Capítulo 2: Os Títulos de Renda Fixa e o VaR
2.2. Os Mercados de Títulos de Renda Fixa no Brasil
Conquanto existam os títulos de renda fixa de emissão privada, o mercado de
títulos de renda fixa nacional é marcado pela preponderância dos títulos públicos
federais.
2.2.1. O Mercado de Títulos de Renda Fixa de Emissão Federal e o
Mercado Aberto no Brasil
Sob o ponto de vista histórico, o Mercado de Títulos de Renda Fixa no Brasil foi
e continua sendo fortemente movido pelas operações que ocorrem no Mercado Aberto
(Open Market).
Para CHIESA (1983: 9), as operações do Mercado Aberto:
(...) constituem-se na política de compra e venda de títulos financeiros por parte do Banco Central, como autoridade monetária, tendo por objetivo o ajustamento, a qualquer instante das condições de liquidez da economia e ordenar a estrutura das taxas de juros, tanto do mercado monetário como no de capitais (...) praticam-se oficialmente no Brasil as operações de Mercado Aberto desde 1968, quando a gerência da Dívida Pública do Banco Central abriu sua carteira e deu início à condução das operações com títulos públicos federais (ORTN).
Há de se reconhecer que há quem considere que o início das operações no
Mercado Aberto tenha ocorrido em 16/07/1964 por meio da Lei n°. 4.357 que
autorizava a emissão de ORTN com finalidade quase restrita à cobertura do déficit do
Tesouro Nacional sem a necessidade de emissão de papel-moeda.
A razão de se considerar 1968 o ano que marcou o início do Mercado Aberto é o
fato de que a partir desta data as negociações dos títulos ORTN adquiriram grande
liquidez, algo que no passado não existia.
Uma evolução no Mercado Aberto deu-se em 29/01/1970 por intermédio do
Decreto-Lei 1.079 que instituiu a Letra do Tesouro Nacional (LTN), um título vendido
com desconto sobre o seu valor de face, a qual possuía vencimentos mais adequados ao
mercado que as ORTNs. Nesse mesmo ano as LTNs passaram a ser vendidas no
mercado semanalmente por intermédio dos agentes selecionados pelo Banco Central
para negociação, os chamados dealers.
Quanto aos dealers, vale ressaltar que o Banco Central do Brasil, por intermédio
da Circular n.° 2.993, de 14/07/2000, estabeleceu critérios de seleção das instituições
credenciadas a operar com o Departamento de Operações do Mercado Aberto
(DEMAB) bem como fixou em vinte e cinco o número de instituições financeiras
credenciadas a operar com o DEMAB. As instituições ainda não credenciadas têm seu
desempenho avaliado levando em conta a carteira própria e o volume de suas operações
com o Banco Central e com os demais participantes do mercado. As instituições já
credenciadas são avaliadas levando-se em conta o relacionamento com o DEMAB, entre
outros critérios. Cabe às instituições credenciadas como dealers:
− manter cotação de negociabilidade para a compra e venda de três ou mais
títulos de emissão do Banco Central e do Tesouro Nacional;
− apresentar freqüência em operações com títulos de emissão do Banco Central
e do Tesouro Nacional de forma a dar liquidez a esses títulos;
− manter presença ativa e equilibrada no conjunto de operações realizadas pela
mesa de operações do DEMAB;
− manter o Banco Central informado das ocorrências que afetem o equilíbrio e
a liquidez do mercado financeiro;
− fornecer ao Banco Central, diariamente, informações sobre suas atividades
operacionais que possibilitem avaliar a instituição de per si e sua
participação relativa no mercado;
− conceder atenção prioritária às negociações de títulos do Banco Central, bem
como aos contatos, de rotina ou especiais, mantidos com este Órgão.
O pleno funcionamento do Mercado Aberto nacional iniciou-se tardiamente,
pois somente após a reforma bancária ocorrida em 1964 por intermédio da lei n.° 4.595
de 31/12/1964, é que o Banco Central do Brasil foi criado, e começou a funcionar em
abril de 1965. Antes desta data, cabia ao Banco do Brasil as funções de Banco Central
concomitantemente com suas funções de banco comercial.
A referida lei permitia que o Banco Central, sob certas circunstâncias, adquirisse
títulos do Tesouro Nacional, ainda que para isso papel moeda tivesse que ser emitido.
Com a promulgação da Constituição Federal em 1988 ficou vedado ao Banco Central
conceder direta ou indiretamente empréstimos ao Tesouro Nacional e a qualquer
instituição que não seja financeira; contudo a mesma constituição de 1988 permite que o
Banco Central compre títulos do Tesouro Nacional com o objetivo de regular a oferta de
moeda ou o patamar das taxas de juros. Ou seja, o Banco Central do Brasil não está
totalmente impedido de financiar o Tesouro Nacional, algo que tem o potencial de
mitigar o funcionamento do Mercado Aberto no Brasil.
Atualmente, existem basicamente dois grandes emissores de títulos públicos
federais, o Banco Central-BACEN e a Secretaria do Tesouro Nacional-STN. O BACEN
emite títulos com o objetivo de operacionalizar a Política Monetária doméstica enquanto
que a STN emite seus papéis com o propósito de instrumentalizar a Política
Orçamentária.
Tanto os papéis emitidos pelo BACEN como os do STN são emitidos e
negociados por intermédio de uma câmara de compensação denominada SELIC, que é o
Sistema Especial de Liquidação e Custódia criado em 1979 e administrado pelo próprio
Banco Central. O SELIC permite que os títulos sejam negociados escrituralmente, sem a
necessidade de se emitir um título físico, o que reduz significativamente os riscos
envolvidos na operação. O SELIC constitui um marco na forma de liquidação financeira
das operações de compra e venda de títulos públicos, pois até o seu advento, as
liquidações eram feitas por intermédio da compensação bancária. Estas, a partir de
1979, passaram a ser realizadas na conta Reservas Bancárias que os bancos possuem no
Banco Central, sendo que a liquidação passou a ser feita no mesmo dia que a transação
de compra e venda tiver sido realizada. Adicionalmente, o SELIC permitiu que os
títulos públicos passassem a funcionar como se fossem reservas bancárias, porém com a
vantagem de permitir ao seu detentor remuneração diária. Ora, isto faz com que a
instituição financeira opte por carregar títulos públicos a deter reserva, algo que enseja a
liquidez do mercado de títulos de renda fixa constituído por papéis federais.
O SELIC, nos seus primórdios, conforme atesta GOMES de FARIA (2000: 81),
caracterizava-se pelo fato de:
(...) só admitir um papel federal, a Letra do Tesouro Nacional (LTN), prefixada, emitida com prazo em número inteiro de semanas ou 365 dias cravados e negociada com taxas de desconto bancário (...). Hoje, há uma variedade muito grande de papéis negociados no SELIC, todos de responsabilidade de órgãos públicos, predominantemente federais: Banco Central do Brasil e Secretaria do Tesouro Nacional.