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Os modificadores realizantes e desrealizantes

No documento Os operadores na argumentação do discurso (páginas 89-96)

Nesta subseção, tratamos da noção de modificador, iniciando pela concepção de modificador apresentada na Teoria dos Topoi, e por último, acrescentando as noções apresentadas pela Teoria dos Blocos Semânticos.

Após a introdução da noção de topoi intrínsecos na Teoria da Argumentação na Língua, Ducrot (1998a) passa a considerar duas hipóteses em seus estudos sobre a argumentação. A primeira diz que as palavras com conteúdo lexical (verbos e substantivos) são como feixes de topoi. Isso significa que, ao aplicar-se essas palavras a um objeto, evocam-se certos tipos de discursos possíveis em relação a esse objeto. Uma segunda hipótese diz que os topoi podem aplicar-se com mais ou menos força: alguns encadeamentos discursivos podem ser mais ou menos necessários que outros para legitimar a aplicação que se faz de determinadas palavras.

Vista dessa forma, a significação da palavra, constituída de topoi, carrega em si mesma um tipo de gradualidade. Ou seja, as palavras têm, segundo sua semântica própria, graus de aplicabilidade diferentes. Ducrot separa as palavras que

conteriam esse grau de aplicabilidade em dois grupos: o grupo dos predicados - substantivos e verbos -, e o grupo dos modificadores - adjetivos e advérbios - que determinam os predicados. Seu estudo detém-se unicamente nos modificadores “que explicitam caracteres cuja presença diminui ou aumenta a aplicabilidade de um predicado, isto é, [...] a força com a qual se aplicam, a propósito de um objeto ou de uma situação, os topoi que constituem sua significação” (DUCROT, 1998a, p. 48). Há dois tipos de modificadores: os realizantes (MR) são aqueles que aumentam, e os desrealizantes (MD) são os que diminuem a força da aplicação do topos.

Quanto à gradualidade, o estudo de Ducrot não se restringe aos comparativos. A noção com que trabalha é metalingüística e pode aplicar-se, inclusive, a palavras que não sejam traduzidas por meio de comparativos. Nem sempre o comparativo mais expressa a idéia de mais. Ele pode ser interpretado sem evocar o aspecto gradual. No caso dos verbos avançar ou correr, por exemplo, sempre se atribui a gradualidade a circunstâncias particulares. Correr mais significa correr mais rápido, ou por mais tempo. Ao aplicarmos o comparativo mais ao verbo avançar (X avançou mais que Y), observa-se que a gradualidade não está situada na palavra avançar, mas no espaço percorrido (X percorreu uma distância maior). A noção de avanço apresenta-se como a convocação de princípios graduais; introduz- se a gradualidade na noção de avanço como característica intrínseca.

Para Ducrot (1998a), uma palavra lexical Y é MD em relação a um predicado X somente se o sintagma XY não for sentido como contraditório e se tiver uma orientação argumentativa inversa, ou uma força argumentativa inferior à de X. Caso contrário, isto é, se XY tiver uma força argumentativa superior à de X e a mesma orientação, Y é um MR.

Um modificador realizante (MR) pode ser identificado se for possível enunciar, sem intenção argumentativa particular, uma oração do tipo X, e inclusive XY. É o caso da seguinte frase:

@ Pedro é um parente, e inclusive (um parente) próximo.

Por outro lado, um modificador desrealizante (MD) pode ser identificado se houver possibilidade de enunciar X, mas XY, sem ter razão argumentativa precisa

para opor X a XY. A, mas B supõe uma conclusão determinada apoiada por A. Raccah (1990a, apud Ducrot, 1998a), apresenta uma descrição de mas que não supõe a existência de uma conclusão determinada. O símbolo @ indica a possibilidade de oposição imediata entre X e XY, independente de conclusão precisa, diante do encadeamento X, mas XY:

(40) @ Pedro é um parente, mas (um parente) distante.

O uso do mas, nessa frase, independe da conclusão de proximidade para a qual orienta a palavra parente. O mesmo ocorre com (41):

(41) @ Existe um problema, mas fácil.

