Os problemas do quadril, dores, tensões, bloqueios, artroses etc. nos mostram que atravessamos uma situação em que a "base" das nossas crenças profundas está sendo recolocada em questão. Quando essa articulação, que é o apoio primordial e fundamental da perna, se rompe, isso significa que os nossos suportes interiores principais, as nossas crenças mais enraizadas em relação à vida também se rompem por sua vez. Nós nos encontramos exatamente no campo das noções de traição ou de abandono, sejam elas realizadas por nós ou pelos outros.
Se for o quadril esquerdo, estamos diante do caso de uma vivência de traição ou de abandono de simbólica Yang (paterna). Tenho em mente um caso em particular: o de uma pessoa que se chama Sylvie, e que veio me consultar a respeito de um caso de artrose do quadril esquerdo, pouco antes de se submeter a uma cirurgia. Depois de deixá-la falar do seu sofrimento "mecânico", eu a conduzi ao fundo do problema e a me falar um pouco mais sobre a sua vida fazendo perguntas: "Que homem a havia traído ou abandonado nos últimos meses?". Apesar de surpresa, ela me confidenciou que havia perdido o seu marido três anos antes, mas que não via relação alguma entre os dois fatos. Eu fui lhe explicando progressivamente o processo inconsciente que tinha levado todo esse tempo para então se liberar dessa forma. Ela reconheceu, en-
tão, que havia realmente vivido o desaparecimento do seu marido como se fosse um abandono e algo injusto. Após duas sessões de massagem de Harmonização e de trabalho sobre essa memória, o seu quadril se liberou a tal ponto que, durante a segunda semana, houve dois dias inteiros em que ela não teve o menor sofrimento. Os seus medos, as suas "obrigações" profissionais, no entanto, a fizeram tomar, apesar de tudo, a decisão de se submeter à cirurgia e, naturalmente, eu a deixei livre para fazer essa escolha. A cirurgia foi "bem-sucedida" e calou a sua dor.
Um ano e meio depois, ela voltou para me ver com o mesmo problema, mas dessa vez no quadril direito. Estava claro que ela não havia eliminado, de maneira alguma, a tensão interior. A ferida na alma não cicatrizava de jeito algum e procurava um outro ponto do corpo para se exprimir. Eu fiz com que fosse mais longe na expressão da sua vivência e ela terminou "confessando" que, além de tudo, após o desaparecimento do seu marido, restavam sérias dúvidas sobre a sua fidelidade, que ela achava que ele a havia enganado. Ela se sentia traída na sua condição de esposa. Não era então de se espantar que o Não-Consciente tenha necessidade de expulsar, através do quadril, essa ferida que estava longe de se fechar, pois sustentava a dúvida. Foi o quadril direito porque a feminilidade estava certamente envolvida, mas sobretudo porque o esquerdo não podia mais "falar".
Se for o quadril direito, estamos diante do caso de uma vivência de traição ou de abandono de simbólica Yin (materna). Deixando o exemplo anterior de lado, vou me referir aqui ao meu próprio pai. Ele trabalhava em um escritório público onde as coisas e os comportamentos se tomavam cada vez mais difíceis de serem tolerados, pois "traíam" a idéia que ele fazia do serviço público. Mas como fazer para sair dessa situação? Um dia, ele sofreu uma queda em que machucou seriamente o quadril direito. Pouco a pouco, a dor foi aumentando até que foi ficando fisicamente impossível que ele pudesse fazer o seu trabalho corretamente. Sendo de origem camponesa e tendo o senso do dever e do respeito com os compromissos, ele ficou ainda mais "contrariado" quando lhe aconselharam a "se fazer de doente". "Eu não posso aceitar tal coisa pois isso significaria que os outros deverão trabalhar por mim", dizia na época. Isso teria sido uma traição a mais, porém da sua
parte agora. Ele pediu então aposentadoria antecipada para evitá-la, embora isso fizesse com que perdesse muito financeiramente, pois o vencimento da sua aposentadoria não estava tão longe assim. No entanto, ele não podia compreender toda a significação inconsciente do que estava acontecendo. Passou então a ajudar uma pessoa que ele conhecia a cuidar de uma criação de trutas. O início foi promissor mas a experiência da traição se renovou. A pessoa aparecia cada dia com uma "história" diferente que reduzia cada vez mais o trabalho que ele próprio realizava. Até o dia em que uma gota d'água mais forte do que as outras (destruição acidental) fez o balde transbordar. A dor no quadril esquerdo, que havia tomado a forma de uma coxartrose, aumentou e, logo após haver deixado esse patrão que havia traído a sua confiança, ele teve que se submeter a uma cirurgia.
Talvez, se eu tivesse "sabido" na época (há 25 anos), nós pode-riamos ter evocado a necessidade que ele tinha de experimentar a traição ou o abandono simbólico. Aliás, ele já a havia encontrado mais jovem, quando, ao voltar do cativeiro após a guerra, constatou que o seu pai havia abandonado uma bela fazenda na qual eles viviam antes da guerra. Ora, ele o havia expressamente aconselhado a não fazê-lo. Ao constatar que o seu pai a havia vendido, apesar de tudo, para comprar uma outra em outro lugar, decidiu deixar a fazenda da família para trabalhar na indústria. Eu digo "talvez", pois nem sempre estamos prontos para "entender" algumas coisas e ninguém pode viver ou mudar a Lenda Pessoal do outro.
* O joelho
É a segunda articulação da perna, aquela que serve para dobrar, ceder, para ficar de joelhos. É a articulação da humildade, da flexibilidade interior, da força profunda, ao contrário do poder exterior, que gera a rigidez. Ele é o sinal manifestado do alívio, da aceitação, e até mesmo da rendição e da submissão. O joelho faz o papel de "porta da Aceitação" (ver esquema página 132). Ele é o complemento, a continuação do quadril, prolongando a mobilidade deste, porém no sentido inverso. De fato, o quadril é uma articulação que só pode se curvar para frente, enquanto o joelho só se curva para trás. Ele traduz então a capacidade de romper, de ceder, até mesmo de recuar. É também a articulação que faz a alternância entre o
Consciente e o Não-Consciente. Representa assim a Aceitação de uma emoção, de uma sensação, de uma idéia que emerge do Não-Consciente em direção ao Consciente - se estivermos durante o processo de Densificação - ou, mesmo, o inverso, uma idéia que ande em direção a esse Não- Consciente após o Consciente - se estivermos durante o processo de Liberação (ver esquema página 132). É a articulação maior da relação com o outro e da nossa capacidade de aceitar o que essa relação implica em termos de abertura, até mesmo de compromisso (eu não disse comprometimento).1