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OS MEIOS DE LUTA LABORAL 128 Noções gerais

No documento Dtdotrabalho (páginas 109-112)

No que toca às “lutas laborais”, os processos típicos de actuação podem esquematizar-se do seguinte modo:

- Pelo lado dos trabalhadores:

a) A greve, abstenção colectiva de trabalho, resultante de acordo no seio dum grupo ou categoria de trabalhadores, com o propósito de forçar a aceitação, por parte da entidade patronal, de um benefício exigido anterior ou simultaneamente;

b) O boicote, que se traduz na obstrução sistemática e colectiva ao recrutamento de pessoal para uma empresa (bloqueio de trabalho), ou ao consumo dos seus produtos (bloqueio de consumo).

- Pelo lado das entidades patronais

O lock-out, exclusão sistemática de um certo número de trabalhadores da sua actividade geralmente pela dissolução conjunta das relações de trabalho, para a obtenção de um fim litigioso, com o propósito de readmissão após o termo do conflito.

129. A greve: noção e modalidades 1) A noção de greve em sentido jurídico

A greve em sentido jurídico só é preenchida por comportamentos conflituais consistentes na abstenção colectiva e concertada da prestação de trabalho, através da qual um grupo de trabalhadores intenta exercer pressão no sentido de obter a realização de certo interesse ou objecto comum.

Trata-se, em primeiro lugar, de uma abstenção de trabalho (colectiva). Isso significa, desde logo, que, seja qual for a duração do fenómeno, haverá recusa da prestação na sua inteireza qualitativa, isto é, na totalidade dos elementos que a constituem.

Trata-se, depois de uma abstenção colectiva da prestação de trabalho. É pois necessário o carácter colectivo do fim e do comportamento.

O enquadramento jurídico da paralisação restringe-se aos trabalhadores subordinados, ou seja, aos sujeitos de contratos individuais de trabalho.

Existe uma pretensão comum aos trabalhadores envolvidos, a qual serve de fundamento à decisão concertada de empreender a greve.

2) Modalidades atípicas

Há fenómenos correntemente designados como “greves” que sem deixarem de funcionar como meios colectivamente assumidos, de coacção directa ou indirecta em conflitos laborais, oferecem dúvidas de qualificação.

Assim, existem meios de luta laboral, correntemente designados como “greves” em que não ocorre a abstenção de trabalho:

a) A greve de zelo;

Podem, por outro lado, apontar-se situações em que a abstenção é meramente parcial, quer dizer, respeita apenas a certos actos, tarefas ou formas de conduta, de entre os que se contêm nas funções normalmente exercidas:

a) Greve da mala nos transportes colectivos;

b) Greve da amabilidade em estabelecimentos comerciais; c) Greve das horas extraordinárias.

As paralisações que, embora resultantes de concertação em grupos determinados, não abrange simultaneamente todos os trabalhadores envolvidos:

a) A greve rotativa ou articulada; b) A greve trombose.

130. O direito de greve: natureza e conteúdo (lei 65/77)

A Constituição consagra no art. 57º, o “direito à greve”, em termos cujo laconismo não permite todavia, ocultar um sem número de desafios ainda bem aberto no terreno da doutrina juslaboral.

A) A greve direito

A circunstância de o exercício de uma “liberdade”, consentida ou garantida pelo Estado através da consagração de um correspondente direito subjectivo público, se concretizar em actos, ou, mais precisamente, em abstenções contrárias ao compromisso contratualmente assumido pelo trabalhador face à outra parte, recebe do ordenamento jurídico esta resposta: não haverá aí violação contratual porque, durante a paralisação, o trabalhador fica exonerado do seu débito perante empregador.

B) O conteúdo do direito de greve

O direito de greve surge como instrumento de autotutela de interesses colectivos. Situa-se no ponto de cruzamento do dogma da liberdade pessoal e do princípio da autotutela de interesses colectivos, ambos constitucionalmente consagrados.

Aos trabalhadores é reconhecida, pelo ordenamento jurídico, a possibilidade de agirem em defesa de fins colectivos que se proponham, negando por certo tempo ao empregador aquilo que originariamente lhe pertence e que alienaram em benefício dele através dos contratos individuais de trabalho: a disponibilidade da sua força de trabalho.

O exercício da greve representa a sobreposição (licita) da liberdade pessoal a um compromisso de actividade contratualmente assumido: os trabalhadores colocam-se provisoriamente “fora do contrato”.

131. O exercido do direito de greve A) A decisão de greve

O juízo de oportunidade da greve não está legalmente condicionado: compete, em exclusivo, aos trabalhadores e às suas organizações representativas (as associações sindicais) e escolher o momento em que a paralisação será posta em prática (lei 65/77).

