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1. ENQUADRAMENTO TEÓRICO

1.2 MODELOS DE PLANEAMENTO TURÍSTICO

1.2.2. OS MODELOS DE PLANEAMENTO EM TURISMO

O planeamento em turismo assume-se extremamente necessário para congregar todo um vasto conjunto de interesses públicos e privados, para evitar uma amálgama de problemas de difícil solução. O uso do espaço público, o património construído, a utilização dos recursos, entre outros poderiam ser fatores de conflitualidade geradores de problemas complexos, exigindo medidas rígidas das autoridades ao contrário da ética e fundamentos do turismo enquanto elemento de pacificação e de desenvolvimento sustentável.

Segundo Costa “Existem diversos trabalhos que possuem abordagens diferenciadas, mas complementares, sobre a história, a evolução e as filosofias de intervenção do sistema de planeamento na área do turismo Costa (2005, 285) “… é possível denotar que existe um consenso alargado sobre a importância da existência de formas de coordenação e de planeamento na área do turismo.”

Aquela convergência resulta segundo o mesmo autor “…entre outros fatores, do facto de o turismo integrar um vasto sistema de atividades transversais que inclui matérias relacionadas com a economia, sociedade, cultura, património e ambiente, da especificidade intrínseca às características dos produtos e da atividade da «indústria» do turismo (intangibilidade e perecibilidade) e ainda do facto de o turismo ser constituído por uma amálgama de empresas com dimensões muito reduzidas.” (Costa, 2005, 286)

A atomização de empresas e de pequenos operadores ligados ao turismo requereria formas de representação desses subsetores com capacidade para interpretar a sua atividade no futuro e como se interligará com todo o conjunto do tecido empresarial ligado ao turismo, sem esquecer as tendências de evolução sociais e os impactos económicos, sociais e culturais que o desenvolvimento de um setor económico, só por si representa.

O mesmo autor faz uma abordagem aos modelos de desenvolvimento turístico mais representativos e às recomendações da Organização Mundial do turismo quanto ao papel dos estados no desenvolvimento do setor. Diz ainda o investigador comentando a WTO “O consenso alargado sobre esta matéria tem feito com que a Organização Mundial do Turismo, em todos os documentos que debatem este assunto, faça referência explícita à necessidade da existência de formas de intervenção do Estado a nível do turismo.” (WTO, 1985 e 1980).

Modelo de planeamento do Turismo de Lawson e Baud-Bovy

Os modelos de planeamento do turismo foram evoluindo ao longo do tempo, desde os Modelos Racionais de Turismo, passando pelos Modelos Sistémicos do Turismo, seguindo-se os Modelos de Produto para o Turismo e finalizando com os Modelos de Gestão Estratégica para o Turismo, como se poderá ver sinteticamente no quadro que se apresenta na figura 1.

Figura 1 – Modelos de planeamento do turismo Fonte: Costa, 2014, p.34

Os modelos racionais possuem uma forte ligação ao território, inspirados nos modelos de planeamento urbano, incorporam a realidade do turismo ter um sistema empresarial e em que as transformações do território dependem da forma como essas atividades económicas se organizam e desenvolvem.

Os “modelos de produto” têm uma lógica racional, mas enfatizam o desenvolvimento de Produtos Turísticos que se operacionalizam e implementam em territórios muito desenvolvidos.

Na sua origem esteve um relatório publicado pela OMT, em1980, que demonstrou que a expansão do turismo, durante a fase do planeamento racional, seguiu uma lógica económica, ignorando os impactos sociais e físicos.

O primeiro académico a propor o abandono do paradigma racional foi Baud-Bovy (1982) ao recuperar uma ideia desenvolvida, cinco anos antes, juntamente com Fred Lawson, sob a sigla PASOLP.

Centra a sua abordagem na forma como os destinos devem procurar fazer a análise e a viabilidade dos seus produtos e as dinâmicas dos mercados.

Colocam estas abordagens de produto enquadradas nos recursos turísticos existentes.

Baud-Bovy desenvolve o modelo de planeamento económico designando-o de PASOLP - Products Analysis Sequence for Outdoor Leisure Planning, apresentado na figura 2 e que considera quatro fases nomeadamente:

1 – Pesquisa e análise dos rescursos dos mercados, 2 – política e fluxos turísticos,

Segundo Costa (2001, 431) o modelo proposto por Baud-Bovy contribuíu para a que se ultrapassa-se a mera visão económica do planeamento turístico e possibilitasse uma abordagem interligada dos vários sistemas (económico, social e ambiental).

