3.1.4 Importância teórica
3.2. Os media e o desporto a espectacularidade do desporto
Apesar dos diversos problemas espalhados pelo globo, fome, pobreza, miséria, questões diplomáticas, guerras…mais forte que isto é o Futebol, que une povos em torno de uma causa: O Espectáculo! (Braga,2006)
É já um lugar-comum considerar o futebol como um dos grandes desportos da
sociedade actual, ou não tivesse ele o cognome de desporto rei. Sinónimo de festa e euforia, de nervos e espectáculo, capaz de unir e separar nações, proclamar a guerra e a paz, o futebol tem vindo a ganhar uma crescente importância nos nossos dias.
Assim como o futebol, também os meios de Comunicação Social foram ganhando terreno em importância social. Hoje em dia os media representam uma influente parte da sociedade e do pensamento contemporâneo. Esta característica dos media deve-se sobretudo à globalização, e a chegada do que chamamos hoje de “Aldeia Global”. Dentro desta “aldeia global” tudo o que sabemos, sabemo-lo pelos media: sabemos o que eles querem, como eles querem, quando eles querem, como tivemos oportunidade de verificar anteriormente.
Coincidência ou não, o desporto em geral (e o futebol em particular) e os media têm uma relação bastante coesa e forte. Basta folhearmos as páginas de um jornal ou
visualizarmos o telejornal, e facilmente nos apercebemos que o desporto tem uma forte importância para os media. Todos os dias existe uma actualização noticiosa respeitante ao desporto, nomeadamente ao futebol. As notícias sobre futebol por vezes são tão importantes que merecem destaque de primeira página, ou, a abertura do noticiário.
Fora as notícias, é fácil verificar também o destaque dado ao desporto na
programação televisiva. A crescente importância do desporto para os media, como uma das fontes de maior rendimento, reflecte-se, por exemplo, na luta pelos direitos de transmissão em directo de jogos de futebol em grandes campeonatos. A vitória por esses direitos
transmissivos é vangloriada pelos seus vencedores: Um jogo exclusivo SIC, O mundial joga-se
na RTP.
“O desporto tornou-se o „grande negócio‟. É agora uma indústria bem estabelecida com corpos organizacionais estrangeiros, como o Comité Olímpico Internacional (COI). O mundo do desporto é bastante competitivo, não só em termos de quem ganha o primeiro lugar em alguma prova, mas também por considerar que desportos serão os mais atractivos financeiramente, os que geram mais lucro.” (Stead, :185)
Isto acontece porque o futebol entra no campo dos chamados “acontecimentos mediáticos” - acontecimentos que de certa forma interrompem a normalidade e a vida quotidiana, assumindo assim uma grande importância social, e o papel de uma grande cerimónia festiva a que poderemos chamar os “feriados da comunicação social” (Dayan e Katz, 1994:17). Os “acontecimentos mediáticos”, de acordo com Denis McQuail (2003:336), contém as seguintes características: uma “identidade colectiva, mais ou menos reconhecida
de modo idêntico pelos seus produtores (os media) e consumidores (a audiência dos media); a
ligação dessa “identidade (ou definição) com finalidades (…), formato (…), e significado (…); a ideia de identidade e a sua adaptação à realidade social presente; por conseguinte, um acontecimento mediático “seguirá uma estrutura previsível de narrativa ou sequência de
Além de quebrar a rotina, os jogos e futebol são em directo, aumentado
exponencialmente o interesse na competição: não sabemos o seu desfecho, e em qualquer momento existe a tensão do inesperado, como já foi referido anteriormente, acerca da importância do futebol.