Nesse caso, fácil desrealiza problema. A conclusão de dificuldade para a qual orienta a palavra problema tem sua força diminuída pelo adjetivo fácil. O símbolo # indica a necessidade de imaginar argumentação a favor de uma terceira proposição para compreender o encadeamento X, mas XY:

(42) # Pedro é um parente, mas (um parente) próximo.

Para compreender (42), é necessário imaginar uma situação enunciativa mais complexa, a favor de uma terceira proposição para se compreender que o adjetivo próximo esteja desrealizando o substantivo parente.

Considerando a função sintática dos adjetivos, os modificadores desrealizantes subdividem-se em inversores e atenuadores. O lingüista explica que “Em francês, quando a função sintática do adjetivo desrealizante é a de predicativo, sempre se produz uma inversão.”(DUCROT, 1998a, p. 55). Vejamos o exemplo:

(43) A mudança em Paris é lenta, não ficarás desorientado.

Em (43), lenta tem a função de predicativo. Segundo a Teoria da Argumentação na Língua (TAL), o adjetivo lenta está dado como o objeto da enunciação, portanto, o locutor se identifica com o ponto de vista em que a qualificação é apresentada. Para ser atenuador, o MD deve ter a função de adjunto adnominal, como em (44):

(44) Houve lentas mudanças em Paris, talvez fique desorientado.

Nesse caso, lentas tem a função de adjunto adnominal, é uma expressão parentética, e não é o propósito da enunciação. De acordo com a TAL, o locutor declara concordar com o ponto de vista apresentado pela qualificação, o que não implica tê-la como já conhecida ou admitida pelo alocutário.

Ducrot ressalta que, ao contrário dos MD, os MR não introduzem inversão, qualquer que seja a função sintática. Chega-se ao mesmo tipo de conclusão a partir de Houve rápidas mudanças e de As mudanças foram rápidas. Os MR não são sensíveis, no que tange à orientação argumentativa, à oposição entre as funções de predicativo e de adjunto adnominal.

Quanto aos advérbios, os estudos revelam que não há uma oposição funcional gramatical, análoga às funções de predicativo e de adjunto adnominal. Isso dificulta a caracterização dos advérbios como atenuadores ou inversores. C. de Cortanze (apud DUCROT, 1998a) aponta algumas regularidades observadas no emprego dos advérbios. Quando o MD está intercalado no enunciado, produz uma inversão:

(45) Foi lentamente que Paris mudou, tu não ficarás desorientado.

Uma conclusão positiva é possível invertendo-se o topos, supondo que a mudança impede a desorientação. No caso de o advérbio preceder o verbo, o MD tende a desempenhar o papel de atenuador, e a não provocar inversão:

E, se o advérbio estiver posposto, pode-se conceber uma conclusão positiva ou negativa. Dependendo da entonação, o MD pode ter a função de inversor:

(46) Paris mudou lentamente, tu corres o risco de ficar desorientado.

Segundo Ducrot (1998a), os estudos sobre os advérbios corroboram os estudos sobre o adjetivo, uma vez que apontam algumas semelhanças entre essas duas classes. Se a indicação dada pelo MD é apresentada como objeto da enunciação, desde o momento em que o locutor se responsabiliza pela indicação e faz dela o propósito de sua fala, essa indicação produz um efeito de inversão. Por

outro lado, se a indicação aparece como um acessório, separado da intenção da enunciação, não faz mais do que atenuar, mantendo a orientação intrínseca do predicado.