Significa isto, fundamentalmente, que do ponto de vista legal, não existe qualquer articulação necessária entre o recurso à greve e a utilização dos processos de resolução de conflitos (conciliação, mediação e arbitragem): estes

podem ser rejeitados, ou deixados para uma fase posterior ao exercício da pressão directa.

A decisão de greve cabe, em primeira linha, à associação sindical. É um “direito” que se insere no âmbito da autotutela colectiva e que, por aí, se relaciona estreitamente com a capacidade negocial colectiva reconhecida a tais associações.

A decisão não é vinculante para cada trabalhador potencialmente abrangido. Ela traduz uma vontade colectiva à qual os comportamentos individuais podem ajustar-se ou não: oferece o quadro colectivo necessário ao exercício do direito de greve como faculdade individual. Este exercício caracteriza-se pela adesão à greve que é uma manifestação de vontade traduzível pela abstenção individual de trabalhar.

B) A declaração de greve: o pré-aviso

A decisão de greve não basta para que produzam os feitos do exercício do direito; é necessário que essa decisão seja exteriorizada com certa antecedência relativamente ao momento da sua concretização. O art. 5º/1 lei 65/77, impõe, um aviso, o pré-aviso “dirigido à entidade empregadora ou à associação patronal e ao Ministério do Emprego e da Segurança Social”.

Não é assim, legalmente admissível entre nós a chamada “greve surpresa”. O ordenamento jurídico reflecte a preocupação de permitir, às entidades empregadoras e aos destinatários dos bens e serviços produzidos pelas empresas atingidas, a prevenção de prejuízos excessivos ou desproporcionados.

A lei exige que o pré-aviso seja feito “por meios idóneos, nomeadamente por escrito ou através dos meios de comunicação social” (art. 5º lei 65/77).

C) Os piquetes de greve

O art. 4º lei 65/77, admite a constituição dos chamados piquetes de greve, grupos organizados de trabalhadores cuja função consiste em, no decurso da paralisação, “desenvolver actividades tendentes a persuadir os trabalhadores a aderirem à greve, por meios pacíficos, sem prejuízo do reconhecimento da liberdade de trabalhar dos não aderentes.”

D) As obrigações dos trabalhadores durante a greve. Os “serviços mínimos”

Dispõe o art. 7º/1 lei 65/77, que “a greve suspende, no que respeita aos trabalhadores que a lei aderirem, as relações emergentes do contrato de trabalho, nomeadamente o direito à retribuição e, em consequência desvincula- os dos deveres de subordinação e assiduidade”.

A greve coloca, os trabalhadores “fora do contrato”, embora a vinculação jurídica se mantenha e, com ela, a antiguidade (art. 7º/3 lei 65/77), bem como a situação de beneficiário da segurança social (art. 7º/2 lei 65/77).

O art. 8º lei 65/77, estabelece, obrigações de trabalho durante a greve correspondentes a duas finalidades e, em consequência, caracterizadas por graus diversos de generalidade; como regra geral, deve ser prestados, durante a greve, “os serviços necessários à segurança e manutenção do equipamento e instalações” da empresa (art. 8º/3 lei 65/77); em especial, hão-de ser prestados

só “serviços mínimos indispensáveis” à satisfação de “necessidade sociais impreteríveis” (art. 8º/1 lei 65/77).

O art. 8º/1 lei 65/77, alude, de entre o conjunto das necessidades inerentes aos bens e interesses constitucionalmente protegidos em sede de direitos fundamentais. São traços desse critério:

i) Insusceptibilidade de auto-satisfação individual;

ii) A inexistência de meios paralelos sucedâneos ou alternativos viáveis da satisfação das necessidades concretas em causa;

ij) Impreteribilidade ou inadiabilidade. E) O termo da greve

A greve termina como diz a lei, “por acordo entre as partes ou por deliberação das entidades que a tiveram declarado” (art. 9º lei 65/77).

132. Os efeitos jurídicos da greve (quanto às relações individuais de trabalho)

A consequência jurídica mais saliente do exercício da greve é apontada pelo art. 7º lei 65/77: o contrato individual de trabalho de cada um dos aderentes suspende-se, isto é, deixa provisoriamente de produzir os seus efeitos característicos. Sem que a vinculação das partes resulte destruída; cessam o dever de disponibilidade do trabalhador e o correspondente débito salarial do empregador.

O corolário mais importante da suspensão por causa da greve consiste na inadmissibilidade do despedimento, por parte da entidade patronal durante ou após a greve, e com fundamento nela.

O “lock-out”

O encerramento da empresa ou estabelecimento, por decisão do empregador, com base em motivos ligados a um litígio laboral que opõe aos trabalhadores ali ocupados. O art. 58º/4 CRP proíbe o lock-out. é do mesmo teor o art. 14º/1 lei 65/77.

No documento Dtdotrabalho (páginas 109-112)