Segundo Dayan e Katz (1994), existem alguns factores que determinam a importância destes acontecimentos mediáticos, catalogando a sua relação com a sociedade. Ao nível do futebol, julgo que poderemos considerar três dos pontos apresentados: em primeiro lugar é necessário dar importância às audiências gigantescas que estes tipos de acontecimentos geram, englobando, por vezes, o mundo inteiro. Um segundo ponto diz respeito às
ferramentas tecnológicas utilizadas, onde se consegue a proeza de informar e dar a conhecer ao mesmo tempo os quatro cantos do mundo. Por fim, como já foi referido, estes
acontecimentos são uma quebra do quotidiano, apresentando várias vezes semelhanças com um feriado religioso, por criar hábitos que escapam à rotina quotidiana:
“Tal como os feriados religiosos, também os acontecimentos mediáticos significam uma interrupção da rotina, dias sem trabalhar, normas de participação na cerimónia e no ritual, concentração nalgum valor central, a experiência da comunhão e da igualdade no ambiente imediato de cada um, e de integração com um centro cultural. Os tons reverentes da cerimónia, o modo de vestir e o comportamento dos que se juntam em frente de um aparelho de televisão, a sensação de comunhão com as massas de telespectadores, tudo tem reminiscências com os dias santos. Os papéis assumidos pelos telespectadores diferenciam a transmissão de uma festividade da transmissão quotidiana e transforma a natureza do envolvimento com o meio de comunicação social.” (Dayan e Katz, 1994:30)
A importância e grandiosidade destes acontecimentos foram um dos aspectos que incentivaram à criação de meios de comunicação exclusivos do desporto. Os chamados canais
pay-to-view (literalmente pagar para ver), como a SportTv ou o Benfica Tv, que vivem
exclusivamente do desporto, dependendo quase exclusivamente do futebol, vêem no desporto uma forma de lucro e desenvolvimento, usando os media como meio. Outro aspecto que importa referir, por também ser ilustrativo dessa crescente importância e da ligação media- desporto, é a crescente aposta de jornalistas numa especialização desportiva. Em Portugal, temos o exemplo dos três jornais diários dedicados ao desporto. É um facto bastante interessante, comparar os índices de leituras de jornais dos portugueses, com a tiragem e audiência destes jornais desportivos e verificar também quais os jornais mais lidos em Portugal5. Nos três jornais desportivos mais vendidos em Portugal, é dada a importância não
só à competição em si, mas aos seus aspectos internos e envolventes, como as transferências
5 Segundo os dados apresentados pelo Grupo Marktest relativamente ao estudo da 3º vaga de 2010 do
Bareme Imprense, os leitores de jornais equivalem a 82.2% do universo estudado
(http://www.marktest.com/wap/a/n/id~16e6.aspx). Já relativamente aos jornais mais lidos, de acordo com a mesma fonte, num estudo apresentado em 2005, os jornais diários desportivos e automobilísticos são os mais vendidos, atingindo 8.4% da audiência média, em comparação com a audiência dos jornais diários de informação geral, que representam 7.1% (http://www.marktest.com/wap/a/n/id~86e.aspx).
dos jogadores e os próprios treinos. Aqui está bastante implícita a teoria dos Usos e
Gratificações: sendo o futebol o ópio do povo, então muitas pessoas irão se utilizar dele para descontrair, por isso temos então estes exemplares em Portugal (e há que ter em atenção que
A Bola ou o Record são dos jornais diários mais vendidos em Portugal). Tendo em conta a
importância que lhe é depositada na agenda mediática, também o interesse pessoal aumenta. Entramos assim num círculo vicioso. Uma maior importância na agenda mediática leva a um maior interesse público, por conseguinte a um maior interesse mediático que proporcionará assim um maior consumo.
Esta crescente proliferação não escapou à publicidade, que vê no desporto uma grande oportunidade, na medida em que ao se ligarem a ele, ligam-se também a milhares de pessoas. São os estádios forrados com publicidades, são os patrocínios nas camisolas, a criação de campeonatos com nomes da entidade patrocinadora (Liga Sagras, Liga Vitalis), que também são frutos da aliança celebrada entre os media e o desporto, os anúncios
publicitários com jogadores, etc.
“Até mesmo as roupas e os equipamentos dos jogadores foram alterados de modo a reflectir os interesses dos media. As cores e o design ajudam no espectáculo e no drama. Os nomes nas camisolas ajudam os espectadores. Os logótipos dos patrocinadores proliferam. As oportunidades de interligar desporto, media e comércio já estão ao alcance de todos.” (Stead,
A sobeja importância dos desportos na sociedade actual, assim como o interesse dos media neles depositados, fizeram também com que se criassem novas competições, ou que se aumentassem de alguma forma as já existentes.
“O futebol inglês era outrora um ritual de domingo a tarde: hoje tornou-se quase um evento diário, na medida em que as televisões se esforçam por preencher as suas programações e, mais importante, maximizar o retorno dos enormes investimentos aplicados no jogo. Não só se alterou o dia do jogo do futebol, como se altera toda a liga.” (Stead, :189)
Outro exemplo de maior visibilidade será mesmo os campeonatos de futebol, como o Mundial, o espectáculo desportivo mais assistido em todo o mundo (facto bastante benéfico tanto para os meios de comunicação em massa, como para o desporto no geral, e em particular a FIFA). O número total de participantes tem-se alterado substancialmente, passando de 13 equipas nas primeiras competições para os 32 actuais, abrangendo assim selecções dos quatro cantos do mundo.