão no meio da Rua dos Ferradores são de S. Gião»621.
Por outras palavras, estes tinham sido os limites medievais dentro do espaço urbano, como declara o documento, e continuariam a valer para o futuro. E ainda hoje valem, tanto civil como eclesiasticamente, entre as freguesias de S. Maria da Graça e S. Julião, e entre as paróquias da Sé e de S. Julião: desde a beira-mar, a Sul, a linha atravessa o local da antiga muralha pela travessa do Postigo da Pedra, passa pelas actuais Ruas Álvaro Castelões e Álvaro Luz, até à antiga Porta da Erva, actual Largo da Conceição, a Norte, cortando o espaço intramuros em dois.
Quando, em 1343, o termo foi alargado à custa de Palmela e Alcácer, o novo limes entre as duas paróquias setubalenses apenas prolongou para norte a linha que traçava já dentro das muralhas, até ao novo limite. Esta nova linha prolongava no novo termo o que se verificava no mais antigo, isto é, São Julião a ocidente, Santa Maria a oriente. São Julião, por seu lado, quando surgiu, ficou sujeito aos limites atrás apontados, tolhidamente vivendo entre duas «Santas Marias»: a de Setúbal, de onde tinha sido extraído na íntegra o seu território inicial, e a de Palmela, cuja jurisdição chegava quase às próprias casas sadinas. Quando o alargamento do espaço municipal se deu, como vimos, a São Julião coube todo o espaço a ocidente, desde a linha de fronteira com Santa Maria de Setúbal até à fronteira com Santa Maria de Palmela (que continuava a rodear todo o espaço setubalense) embora bem mais de largo, indo deslindar no território da Comenda de Mouguelas, para o Poente, na altura provavelmente ainda não dotada de paroquialidade.
No Concelho do Ribatejo, Santa Maria da Sabonha e S. Lourenço de Alhos Vedros terão sido, logo desde o início, se estivermos certos, paróquias-gémeas, pelo que o seu território terá sido delimitado muito pouco tempo após ambas assumirem carácter paroquial; tenha ou não a sua comenda sido demarcada ainda antes de 1251622, é certo que em toda a documentação existente se apresentam quase sempre duas áreas distintas:
621
Cf. PIMENTEL, Alberto, Memória sobre a História e administração do município de Setúbal, 2ª ed, Câmara Municipal de Setúbal, Setúbal 1992, pp. 142-143.
622
uma a poente, com centralidade em Alhos Vedros, e outra a nascente, com cabeça em Sabonha.
Os seus limites jurisdicionais dividiam a meio o município e a comenda do Ribatejo, num traçado que corria entre Sarilhos e a Moita, isto é, nos limites actuais entre freguesias de Sarilhos Grandes (Montijo) por um lado, e as de Sarilhos Pequenos e Moita, por outro. Esta, que é ainda fronteira entre os concelhos do Montijo e da Moita, foi-o também entre os concelhos de Alhos Vedros e Sabonha, quando a separação definitiva se consumou, entre os séculos XIV e XV, provavelmente aproveitando o limite eclesiástico já existente.
Quanto a São Salvador do Mundo de Coina, e devido à origem da paróquia, os seus limites jurisdicionais são claramente os limites concelhios e também os da comenda, sendo estes últimos, provavelmente, os prévios, e de onde depois se traçaram os eclesiais e os municipais. A Paróquia, obviamente, foi retirada do território de Santa Maria de Sesimbra.
No caso de São Lourenço de Azeitão, e sabendo, como já vimos, que a sua separação não foi completa, funcionando numa quasi-paroquialidade até bem para lá de 1385, o limite foi certamente o da comarca azeitonense, traçada por D. Pedro I, mesmo debaixo dos protestos de Sesimbra. Também esta jurisdição foi retirada do território de Santa Maria de Sesimbra.