APRESENTAÇÃO 1 Trilhas e escolhas:
2. Os modos de pensar
e os modos de fazer a investigação
É pressuposto para nós, como para tantos pensadores das Ciências Sociais (como Norbert Elias e Max Weber), que ao tratarmos as relações sociais, os dilemas humanos e suas transformações, não há regularidade comprovável. Determinismos de todo tipo têm sido negados por trajetórias nacionais, regionais e pessoais que contradizem as estatísticas, as previsões, os esquemas evolucionistas e mecanicistas. Modelos de desenvolvimento transplantados em contextos os mais diversos têm resultado em verdadeiros protótipos do “monstro de Frankstein”, abandonados por seus criadores e estranhados no mundo para o qual foram criados. São expressões desta monstruosidade a modernização acelerada ocorrida entre as décadas de 1950 e 1970 (que conteve em si a industrialização e o processo mais amplo chamado por Revolução Verde), que, ademais, impôs, indistintamente, um modelo de desenvolvimento “ideal”, importado dos países centrais, para todas as regiões brasileiras, resultando num maior acirramento das desigualdades no campo. Também os entraves encontrados pela expansão do capitalismo em regiões povoadas por sociedades pré- capitalistas, como a resistência de grupos indígenas bolivianos e colombianos do Vale Cauca
a assalariar-se nas usinas canavieiras e nas minas de estanho instaladas em seu território e a ressignificação do dinheiro segundo sua cosmologia, interpretado como a expressão do “diabo”, que torna tudo ao redor infértil (TAUSSIG, 2010). Ou, quem sabe, uma usina sucroalcooleira que teve de transplantar toda sua estrutura porque, em função da resistência de sitiantes em arrendar sua propriedade e abandonar a atividade agrícola, não encontrou a quantidade de terras que necessitava para plantar cana-de-açúcar para abastecer sua indústria. Quem sabe?
Se não há regularidade possível, apenas a história e os processos guardam a chave da explicação dos fenômenos sociais. Esta posição é compartilhada e praticada por diversos investigadores que realizaram férteis demonstrações e teorizações a respeito, como Elias (1994) e Thompson (1978). Elias chamou atenção para a necessidade da observação da velocidade particular das mudanças nos grupos humanos, da ordem destas mudanças (que certamente variam) e da necessidade de ultrapassar as barreiras da ideia de “desenvolvimento econômico” (1994, p. 143-145). Thompson anuncia, rigorosamente que “a lógica do processo só pode ser descrita em termos de análise histórica” e que “nenhuma reconstituição estrutural estática pode dar conta da lógica do processo histórico determinado, um processo que permanece sujeito a certas pressões” (1978, p. 120)
Para Elias, também “as ações individuais brotam de processos sociais em andamento” e devem ser compreendidas à luz de tais processos. O conceito de habitus, essa “composição social do indivíduo”, que surge de tais reflexões, é noção encontrada também em passagens de Thompson (1978, p. 194), que se refere ao “habitus de viver”, essa subjetividade originada “dentro do mesmo vínculo com a vida material e as relações materiais em que surgem nossas ideias” (p. 189). Para Thompson, é a experiência o filtro através do qual os sujeitos tratam as situações que os alcançam. Williams, caminhando na mesma direção afirma que “toda consciéncia es social, sus processos tienen lugar no sólo entre, sino dentro de la relación, de lo relacionado” (2009). Para ele, as mudanças sociais mais amplas são experimentas, também, como mudanças na estrutura de sentimentos, cuja definição alternativa fornecida pelo próprio autor é a de experiência.
E contra o estruturalismo (esse “processo sem sujeito”), e as análises mecanicistas e fragmentárias, a perspectiva dos processos exige um tratamento da história como “uma história total da sociedade” (THOMPSON, 1978, p. 101) Não há possibilidade de que uma história setorial – econômica, política, intelectual, social, cultural – dê conta de explicar os fenômenos sociais e suas mudanças. Apenas o tratamento de todas essas dimensões da
experiência humana e societal, observados sincronicamente, podem construir análises efetivamente fecundas.
Os processos são, então, construídos por meio do desenrolar histórico, compreendido como um emaranhado indistinto de “dimensões” da realidade (econômica, cultura, social, política), tratados sob o filtro da experiência e dos sentimentos (ou do processo de construção do habitus) e como o único caminho possível para a explicação tanto de mudanças sociais mais amplas como das mudanças vivenciadas pelos sujeitos individualmente, entendidos como sujeitos sociais.