Figura 2 - Esquema de representação do Modelo PASOLP Fonte: Lawson e Baud-Bovy, 1977

Modelos de produto: o ciclo de vida do Produto de Butler (1980)

O modelo de “ciclo de vida do produto” de Butler (1980) pode ser considerado um “modelo de produto” Costa (2001). Efetivamente este modelo surge apoiado pelo ciclo de vida de um produto também estudado no Marketing e que Kotler (2006) muito bem apresenta, ao referir que um produto possui um ciclo de vida sustentado nas seguintes pressupostos: 1- Os produtos têm vida limitada; 2- As vendas dos produtos passam por estágios distintos, cada um deles com desafios, oportunidades e problemas diferentes para as empresas; 3- Os lucros sobem e descem nos diferentes estágios do ciclo de vida do produto; e 4- Os produtos necessitam de

diferentes estratégias de produção, financeira, marketing, compras e recursos humanos de acordo com cada estágio do seu ciclo de vida.

No caso concreto do modelo de Butler para o Cicli de Vida do Produto Turístico apresenta-se no gráfico 3 a sua evolução e se faz também a descrição das suas diferentes fases.

Figura 3 - Representação do Ciclo de Vida do Produto Turístico de Butler Fonte: Butler, 1980

Fase 1 - Exploração

Nesta fase, não há facilidades para visitantes e o número de visitantes é pequeno e caracterizado sobretudo por ser constituído por turistas alocêntricos /exploradores; O território caracteriza.se pelos seus recursos naturais e culturais; As viagens são sobretudo de organização individual; Turismo com pouca importância para a economia local, mantem-se inalterada pelo turismo; Existe no entanto um contacto local elevado.

Fase 2 Envolvimento

Os visitantes aumentam; As facilidades turísticas primárias ou exclusivas emergem; Área de mercado definida, publicidade aumenta, desenvolve-se a sazonalidade; A pressão sobre as agências governamentais e públicas para fornecer transportes e construir infraestruturas e facilidades; Padrões sociais ajustados;

Fase 3 – Desenvolvimento

Os mercados turísticos são bem definidos; Existe publicidade nas regiões geradoras; Existe progresso do desenvolvimento, envolvimento local e declínio do controlo; Facilidades locais desaparecem em favor de organizações externas (alojamento); Facilidades de réplica ou importadas/atrações a aparecer; Mudança da paisagem sem respeito pela legislação local e tradição; Constatam-se mais turistas do que habitantes locais na época alta; Trabalho “Importado” (imigrantes).

Fase 4 - Consolidação

A taxa de crescimento do turismo começa a declinar; Os níveis de capacidade de carga atingidos ou ultrapassados; O número de turistas constantemente a exceder as populações locais; Grande parte da economia ligada ao turismo; Marketing para combater a sazonalidade;

Fase 5 - Estagnação

É alcançado o pico de visitantes; Os níveis de capacidade de carga são atingidos / ultrapassados; Surgem problemas ambientais, sociais, económicos e tornam-se evidentes; Deixou de estar na moda; Alta dependência de repetição, por exemplo, conferências; Capacidade de oferta excedente (ex. camas); Turismo de massa (psicocêntricos); esforço para manter os visitantes; Atrações naturais substituídas por atrações artificiais; Destino divorciado do ambiente local.

Novas propriedades periféricas em relação à área turística originais e mudam frequentemente de proprietário

Fase 6 - Declínio

Não pode competir com as mais recentes atracões (espacialmente e geograficamente); Já não é atraente para visitantes (turistas ou excursionistas); Aumento do volume de negócios de propriedades, Facilidades para turistas substituídas por não-turísticas, Declínio de viabilidade; Aumenta a compra por locais pois os mercados declinam; Conversão de facilidades em condomínios, apartamentos, casas de repouso; Atraente para residência permanente

Fase 7 – Rejuvenescimento do Ciclo de Vida

Novas atrações; Novas atrações criadas pelo homem; Elementos de singularidade (uniqueness); Aproveitar os recursos naturais “inexplorados ''.

Criar atrações sem sazonalidade; Equilibrar os esforços entre o setor privado e publico; Atrair nichos de mercado / grupos específicos de visitantes; Novos produtos criativos!

Este modelo enquadra-se no novo paradigma, segundo o qual, o sucesso dos destinos turísticos passa pela preservação das suas características originais e capacidade de construção de produtos “honey-pots”, - apoiando-se em políticas de organização em rede, congregando os vários stakeholders das comunidades locais, e promovendo-se como destinos turísticos “produto espaço”(Costa, 2006).