Dessa forma, corrobora-se também o uso do teste do mas para explicar o comportamento dos modificadores desrealizantes. Numa estrutura X mas Y, X e Y devem ir em sentidos opostos. Se Y é um modificador de X, mas exige que Y seja inversor, como no enunciado A situação mudou, mas lentamente. O verbo mudou orienta para rapidamente. Com o uso do mas, essa orientação se inverte para lentamente, e é com este ponto de vista que o locutor concorda. Para ser somente atenuador, o mas seria um tanto estranho como no enunciado A situação mudou, mas um pouco, diante do qual seria necessário usar um #. Do ponto de vista dos MD, as expressões pouco e um pouco são consideradas ocorrências de um mesmo morfema abstrato com valor desrealizante. Esse morfema é suscetível de manifestações morfológicas diferentes: uma forma em que é propósito e é inversor, e outra em que não se constitui propósito e é atenuador. Por isso, o autor dá o mesmo valor de desrealizante inversor a Paris mudou pouco e a A mudança de Paris foi lenta. E o mesmo valor de desrealizante atenuador a Paris mudou um pouco e a Paris experimentou uma lenta mudança.

Ducrot também analisa a expressão avaliativa não mais do que, a qual pode ser considerada um MD. No entanto, deve se combinar no enunciado com uma palavra que tenha valor de MD, tenha ou não a função de inversor. Usa-se o não mais do que para refutar uma informação precedente. Em (47), observa-se que a referida expressão orienta para a conclusão de que 100 francos é barato e restringe os encadeamentos.

(47) Isso não custa mais do que 100 francos.

Na frase abaixo, a expressão 100 francos tanto pode orientar para o barato quanto para o caro:

(48) Isso custa 100 francos.

Custar está orientado intrinsecamente para o caro. A frase (48) deve ser enunciada em um contexto em que 100 francos é visto como preço barato,

desrealizando a palavra custar (se 100 francos é preço alto, a ironia consistirá em apresentá-lo como barato). A introdução de não mais do que orienta para conclusões relacionadas a barato.

Outra forma de desrealização é a datação dos acontecimentos, de cujos exemplos tomaremos apenas os relativos a cedo e tarde. Os MD e os MR são expressões que atenuam ou reforçam a realidade do acontecimento: a data de um acontecimento o torna mais ou menos dependente do predicado mediante o qual se representa. Conforme a situação de discurso um modificador quantitativo pode ser realizante ou desrealizante. É o que ocorre com as datas. Nos predicados de acontecimentos, cedo é MR e tarde é MD:

(49) Pedro chegou, mas cedo. (50) Pedro chegou, mas tarde.

Para o desrealizante tarde, Ducrot aponta duas possibilidades de explicação. Uma explicação lógica, baseada numa lógica temporal elementar. O fato de que um acontecimento se produz tarde reduz, a priori, o lapso durante o qual seus efeitos podem existir. E uma explicação lingüística, em que ver uma data como tarde é ver o acontecimento datado como distante e, por isso, ausente.

O que vimos até aqui, refere-se ao estudo dos modificadores com base na Teoria dos Topoi, que, juntamente com a Teoria da Polifonia, compreende a segunda forma da Teoria da Argumentação na Língua. Passamos a expor, agora, a noção de modificadores, reformulada na Teoria dos Blocos Semânticos, sob o conceito de operador.

Ao estudar os modificadores à luz da TBS, Ducrot retoma a noção de modificadores introduzida na Teoria dos Topoi, segunda forma da TAL. Nessa forma, o modificador era um termo Y que, aplicado a um termo X, tinha por efeito modificar as argumentações normativas cujo X era o ponto de partida, mas somente reforçando-as ou contrariando-as. O termo Y modificava somente as formas tópicas que constituíam o sentido de X, sem introduzir um topos novo. Pela TBS, uma palavra gramatical Y é modificador em relação a uma palavra X se a AI do sintagma XY é constituída somente pelas palavras plenas contidas na AI de X. Isso significa

que Y não introduz nenhuma entidade nova plena nos aspectos que constituem a AI de X. O modificador apenas reorganiza-as, combinando-as de um modo novo com os conectores e a negação. Esse caso pode ser exemplificado pelo emprego dos modificadores desrealizantes inversores, como fácil em relação a problema, ou distante, em relação a parente. Ambos os termos funcionam como negações atenuadas e atribuem a XY uma AI conversa da AI de X. Assim, o sintagma pouco prudente tem a mesma AI atribuída a imprudente: perigo PT neg-precaução. E, se colocarmos na AI da palavra problema o aspecto esforço PT neg-compreensão, o sintagma problema fácil terá como AI o aspecto converso da AI de X: esforço DC compreensão (basta fazer esforço para compreender).