E é a partir desta perspectiva que miramos para o objeto de nossa reflexão, tomando-o como um “fato social total”, relembrando as lições de Marcel Mauss. Buscamos apreender as diferentes expressões da resistência dos sitiantes do noroeste paulista à expansão da cana, na economia (ou na organização da produção e na comercialização), na cultura, na relação com a sociedade circundante (o Estado, a Igreja, os Poderes Públicos), e como estas resistências se expressam também por meio da experiência e dos sentimentos.
Tais pressupostos, se pode supor, solicita uma análise sobretudo qualitativa, que alcance os sujeitos e suas relações e dê conta de captar sua fala, seus sentimentos, a exposição de seu pensamento e possibilite a uma observação direta destes fenômenos. Realizamos então, 8 etapas de trabalho de campo, com durações variadas (entre 5 e 15 dias cada uma). E valendo-nos, então, da experiência adquirida em investigações anteriores16 sobretudo com a metodologia da História Oral, optamos pela realização de entrevistas como o instrumento metodológico privilegiado. Realizamos entrevistas com integrantes de 15 famílias na área de predomínio da pequena agricultura familiar diversificada, e de 16 famílias na área onde se expande a monocultura da cana-de-açúcar. Buscamos registrar a diversidade de situações encontradas, no tocante a: composição étnica, gênero, geração, situação de moradia, arranjos produtivos, organização da mão de obra, composição da família. E privilegiamos sobretudo o caso dos sitiantes proprietários (embora, como já advertimos, sejam considerados sitiantes também os moradores e parceiros) pelo fato de que estes são os que podem decidir por arrendar ou não a propriedade para o plantio da cana-de-açúcar, questão a que remete diretamente ao tema proposto para nossa reflexão. Além disso, entrevistamos funcionários de instituições públicas e privadas da região que tem nos sitiantes seu principal público alvo,
16 Venho trabalhando em investigações no campo da Sociologia do Trabalho e da Sociologia Rural desde os estudos de iniciação científica (2001), sempre sob orientação da Profa. Maria Aparecida de Moraes Silva, e utilizando sobretudo da metodologia da História Oral, mas também participando da construção de uma diversidade de metodologias qualitativas adequadas aos temas e aos sujeitos específicos de cada investigação. Na dissertação de mestrado (MELO, 2008, p. 79-82) faço referência a tantas destas experiências metodológicas construídas coletivamente (com os colegas do grupo Terra, Trabalho, Memória e Migração, acima referido).
além de funcionários da Usina Colombo, um corretor de imóveis, um membro da Igreja e diretores de unidades de ensino agrícola. Foram gravadas 117 horas de entrevistas17.
Como instrumentos metodológicos complementares que cumpriram, também, papel importante na composição do material de análise estão: tratamento de dados secundários do IBGE; processos de compra e venda de algumas pequenas propriedade e também das terras onde hoje estão instaladas a Usina Colombo; fotografias produzidas durante os trabalho de campo; fotografias recolhidas entre as famílias de sitiantes; leis e outros documentos relacionados aos esforços do município de Jales em limitar a expansão da cana-de-açúcar no município. Também os diários produzidos sistematicamente a cada etapa do trabalho de campo foram material valioso, no sentido em que nos possibilitou preservar a memória das relações observadas, dos momentos vivenciados na relação com os sitiantes, e de muito do que foi visto e ouvido sem ter sido registrado por outro meio. Certamente tantas dessas memórias não foram mencionadas neste trabalho, e tantas outras não são encontradas nem mesmo nestes diários de campo. De todo modo todas elas contribuíram para a compreensão destes sujeitos, e por meio da relação de alteridade vivenciada, também me tocaram, contribuindo para a compreensão de mim mesma e também para algum tipo de transformação, e serão preservadas com a distinção e o afeto que merecem.
De posse desse extenso material recolhido produzimos tabelas, mapas e quadros e nos apropriamos de algumas ilustrações (imagens e fotografias) que enriqueceram em muito as análises qualitativas. Transcrevemos o extenso volume de entrevistas e, certamente, não nos faltou excertos e exemplos valiosos de fenômenos, muitos das quais, por si, representam suas próprias explicações. Nos quadros construídos com as informações tomadas nos sítios identificamos cada um deles com o nome daquela que chamamos por “família agregadora”, a que abriga outros sitiantes não aparentados que se casaram com seus herdeiros (que podem ser tanto homens como mulheres, embora na maioria das vezes sejam homens).