As estratégias e as políticas de desenvolvimento devem ser claras em termos de definição de objetivos e opções, os destinos turísticos precisam de “alma” e serem “sonhados” pelos seus atores, esta “inspiração” deve ser apoiada em exercícios racionais técnico-científicos de inventariação, avaliação e cenarização (Costa, 2014).

Os destinos turísticos com sucesso serão aqueles com o planeamento turístico corretamente realizado e se desenvolverem mantendo a autenticidade, singularidade e as características originais - “God-given distinctiveness”, e expandindo as infraestruturas, os equipamentos e instalações, sem destruir os “honey pots”, e tiverem a arte de construir uma rede local (socioeconómica e física) cada vez mais necessária para a sobrevivência dos destinos turísticos.

Modelo “Produto-Espaço”: O paradigma emergente

O modelo “Produto-Espaço” tenta associar as vertentes dos outros modelos, nomeadamente racionais, sistémicos e de produto, mas acrescentando-lhes a necessidade de uma filosofia de gestão e visão estratégica para “sonhar o futuro” que deve emergir através da criação de objetivos de médio e longo prazo. (Costa, 2014, 34)

O modelo referido poderá dizer-se que corresponde ao somatório dos modelos anteriores a que se acumula uma filosofia de gestão e visão estratégica para “sonhar o futuro”. (Costa, 2014, 35)

A figura 4 apresenta esquematicamente o modelo “Produto Espaço”.

Figura 4 – Representação do Modelo Produto-Espaço

Fonte: Costa, 2014

O Paradigma emergente: “Modelos de Gestão estratégica para o Turismo” - Os mais recentes modelos para o planeamento do turismo surgiu devido às “tensões” existentes entre as várias correntes de modelos (racionais, sistémicos e de produto) e devido à crescente complexidade e dinâmicas existentes no conhecimento e setor do

É sobretudo a preocupação de gerir recursos de uma forma eficiente e eficaz, associados à necessidade de assegurar formas de crescimento e desenvolvimento sustentáveis em termos ambientais e sociais e defende que o setor público está intrinsecamente envolvido no turismo e que para orientar as suas próprias ações e as ações do setor privado, deve ser estabelecida uma “política de turismo”.

O setor público deve agir como um conjunto de diretrizes para determinar os objetivos e as ações específicas a prosseguir para atender às necessidades das pessoas nas áreas particulares do destino em questão. O Modelo “Produto-Espaço” argumenta que a sustentabilidade de um destino turístico depende da qualidade e da quantidade de produtos existentes. Para que uma boa avaliação destes recursos possa ser feita é necessário que os destinos procedam a uma inventariação criteriosa e averiguem se possuem clusters

organizados de oferta e massa crítica de produtos.

Os destinos necessitam de organizar a sua oferta tendo em consideração a hierarquização dos seus produtos, a identificação dos seus honey-pots e a estrutura económica e das atividades não lucrativas que lhe estão associadas (Costa, 2014).

Esta gestão integrada de produtos necessita de ser feita numa parceria entre os setores público e privado e dentro de um sistema de governança flexível e com uma “geometria organizacional” ajustada às características da região.

O turismo é uma indústria de mão-de-obra intensiva e por conseguinte ajuda a resolver o problema do desemprego em muitas regiões da Europa.

Em termos de planeamento e organização do setor do turismo, o turismo necessita de ser desenhado de forma diferente: - com uma visão estratégica, - um planeamento moderno, e novas estruturas de governança.

O planeamento tradicional do turismo fazia-se segundo uma filosofia top-down por organizações de nível Nacional. Mas o futuro do planeamento do turismo deve progredir com mais flexibilidade para permitir a emergência de produtos turísticos “tailor-made” concebidos no âmbito de contextos de estruturas flexíveis de governança.

O planeamento do turismo tem de se focar nas necessidades dos visitantes (consumidores de produtos turísticos). Neste sentido devem ser feitos inventários compreensíveis dos produtos turísticos de modo a serem desenvolvidos.

As organizações de turismo locais devem focar-se mais ativamente no planeamento do sector do turismo, já que é a nível local que a maioria dos impactos podem ser eficazmente solucionados. A ênfase deve ser posta na legislação, a fim de permitir e estimular, a emergência de estruturas de nível sub-regional, em que os produtos turísticos podem ser concebidos e geridos de uma forma muito mais flexível.

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