Observamos que o conceito de modificador agora passa a ser descrito em relação aos aspectos que reorganizam o sentido de uma palavra, e não mais em relação às formas tópicas. Mantém-se, no entanto, a característica da gradualidade, noção da qual tratamos na seção 2.5.

Outra questão a ser tratada no âmbito dos modificadores, é o efeito semântico produzido pela negação numa frase. Ducrot (2005e) explica que a negação é um fenômeno que pode ser expresso por várias formas lingüísticas, não somente pela palavra não. Por exemplo, dizendo que Pedro é pouco prudente nega-se a prudência de Pedro, através da palavra pouco, cujo sentido atua negativamente sobre o sentido de prudência. A descrição do sentido de uma expressão não-e deve ser feita a partir da descrição de sua AI e sua AE. Não-e tem em sua AE os aspectos recíprocos dos aspectos da AE de e. Na AE da palavra prudente, temos os aspectos prudente DC segurança e prudente PT neg-segurança. Consideramos os aspectos recíprocos para descrever, então, a palavra imprudente: neg-prudente DC neg- segurança e neg-prudente PT segurança. A partir desses aspectos, podemos construir os encadeamentos Pedro é prudente portanto não sofrerá acidentes e Pedro é imprudente (neg-prudente) portanto sofrerá acidentes. E também: Pedro é prudente no entanto poderá sofrer acidentes e Pedro é imprudente (neg-prudente) no entanto não sofrerá acidentes. Considerando as possibilidades de relação entre os aspectos no quadrado argumentativo, temos a afirmação de prudente como o aspecto X DC Y e a negação com o aspecto neg-X DC neg-Y.

Considerando, agora, a descrição a partir da AI, teremos na AI de não-e os aspectos conversos dos aspectos que constituem a AI de e. Por exemplo, a AI de prudente (e) contém o aspecto perigo DC precaução. Conforme a regra, a AI de imprudente (não-e) é perigo PT neg-precaução. Considerando o quadrado argumentativo, temos que o converso de X DC Y é X PT neg-Y.

Essa regra de negação das AI não se aplica a expressões e palavras paradoxais, uma vez que não é possível transformar o aspecto da AI em seu converso. Por exemplo, a palavra masoquista (e) tem em sua AI o aspecto sofrimento DC satisfação. Por sua vez, não-masoquista (não-e) contém em sua AI o aspecto sofrimento DC neg-satisfação. A regra geral é que no aspecto converso o conector tem que mudar, mas com a palavra masoquista isso não acontece, pois o conector permanece o mesmo. Portanto, a negação das palavras paradoxais é uma exceção à regra da negação.

Ducrot (2005) também explica que a regra da negação pode ser um critério para atribuirmos a AI às palavras. Dentre várias AI possíveis, a mais adequada é aquela que permite verificar a lei da negação. O autor exemplifica com a análise do sentido do verbo lavar. Sua AI é expressa pelo aspecto sujo em t0 PT neg-sujo em T1. Para neg-lavar, teremos a AI sujo em t0 DC neg-neg-sujo em t1, aspecto que constitui a AI da palavra sujo. Observamos que a dupla negação, no segmento aporte do aspecto produz um segmento equivalente a sujo em t1. Se uma roupa está suja em um momento t0 e ninguém a lava, ela continua suja no momento seguinte t1. Ressaltamos que, para o presente trabalho, a lei da negação permitirá, através da hipótese da negação, sobre a qual tratamos no Capítulo 4, tomar decisões em relação à AI das palavras. E, além disso, a negação produz efeitos de sentido, no discurso, na função de modificador desrealizante inversor.

No documento Os operadores na argumentação do discurso (páginas 89-96)